Por Marcos Marinho, Matheus Morais, Marielli Patrocínio e Lucas Santos

Mesmo sob chuva e vento durante parte do ensaio, a Viradouro apresentou rendimento consistente na Marquês de Sapucaí e confirmou a excelência de seus quesitos no primeiro ensaio técnico para o Carnaval 2026. Com comissão de frente de leitura clara, casal de mestre-sala e porta-bandeira seguro, canto constante da comunidade, bateria precisa e evolução fluida, a escola atravessou as adversidades climáticas mantendo controle técnico em uma noite marcada pela homenagem ao mestre Ciça. A Viradouro será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval com o enredo “Pra cima, Ciça!”, assinado pelo carnavalesco Tarcísio Zanon.

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COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Priscilla Mota e Rodrigo Negri, a comissão de frente da Viradouro apresentou uma proposta cênica ao mesmo tempo chamativa e divertida, apostando na clareza da leitura e na comunicação direta com o público. Em cena, 13 componentes vestem ternos bicolores, de um lado, vermelho; do outro, branco, que estruturam o principal jogo da coreografia.

No lado vermelho, os integrantes utilizam máscaras de caveira e gravatas; no branco, máscaras com o rosto do mestre Ciça e apitos pendurados no pescoço. À medida que os corpos giram e mudam de posição, as figuras se alternam diante do olhar do público, revelando ora a caveira, apelido pelo qual o mestre é conhecido entre seus ritmistas, ora o rosto afável e amplamente reconhecido no mundo do samba. A dinâmica cria uma brincadeira visual eficiente, de leitura imediata, que sustenta o impacto da apresentação.

A movimentação coreográfica privilegia o samba no pé como eixo expressivo, conectando passado e presente da trajetória do homenageado. A comissão evoca o início do percurso de Ciça no samba, como passista do São Carlos, em diálogo com a figura consagrada e reverenciada como mestre de bateria, que hoje ocupa lugar central na história do carnaval. Essa dualidade é conduzida com leveza, sem excessos, reforçando a inteligibilidade da cena.

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Um dos momentos mais expressivos ocorre no trecho do samba “Quando o apito ressoa, parece magia”: os componentes se organizam em duas filas e executam movimentos que remetem à regência de uma bateria, evocando diretamente a atuação de Ciça como mestre. A imagem é simples, precisa e simbólica, funcionando como síntese do enredo dentro do quesito.

Mesmo sob chuva e vento, a comissão manteve regularidade, vigor e clareza na execução dos movimentos, demonstrando segurança técnica e controle cênico em condições climáticas adversas. Ainda que não se trate da coreografia oficial do desfile, Priscilla Mota e Rodrigo Negri, em consonância com a Viradouro, optam por entregar ao público da Sapucaí uma apresentação do quesito completa, acessível e respeitosa ao enredo. A proposta honra quem esteve presente na noite de domingo na Sapucaí e cumpre, com eficiência, um papel fundamental da comissão de frente: convocar público e jurados a embarcar no enredo da escola. Nesse sentido, é um acerto pleno.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Julinho e Rute realizaram uma apresentação de alto nível no primeiro ensaio técnico da Viradouro, confirmando a maturidade e a solidez de um casal que se destaca pela fina sintonia em cena. Há entre os dois um entrosamento evidente, construído ao longo de 18 anos de trajetória conjunta, perceptível no olhar, no sorriso, na sincronia dos movimentos e na precisão das finalizações coreográficas.

Julinho atua como um mestre-sala de perfil generoso. Seu bailado é marcado pelo cortejo atento e pela constante abertura de cena, conduzindo o foco da apresentação para a porta-bandeira e permitindo que o pavilhão se imponha com elegância. Não há disputa de protagonismo: sua dança está claramente a serviço de Rute e do símbolo maior da escola. Essa postura qualifica ainda mais a apresentação do casal.

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Rute, por sua vez, demonstra força, vigor e grande domínio na condução do pavilhão, especialmente diante das adversidades climáticas que marcaram o ensaio. Desde o primeiro módulo, o vento já se fazia presente, exigindo atenção constante. Ainda assim, a porta-bandeira conseguiu manter o controle da bandeira com segurança tanto no primeiro módulo quanto nos módulos espelhados.

