Por Marielli Patrocínio, Lucas Santos, Marcos Marinho e Matheus Morais
A Beija-Flor de Nilópolis entrou na Marquês de Sapucaí já sob um signo simbólico poderoso. O ensaio técnico aconteceu no dia 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, e a escola fez questão de abrir sua apresentação saudando a orixá, levando à frente do desfile uma imagem dedicada à Rainha do Mar. O gesto antecipou o tom do que viria a seguir: um ensaio forte, ancestral e avassalador. Com o enredo “Bembé”, sobre o maior candomblé de rua que acontece todo 13 de maio em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, a azul e branca da Baixada Fluminense mostrou por que é historicamente reconhecida como o “rolo compressor” da Sapucaí e deixou evidente que quer, mais uma vez, brigar diretamente pelo título.
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COMISSÃO DE FRENTE
Assinada pelos coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon, a comissão de frente da Beija-Flor foi um dos grandes pontos altos do ensaio técnico. A apresentação se destacou pela potência dos movimentos e pela sincronia impecável dos 15 bailarinos, que atuaram com extrema precisão.
A coreografia começa com movimentos concentrados nos braços, de forte carga simbólica, e evolui para ações mais diretas e ágeis com o corpo inteiro, demarcando claramente o espaço da comissão e ocupando a pista com autoridade. As constantes trocas de posição garantem dinamismo e leitura fácil, característica fundamental para o julgamento e o entendimento do público.

Um dos elementos de maior impacto visual foi o recurso cenográfico que simulava a continuidade do corpo de uma bailarina posicionada no topo, realizando movimentos mais sutis, porém carregados de simbolismo e força estética, evocando a ancestralidade como eixo central da narrativa. Os figurinos, em tons terrosos e com estampas que remetem à herança africana, reforçaram o conceito da apresentação.
Foi uma comissão com performance de desfile oficial, que funcionou de maneira exemplar para a cabine espelhada, demonstrando maturidade e alto nível de acabamento.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Claudinho e Selminha Sorriso, o mais longevo em atividade atualmente na Marquês de Sapucaí, apresentou uma dança segura, refinada e de forte caráter tradicional, sem abrir mão da leitura temática do samba.

Vestida de Iemanjá, Selminha Sorriso realizou uma dança em saudação à orixá no trecho “Iemanjá alodê no mar, no mar”, enquanto Claudinho a reverenciava com precisão e respeito ritualístico. A coreografia alternou momentos de cortejo, interações mais próximas entre o casal e passagens de grande leveza, equilibradas com trechos de maior vigor, acompanhando as variações do samba.
Uma apresentação madura, bem construída e tecnicamente segura, com excelente aproveitamento da pista e leitura clara.
HARMONIA E SAMBA
A Beija-Flor reafirmou uma de suas marcas históricas: o chão. A comunidade cantou o samba do início ao fim com força, entrega e harmonia uníssona, sem oscilações perceptíveis. O ponto alto foi o paradão, em que a escola sustentou o canto apenas na voz dos componentes, em volume alto e impressionante, evidenciando o entrosamento entre comunidade e samba.
Os intérpretes Nino do Milênio e Jéssica Martin conduziram o samba com extrema competência, exibindo uma sintonia vocal que se encaixa perfeitamente com a ala musical. Destaque para a potência vocal de Jéssica, que imprimiu força e emoção à condução da obra.
EVOLUÇÃO
A evolução da Beija-Flor foi segura e impactante em todos os setores. A escola tomou a Marquês de Sapucaí com autoridade, justificando plenamente o apelido de rolo compressor. As alas desfilaram cantando forte, bem posicionadas, enfileiradas e ocupando corretamente os espaços.
Os componentes demonstraram alto nível de animação e entrega, atravessando a Avenida em verdadeiro estado de êxtase, o que contribuiu para a fluidez do desfile e para o impacto do conjunto.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Soberana”, comandada por mestre Rodney e Plínio, deu um verdadeiro espetáculo. As bossas se destacaram especialmente nos trechos “atabaque ecoou, liberdade que retumba, isso aqui vai virar macumba”, com os sons dos atabaques ecoando com força pela Sapucaí, e em “Iemanjá alodê no mar, no mar”, quando a bateria executou uma bossa inspirada no toque da orixá. Uma bateria de identidade clara, pulsante e carregada de força ancestral.

A rainha de bateria Lorena Raíssa foi um dos grandes nomes da noite, com muito samba no pé, carisma e uma performance que reforça a ideia de que o samba é ancestralidade em movimento.
As alas coreografadas também chamaram atenção, adicionando ainda mais força ao conjunto e reforçando a imagem de uma escola que atravessa a Sapucaí com potência, organização e impacto visual.
O ensaio técnico da Beija-Flor de Nilópolis deixou uma mensagem clara de que a escola está preparada, segura de suas escolhas e disposta a lutar com força total pelo bicampeonato em 2026.








