Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira
O último dia de ensaios técnicos no Anhembi foi encerrado com chave de ouro pelo Camisa Verde e Branco. A escola apresentou uma proposta de leitura clara do enredo e forte conexão visual com a narrativa que pretende levar para a avenida.
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Os componentes desfilaram com tridentes pintados no corpo e também com o próprio elemento nas mãos, além do uso recorrente das cores associadas a Exu. O resultado foi um conjunto visual que dialoga diretamente com o enredo. O Trevo da Barra Funda também apostou em interações com o público e com os jurados.
Com o enredo “Abre Caminhos”, o Camisa Verde e Branco será a última escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial, no dia 14 de fevereiro, no Anhembi. A proposta gira em torno de Exu como força que abre caminhos, ideia que aparece de forma constante ao longo das alas, com referências visuais bem distribuídas.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente partiu do princípio central do enredo: se Exu abre caminhos, a abertura precisa ser forte. A coreografia no chão já chama atenção logo de início, com um ator central representando Exu. Em determinados momentos, ele se posiciona de frente para a cabine de jurados, enquanto os demais componentes se organizam atrás, deixando Exu como figura principal e direcionando a leitura do enredo.
O trabalho conta ainda com um tripé que se desacopla em seis módulos. Em alguns momentos, os componentes ocupam o espaço central entre esses módulos e desenvolvem coreografias que reforçam a narrativa. Quando os módulos se unem, o mesmo ator sobe no elemento alegórico e passa a representar Exu no plano superior, compondo uma imagem de forte impacto visual.
A concepção remete, em certa medida, à comissão de frente da Grande Rio em 2022, especialmente pela centralidade do personagem e pela performance marcante. O quesito, porém, pede atenção. Em alguns momentos, os módulos apresentaram leves desalinhamentos, com giros que nem sempre aconteceram de forma totalmente sincronizada. Ao final de algumas movimentações, o conjunto também não se apresentou completamente alinhado, sem que fique claro se isso faz parte da proposta coreográfica.
Ainda assim, o tripé desperta expectativa e se coloca como um dos pontos que mais geram curiosidade para o desfile oficial.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Marquinhos Costa e Lys Grooters mostraram rendimento superior em relação ao primeiro ensaio. Se na passagem anterior o casal se apresentou de forma mais contida, muito em função da chuva e do temporal, desta vez a dupla apareceu mais solta e confiante.

“Foi muito prazeroso. Foi um período curto, como costuma ser o Carnaval do Camisa, feito em um tempo bem apertado, mas foi um carnaval prazeroso. Particularmente, estou muito feliz com o retorno da parceria. No começo, tivemos que nos reajustar, porque cada um dançou com outros parceiros e acabou adquirindo novas manias”, falou Marquinhos.
Os movimentos ganharam mais amplitude, com giros mais empolgantes e não restritos apenas às cabines de jurados. O casal distribuiu a dança ao longo da pista, executando os movimentos com maior fluidez e presença, o que contribuiu para valorizar o quesito como um todo.
HARMONIA
A Harmonia foi um dos grandes destaques do ensaio. O samba mais longo exige maior atenção ao fôlego da escola, especialmente nos trechos centrais. Ainda assim, a comunidade se fez presente nas alas e nas arquibancadas, sustentando o canto ao longo de toda a pista.
“Estamos cantando bem o samba, o canto funcionou, a harmonia funcionou, os casais mandaram muito bem. Hoje foi maneiro, mas sempre tem alguma coisa para acertar, que fica para o ensaio de rua. A expectativa é muito boa para o Carnaval. Todos os segmentos estão alinhados, vai dar certo para nós”, falou o mestre de bateria Jayson ao CARNAVALESCO.
Foi possível notar que todos os trechos do samba foram entoados em alto volume, inclusive nos momentos em que a obra poderia perder intensidade. As bossas da bateria contribuíram para valorizar o canto e favorecer a sustentação do samba, reforçando a identidade musical da escola.

EVOLUÇÃO
A Evolução não apresentou erros significativos que comprometessem o desempenho da escola. O tempo de 1h04min59s ficou dentro do limite por pouco. No geral, as alas desfilaram soltas e com elementos visuais expressivos.
Algumas alas desfilaram em fileiras, o que, em determinados momentos, abriu pequenos espaços entre os componentes. Foi possível perceber uma leve aceleração na penúltima cabine, como forma de garantir o fechamento dentro do cronômetro.
Ainda assim, não houve buracos significativos que prejudicassem diretamente o quesito.
SAMBA-ENREDO
No ensaio, o intérprete oficial foi Rogério Papa, responsável por conduzir o canto e levantar a arquibancada Monumental. Um destaque importante foi a ala musical feminina, que surge como um ganho significativo para a escola, tanto em presença quanto em sustentação vocal.

Outro ponto alto foi o refrão do meio, que mostrou força equivalente à do refrão de cabeça, especialmente no trecho “Eu sou da rua, macumbeiro sim, senhor”, que cresceu de forma consistente e foi cantado com intensidade por alas e arquibancadas.
OUTROS DESTAQUES
A Bateria Furiosa da Barra manteve a identidade que marca o Camisa Verde e Branco nos últimos anos. A subida segue o estilo característico da bateria, sem uma chamada tradicional de repique. O conjunto sobe inteiro no verso “é olho que tudo vê”, em um jogo de surdos semelhante ao utilizado no encerramento de uma das bossas.
As bossas seguem alinhadas ao tradicionalismo da bateria do Camisa, respeitando a identidade construída ao longo da história da agremiação.
Outro destaque foi a presença de Camila Prins, cria do Camisa Verde e Branco, que retorna à escola e assume o posto de rainha. Camila é a primeira rainha trans do Carnaval de São Paulo e desfilou no último sábado representando Pomba Gira Sete Saias, uma das regentes do ano. Sua presença reforça o diálogo entre enredo, representatividade e identidade da escola.