No terceiro módulo, com a intensificação do vento e a chegada da chuva mais forte, o pavilhão chegou a enrolar em alguns momentos, consequência direta das condições adversas, episódio pontual que não compromete a avaliação geral da apresentação, sobretudo considerando que Rute enfrentou o vento desde o início do percurso.

A resposta do casal diante dessas dificuldades foi imediata e segura: a bandeira é rapidamente recomposta, a coreografia retomada e a fluidez da dança restabelecida sem sobressaltos. A apresentação se mantém firme, madura e tecnicamente bem resolvida, revelando categoria para atravessar situações adversas com naturalidade.

No ensaio técnico, Julinho e Rute pareciam ainda mais cúmplices do que de costume. A conexão entre os dois se impôs como um dos grandes trunfos da apresentação, reforçando o casal como referência no quesito e como um dos melhores do carnaval.

SAMBA E HARMONIA

O canto da Viradouro se mantém constante ao longo de todo o ensaio, revelando uma comunidade que conhece profundamente a obra e sustenta o rendimento do início ao fim da apresentação. O componente canta o samba inteiro, sem quedas de intensidade, assegurando uma base sólida de harmonia sobre a qual a escola constrói seus momentos de maior impacto emocional.

Os picos de volume surgem de forma clara e orgânica nos trechos de maior evocação ao mestre Ciça. O refrão principal, “Se eu for morrer de amor”, é cantado com paixão, devoção e forte implicação afetiva, funcionando como um gesto coletivo de entrega e reverência. O mesmo ocorre nos versos “Traz surdo, tarol e repique pro mestre bater” e “Sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você”, momentos em que o canto cresce de maneira evidente e a Avenida é tomada por uma vibração afetiva compartilhada entre ritmistas, componentes e público.

Nesses trechos, o aumento de volume não é casual: está diretamente ligado ao caráter devocional do samba. São passagens em que a homenagem se explicita e o canto assume contornos de reverência, respeito e celebração, mobilizando a escola de forma coletiva. Fora esses momentos de exaltação, o canto permanece regular e bem sustentado, evidenciando um samba de arco dinâmico bem definido, com variações naturais de intensidade, sem oscilações bruscas ou perda de coesão.

Esse gesto de devoção também se materializa na atuação de Wander Pires ao longo de toda a Avenida. Cantando em homenagem a um amigo, o intérprete conduz o samba com segurança, vigor e controle. Sua interpretação não apenas sustenta a harmonia, mas transmite com clareza o afeto coletivo da escola pelo mestre Ciça. O canto carrega amor, respeito e reverência, elementos que estruturam emocionalmente o enredo e conferem densidade simbólica à apresentação da Viradouro.

EVOLUÇÃO

Antes mesmo da metade do tempo regulamentar, a Viradouro já começa a sair da pista, apresentando uma evolução fluida, coordenada e muito bem conduzida. A progressão da escola é inteligente: o desfile cresce aos poucos, sem atropelos, com todos caminhando juntos.

Mesmo com a pista molhada pela chuva que caiu, não há perda de vigor no canto nem desânimo na dança. O samba convida o componente a seguir para frente, e isso se reflete diretamente na evolução.

Na segunda metade do ensaio, a escola desfila ainda mais vigorosa, administrando o tempo com tranquilidade. A entrada no segundo recuo de bateria é organizada, com a bateria entrando de forma correta e a ala seguinte acompanhando sem ruptura, reforçando a leitura de uma escola que evolui com excelência.

OUTROS DESTAQUES

Destaque para a bateria “Furacão Vermelho e Branco”, precisa e segura ao longo de todo o ensaio. No trecho do samba que diz “Sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você”, a bateria se divide ao meio, abaixa e abre caminho para que Ciça se encaminhe até o centro do próprio naipe, onde é reverenciado pelos ritmistas. O momento se impõe pelo desenho corporal da bateria e pela clareza da ação, criando uma imagem forte e facilmente legível na pista.

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Fora esse trecho específico, a bateria mantém andamento firme, bossas bem marcadas e regularidade de execução, projetando o desenho rítmico sempre para frente, com precisão e controle. A condução segura contribui diretamente para a fluidez da evolução e para a leitura musical do samba ao longo de toda a Avenida.