Por Marcos Marinho, Guibsom Romão, Marielli Patrocínio e Matheus Morais

A Portela realizou mais um ensaio técnico na Marquês de Sapucaí, apresentando como principal trunfo o canto forte e constante da comunidade, sustentado pelo bom entrosamento entre carro de som e bateria. Com evolução leve, alas soltas na pista e momentos de impacto rítmico protagonizados pela “Tabajara do Samba”, a escola reafirmou o momento de transição e rejuvenescimento que atravessa. Entre os destaques positivos, a apresentação segura do casal de mestre-sala e porta-bandeira, que, apesar de enfrentar uma dificuldade pontual no último módulo de jurados, manteve o controle e concluiu a dança com profissionalismo, e uma comissão de frente tecnicamente sólida. A Portela será a penúltima escola a desfilar no domingo de carnaval com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, assinado pelo carnavalesco André Rodrigues.

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COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Cláudia Mota e Edifranc Alves, a comissão de frente da Portela aposta de forma consistente na movimentação como eixo central da apresentação. A coreografia acompanha de perto a letra do samba, sublinhando seus versos por meio de gestos contínuos e bem articulados, com forte referência à movimentação afro, perceptível tanto na qualidade dos movimentos quanto na organização dos corpos em cena.

O figurino reforça esse campo simbólico. Os bailarinos, vestidos de branco, evocam imagens ligadas à iniciação no Batuque, enquanto sete personagens em figurinos vermelhos, com saias, adereços de cabeça na mesma cor e uma chave nas mãos, atravessam a coreografia como Barás. A leitura estética é clara e coerente com o universo temático proposto pelo samba.

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Ao longo da apresentação, no entanto, a comissão opta menos por uma condução cênica narrativa e mais por uma sucessão de movimentos que acompanham a música. Não há, neste momento, uma contação de história propriamente dita ou um fio dramatúrgico que organize as ações como convite explícito ao público. A entrada do espectador se dá, sobretudo, pela qualidade da movimentação, bem executada, precisa e consciente, ainda que sem explosões cênicas ou momentos de grande impacto visual. Essa escolha sugere uma comissão que parece se colocar em estado de experimentação neste primeiro ensaio, preservando possíveis surpresas para um segundo momento ou para o desfile oficial.

O ponto alto da comissão surge no trecho do samba que diz “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”. Nesse momento, os bailarinos estendem um estandarte com a imagem de Gilsinho Conceição, histórico intérprete da escola por duas décadas, falecido em setembro, após complicações de uma cirurgia bariátrica. O gesto interrompe a dinâmica contínua da coreografia e cria um instante de forte carga afetiva com o público, estabelecendo uma conexão direta entre memória, identidade e enredo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Marlon Lamar e Squel Jorgea vêm demonstrando, ensaio após ensaio, um entrosamento cada vez mais sólido. A dupla se apresenta com um bailado clássico, sustentado por figurinos de acabamento brilhante e dourado, que conferem elegância ao conjunto e reforçam a leitura tradicional do quesito.

Squel se destaca pelos giros precisos e pela presença cênica constante: sempre sorridente, conduz a dança convocando o mestre-sala para a cena, estabelecendo um diálogo contínuo entre os dois. Marlon responde com segurança, acompanhando a condução da porta-bandeira e reforçando a sensação de parceria madura. O casal dá sinais claros de evolução conjunta, aprofundando um entrosamento que já havia sido consagrado no último Carnaval, quando alcançou a pontuação máxima.

O cortejo se mantém mais clássico, enquanto a coreografia se evidencia em momentos específicos do samba, como no trecho “Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada”, quando o casal executa um gesto direcionado ao chão, em sintonia com a letra e o sentido ritualístico do verso.

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Durante a passagem pelo quarto módulo de jurados, o casal enfrentou um momento delicado. No pré-refrão principal, quando Squel se preparava para a coreografia do refrão, o pavilhão acabou se dobrando e envolvendo brevemente sua cabeça, tocando no rosto da porta-bandeira. A situação foi rapidamente solucionada. O casal seguiu com profissionalismo e controle, mantendo a apresentação estável até o fim do percurso.

No conjunto, Marlon Lamar e Squel Jorgea reafirmam um trabalho pautado pela elegância, pelo amadurecimento técnico e pela leitura consciente do quesito, com margem para ajustes finos, mas sustentados por uma base segura e já consolidada.

SAMBA E HARMONIA

A harmonia se afirma como o grande ponto alto da passagem da Portela neste ensaio. O canto da escola é forte, consistente e bem distribuído ao longo de toda a pista, em diálogo direto com o trabalho desenvolvido por Zé Paulo Sierra à frente do carro de som e com o andamento proposto por mestre Vitinho no comando da bateria “Tabajara do Samba”.

O samba parece coroar o momento de transição e rejuvenescimento vivido pela escola. Há vigor renovado no canto da comunidade, que demonstra domínio da obra de ponta a ponta, sem quedas perceptíveis mesmo fora dos trechos mais explosivos.

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Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval

O pré-refrão “Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar”, seguido do refrão principal, concentra o ápice de resposta da pista. O componente canta com entrega, transformando esse momento em eixo de sustentação da harmonia. Outros trechos também se destacam pelo rendimento vocal, como “Alupo, meu senhor, Alupô!” e “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”, cantados com potência e reverência.

Gestos simples associados à letra, como o movimento de braços popularizado por Nilce Fran e a coreografia no trecho da coroa do Bará, ajudam a estimular a participação coletiva, reforçando a performance do samba na pista.

EVOLUÇÃO

A evolução da Portela se apresenta leve e fluida. O desenho do samba favorece deslocamentos soltos, permitindo que as alas avancem com naturalidade. Nota-se um ambiente de maior descontração, com alas que interagem entre si e harmonistas próximos dos componentes, estimulando canto e movimento.

A única queda perceptível ocorre no trecho final, entre as alas posicionadas entre as alegorias três e quatro, possivelmente em função do desgaste físico. Ainda assim, trata-se de um ajuste pontual.

A entrada no segundo recuo da bateria se destaca pela organização. A escola reduz levemente o andamento para recompor o conjunto, com a ala de passistas sustentando o tempo à frente da bateria. As alas seguintes entram preenchendo o espaço com fluidez, reforçando a sensação de continuidade.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Tabajara do Samba”, sob comando de Mestre Vitinho, se impõe como um dos pilares do ensaio, oferecendo leitura precisa do samba e sustentando o canto à frente da escola. O trabalho rítmico não apenas acompanha, mas convoca o componente a cantar.

Um dos momentos mais potentes ocorre quando os ritmistas se dividem ao meio e a rainha de bateria, Bianca Monteiro, assume o centro da formação. A coreografia coletiva, com abaixar e levantar sincronizados, cria forte impacto visual, evidenciando o entrosamento entre rainha e mestre de bateria.

Bianca Monteiro também se destaca individualmente. Com figurino dourado, apresenta muito samba no pé e reafirma uma identidade ligada ao samba de Madureira, sustentada pela qualidade da dança.

Outro destaque é a ala de passistas, que surge com figurino vermelho, em contraste com o azul tradicional da Portela. Mais do que a mudança cromática, o que sustenta o impacto é o desempenho: samba no pé, entrega e leitura clara do ritmo. Sob coordenação de Lucas Matheus, a ala preserva o legado de excelência construído ao longo dos anos, especialmente no período em que foi conduzida por Nilce Fran.