Terceira escola a desfilar no domingo de Carnaval, a Portela promete abrir caminhos na Marquês de Sapucaí em 2026 ao levar para a avenida o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A proposta mergulha na ancestralidade e na resistência negra no Sul do país, a partir da história de Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, africano do Benin que se tornou um importante símbolo religioso no Rio Grande do Sul.

Durante a concentração da escola para o ensaio técnico realizado neste sábado, os coreógrafos da comissão de frente, Edifranc e Cláudia Motta, falaram sobre o significado do trabalho, os desafios do novo carnaval e a força de um enredo que une religiosidade, política, memória e espetáculo.
Para Cláudia Motta, estar à frente da comissão de frente da Portela representa a concretização de um sonho e um momento simbólico na trajetória da dupla.
“Em primeiro lugar, é a realização de um sonho, porque a Portela é a nossa matriarca no samba. Ela carrega uma potência histórica muito grande e sempre apresenta enredos muito fortes. Esse é mais um deles. A gente está muito feliz por poder viver essa nova era da Portela e muito grata pelo convite do Júnior, porque esse é, sem dúvida, um dos momentos mais importantes da história recente da escola”, afirmou.
Edifranc destacou o caráter histórico da proposta ao levar o Batuque para a avenida, algo inédito na Sapucaí, especialmente a partir do olhar da maior campeã do carnaval carioca.
“É um grande acontecimento a Portela trazer o Batuque para a avenida e apresentar uma comissão de frente batuqueira. Isso vai trazer muito axé, muita beleza, mas também respeito e ressignificação. A Portela transforma o Batuque em um movimento nacional, não apenas do Rio Grande do Sul. O Brasil vai conhecer o Batuque de forma plena, e ele vai deslizar pela primeira vez na Marquês de Sapucaí”, declarou.
Ao falar sobre a evolução do trabalho em relação ao carnaval anterior, Cláudia ressaltou o amadurecimento artístico da dupla e o suporte oferecido pela escola.
“Todo ano é diferente, e cada enredo exige um estudo novo. Não costumo comparar trabalhos, mas hoje temos muito mais maturidade. São 21 anos de carnaval, o que nos permite ter uma visão mais ampla, saber onde gastar energia e onde não é necessário. E temos um apoio incondicional da escola e do Júnior. Tudo o que precisamos está nas nossas mãos, o que eleva muito a qualidade do trabalho e nos aproxima de um resultado de excelência”, comentou.
Edifranc reforçou que a principal marca do trabalho da dupla é a coerência conceitual, sempre construída a partir do enredo.
“A gente criou, ao longo do tempo, uma congruência de trabalho. Tudo parte do enredo, mas sempre a partir de um conceito bem definido, para que o projeto tenha coerência. Esse enredo é muito importante, é político-social, traz a negritude do Rio Grande do Sul, a história do Príncipe Custódio, do Negrinho do Pastoreio, do Bará Lodê. A gente traz para a avenida as religiões de matriz africana do Sul, para não ficar restrito ao eixo Bahia–Rio. O Brasil é negro, e as religiões de matriz africana são brasileiras. O que a Portela está fazendo é unir essas negritudes de todas as regiões, dando as mãos a partir do Batuque. Isso é muito bonito e muito potente”, afirmou.
Os coreógrafos também comentaram sobre uma das grandes novidades do Carnaval de 2026: a cabine espelhada dos julgadores, que altera a dinâmica das apresentações das comissões de frente.
“Não tem como saber ainda qual será o padrão. A gente resolveu a nossa comissão de acordo com o que vamos apresentar. Cada escola, com seu enredo e sua proposta, vai buscar a melhor forma de fazer com que jurados e público vejam o espetáculo”, avaliou Cláudia.

Edifranc destacou o impacto da mudança para o público e os desafios para os criadores.
“Essa nova configuração vem atender a uma demanda do público, que muitas vezes se sentia desassistido ao ver a comissão de costas. Agora teremos um espetáculo em 360 graus, o que é incrível do ponto de vista visual. Mas é um experimento, é algo novo para todos nós. Todo mundo teve que quebrar a cabeça para resolver. A gente mergulhou nessa ideia e está trazendo a nossa proposta”, explicou.
Para fechar, a dupla falou sobre o samba-enredo, que vem crescendo de forma consistente e já caiu no gosto do público.
“Esse samba está mexendo com o Brasil inteiro. A gente recebe vídeos de crianças, idosos, todo mundo fazendo o bracinho. Pessoas de outras escolas vão aos nossos ensaios, à quadra, querem estar perto. Pegou. Já é um sucesso”, afirmou Cláudia.
Edifranc reforçou a força popular e narrativa da obra. “É um samba magnífico, muito potente e muito pop. Ele já tomou o Rio de Janeiro e acredito que vai tomar o Brasil. Ele traz todas as nuances da ancestralidade do povo rio-grandense, do Batuque, do Negrinho do Pastoreio, do Bará Lodê e do Príncipe Custódio. É um samba que não cansa, a gente quer ouvir mais e mais. Estamos todos muito felizes”, concluiu.








