Por Lucas Santos, Marcos Marinho, Matheus Morais e Marielli Patrocínio
Por volta das nove da noite do último domingo, a cidade do Rio de Janeiro presenciou dois fenômenos de força avassaladora. Um foi a chuva que desabou sobre a cidade de forma torrencial. O outro, que já nem é algo tão atípico, pelo contrário, está bem rotineiro, foi a Imperatriz colocando para ferver em seu primeiro ensaio técnico na Sapucaí para o Carnaval 2026. E, aqui, fala-se “botou para ferver”, parafraseando a letra do samba, mas poderia até utilizar aquele palavrão no lugar de “ferver”, que talvez sintetizasse melhor o sentimento dos gresilenses após o show da escola, que passou por cima da chuva que começou a cair na Sapucaí e que só a Rainha de Ramos enfrentou neste domingo com essa intensidade.
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Desde o esquenta, o público não arredou pé das arquibancadas, esperando a Verde e Branca que fica aos pés do Morro do Alemão. Na pista, o que se viu foi uma escola quentíssima, sacana, sagaz, alegre, sensual, que canta muito até quando sabe que o samba é inferior aos que a Imperatriz vinha levando. Camaleônica, e não é de hoje. Excelência de quesitos, criatividade e uma agremiação que tem feito da rotina de seus ensaios, seja em Ramos ou na Sapucaí, verdadeiros acontecimentos.

Com o enredo “Camaleônico”, que está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Imperatriz será a segunda escola a pisar na Sapucaí na primeira noite de desfiles do Grupo Especial.
COMISSÃO DE FRENTE
Camaleônico, o título do enredo, definitivamente pode ilustrar a comissão que o coreógrafo Patrick Carvalho trouxe para este primeiro ensaio. Os componentes apresentavam a fantasia de uma entidade humanoide, mas com a pele de camaleão. Coloridos, a pintura do corpo se destacava quando a iluminação da Sapucaí diminuía. No centro, um pivô trazia Ney com a sua fantasia mais conhecida do “Secos e Molhados”, o rosto pintado de branco, as crinas e penas penduradas e um tapa-sexo.

Os “camaleões” mostraram muita sensualidade na dança, trabalhando essa ideia de movimento corporal que o enredo também valoriza na obra do homenageado, e a todo momento interagiam com o pivô, chegando até a erguê-lo no alto. No clímax da apresentação, o grupo escondia o pivô e uma outra “entidade em pele camaleônica” aparecia para delírio do público. Depois, “Ney” retornava em outro momento, em que os componentes se uniam, agora com a bandeira da Rainha de Ramos nas costas.
Ótimas sacadas na apresentação, conceito muito bem definido e execução muito bem realizada. Além de tudo, trouxe o enredo, o homenageado e interagiu com o público. E a dança dos componentes trouxe muito dos movimentos de Ney e sua sensualidade. Tudo muito bem ensaiado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
A chegada da renomada coreógrafa Ana Botafogo só ajudou a consolidar o crescimento e o amadurecimento do casal Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro, que já é latente desde o desfile do Lampião. E, a cada ano juntos, a dupla evolui cada vez mais e se mostra mais confiante quando pisa na Sapucaí.
Com a pista bastante molhada, com poças e mais poças, mesmo com chuva e vento, Phelipe e Rafaela não se intimidaram. Além do bailado clássico que a dupla tem como característica, neste ensaio, particularmente, o casal mostrou muita sensualidade e uma pitada do feitiço que Ney usa em suas danças para deixar o público atônito. Apresentação muito madura.

Phelipe chegava a levantar água quando fazia seus movimentos, em um bailar e efeito que pareciam até ter combinado com a natureza. E Rafaela, segura e intensa nos giros, manteve a bandeira bem desfraldada durante todo o tempo. A roupa preta da dupla combinou com a elegância e a magia do homenageado que trouxeram para a Sapucaí. E os dois não só cumpriram bem o seu papel como entraram no espírito do homenageado.
HARMONIA E SAMBA
A maturidade que Pitty e Lolo atingiram no entrosamento e na qualidade musical é diferenciada. Mesmo com um samba que claramente está abaixo em relação às últimas obras que a escola levou para a Sapucaí, a dupla incrementou a música e fez ela crescer muito, destacando aquilo que tem de mais forte, com bossas e vocalizações, confirmando a espiral de crescimento que já vinha sendo notada nos ensaios na Euclides Faria, em Ramos.
O refrão de baixo, que certamente é o trecho de maior força da obra, está surgindo sempre com muita intensidade, em diversas vezes cantado apenas pela comunidade. No “Eu juro que é melhor”, a levada da bossa deixou o trecho “gostoso” de cantar e com um convite para dançar. A bossa de charanga no “se joga na festa” é outro ponto alto, sempre com a enorme qualidade do time de vozes, bem afinado, treinado e entrosado, que deixa Pitty à vontade e livre para conduzir com força, mas também com muita técnica e correção.

E a comunidade, debaixo de um dilúvio no início do treino e com chuva moderada e constante em todo o ensaio, deu um show de canto, com firmeza, mostrando que a letra estava na ponta da língua. Algumas alas dançavam, faziam coreografias e, mesmo assim, não deixavam de cantar em nenhum momento. A resposta do público foi muito boa, cantando também, principalmente nas partes que a bateria e o carro de som jogavam para a galera.
EVOLUÇÃO
Como tem sido a tônica dos últimos anos e também neste carnaval, nos ensaios, a Imperatriz apresentou mais uma vez uma evolução muito espontânea, quente, livre e com muita alegria dos componentes. A escola brincava muito entre si, e era fácil encontrar desfilantes interagindo com o público das frisas, que adorava.
A chuva parece ter dado ainda mais energia e garra, e a Imperatriz teve muita fluidez e ritmo, na mesma pegada do samba, sem correria, e com as alas, no geral, bem livres. A escola passou pela Avenida sem apresentar problemas aparentes no quesito.
Algumas alas no início da escola traziam pequenas coreografias bem dentro da proposta do enredo, sem influir na espontaneidade dos componentes, produzindo um bonito efeito. Aliás, muitos se entregaram de alma ao enredo e passavam dançando com sensualidade, como uma ala de rosa que vinha antes da coroa da escola, com chapéu de vaqueiro. No final, uma ala com quepe de policial também roubou a cena nesse sentido. A antiga “Certinha de Ramos” segue quebrando seus próprios paradigmas e tem um dos ensaios mais quentes do carnaval carioca.
OUTROS DESTAQUES
Pitty conseguiu levantar a Sapucaí em um momento em que a chuva estava muito forte, cantando os últimos sambas que a escola levou para a Avenida no esquenta. “Cigana Esmeralda” e “Oxalá” obtiveram uma grande recepção do público e começaram a incendiar a Sapucaí antes do treino propriamente dito.
A rainha Iza esbanjou samba no pé e, com a fantasia “Jeito felino provocador”, com penugem preta e o verde da escola, além de uma imagem de onça dourada na cabeça, fez sua homenagem a Ney Matogrosso. A bateria Swing da Leopoldina, de mestre Lolo, além das bossas e da sonoridade primorosa, ainda mostrou repertório dançante com coreografias e realizou alguns movimentos de deslocamento interessantes, sempre em conformidade com o desenho que fazia na parte rítmica e sonora. A coroa de Ramos, toda iluminada, abriu o cortejo da escola neste ensaio, assim como no minidesfile.








