Por Marcos Marinho, Guibsom Romão, Marielli Patrocínio e Matheus Morais

Antes mesmo de a Vila Isabel pisar oficialmente na pista, a Marquês de Sapucaí já havia sido transformada em terreiro e quintal azul e branco. O canto catártico da comunidade e do público, sustentado desde os primeiros versos por Tinga à frente do carro de som, e a atuação de excelência do casal de mestre-sala e porta-bandeira marcaram o primeiro ensaio técnico da escola para o Carnaval 2026. Em um treino de forte adesão coletiva e alto rendimento musical, a Vila apresentou domínio do samba de ponta a ponta e performances que consolidaram a escola como um dos grandes destaques da noite. A escola será a segunda a desfilar na terça-feira de Carnaval, com o enredo “Macumbebê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, assinado pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, com pesquisa do enredista Vinícius Natal.

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COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente da Vila Isabel, apresentada no primeiro ensaio técnico na Marquês de Sapucaí, parte de uma proposta dramatúrgica que remonta ao fundamento da relação entre samba e macumba. Coreografada por Alex Neoral e Márcio Jahú, a abertura do desfile encontra na trajetória de Heitor dos Prazeres o eixo para afirmar que samba e religiosidade se constituem mutuamente na história da cultura negra carioca.

Essa leitura se organiza já na composição do elenco e nos figurinos. A maior parte dos bailarinos surge vestida de branco, com indumentárias que remetem aos paramentos de pessoas iniciadas no candomblé, configurando a cena como um espaço ritual. No centro da narrativa está o personagem-pivô, representação de Heitor dos Prazeres, vestido com colete e calça azuis, camisa e sapatos brancos, cores que dialogam com a identidade visual da Vila Isabel. Ao seu redor, dois bailarinos incorporam a ancestralidade do homenageado: Oxum, em figurino dourado e com um espelho cobrindo o rosto, e Xangô, em tons vermelhos, empunhando seus oxês.

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Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval

A comissão entra nos módulos de julgamento no trecho “Nossa favela branca e azul do céu” e encontra no refrão principal, “Ora yê yê ô, Oxum / Kabecilê Xangô”, o eixo da construção coreográfica. A cada saudação, o orixá citado assume o centro da cena, executando movimentos associados à sua simbologia ritual. Oxum protagoniza sua dança; em seguida, Xangô entra em cena. Desde esse primeiro momento, a Vila Isabel estabelece com clareza a ideia de retorno ao terreiro, ao quintal, ao espaço onde samba e macumba se misturam sem separação.

Outros trechos do samba aprofundam essa leitura. No verso “Negro Príncipe de Ouro”, seguido por “Um Ogã Alabê, macumbeiro”, a cena se reorganiza em roda: o personagem de Heitor samba no centro, interage com os iniciados e estabelece um diálogo corporal que traduz com precisão a relação entre samba e religiosidade. O movimento da roda, os gestos e a ocupação do espaço reafirmam que essas manifestações se formam no mesmo chão.

Há, portanto, uma afirmação clara: é nesse quintal-terreiro que Heitor dos Prazeres se forma, articula sua espiritualidade e se torna sambista. A comissão traduz essa origem comum em cena, construindo uma leitura fina sobre a indissociabilidade entre samba e macumba, sem recorrer ao didatismo ou a efeitos grandiosos.

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O destaque individual fica para o personagem-pivô, que estabelece comunicação direta com o público e assume com clareza o papel de eixo narrativo da comissão. Em comparação aos ensaios de rua, a apresentação na Sapucaí torna a leitura da proposta mais evidente, sobretudo pela entrada dos figurinos e acessórios, que organizam e potencializam o sentido da cena.

Não se trata de uma comissão baseada em impactos espetaculares, mas de um trabalho consistente, de leitura clara e bem resolvida, que aposta na força simbólica e na coerência dramatúrgica. Ao abrir seu desfile retomando o fundamento da relação entre samba e macumba, a Vila Isabel transforma a Sapucaí, simultaneamente, em terreiro e quintal, gesto que sintetiza com precisão o que o enredo propõe e o que a escola afirma logo nos primeiros passos de sua apresentação.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane viveram uma grande noite na Marquês de Sapucaí. Com uma performance de alto nível, marcada por entrosamento, vigor e refinamento estético, o casal se afirmou como um dos grandes destaques do ensaio. A dança da dupla se destaca pela beleza do cortejo, pela condução segura da cena e pela forma elegante e potente com que defenderam o pavilhão da Vila Isabel, entregando uma apresentação que desde já se inscreve entre as mais consistentes desta segunda noite de ensaios técnicos.

Vestindo prata, Dandara conduziu o pavilhão com graciosidade e elegância, enquanto Raphael, em terno branco, apresentou uma condução firme e precisa. Juntos, defenderam o pavilhão da Vila Isabel com domínio pleno da cena, articulando cortejo, bailado e apresentação do pavilhão de forma orgânica e envolvente. A dança do casal se impôs pela sintonia nos movimentos, pela presença cênica e pela clareza com que dialoga com o enredo.

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A observação da coreografia nos módulos de julgamento se estrutura a partir do trecho do samba “Sonhei Macumbembê, sonho Samborembá”. É nesse momento que Dandara entra em cena com rápidas bandeiradas e giros velozes, instaurando uma dimensão onírica que atravessa toda a apresentação do casal. Esse gesto inicial funciona como um disparador dramatúrgico: a porta-bandeira parece abrir um portal que transporta a Sapucaí para outra dimensão temporal, alinhando o bailado à proposta narrativa do enredo.

No refrão principal, “Ora yê yê ô, Oxum / Kabecilê, Xangô”, o casal oferece um dos momentos mais marcantes da noite. Na primeira execução do trecho, Raphael e Dandara apresentam um bailado clássico de mestre-sala e porta-bandeira, com giros rápidos, desenho limpo e rigor técnico. Na repetição do refrão, a coreografia se transforma: Dandara passa a incorporar gestos associados à simbologia de Oxum, enquanto Raphael responde com movimentos ligados à simbologia de Xangô, acompanhando as citações do samba.

Esse momento ganha ainda mais potência com a alteração da iluminação da pista, que passa a destacar exclusivamente o casal. A Sapucaí parece suspender o fluxo para observar a cena, criando um efeito de encantamento que acrescenta densidade à performance. Trata-se de um instante de grande impacto sensorial e simbólico, em que bailado, luz e música se alinham com precisão.

Outro trecho de grande beleza acontece quando o samba diz “Pintar a Unidos de Vila Isabel”. Nesse momento, Raphael e Dandara simulam o gesto de pintar o próprio pavilhão, incorporando o verso à coreografia de forma inventiva e sensível. É um detalhe que reforça a relação entre dança e narrativa, sem quebrar a fluidez do bailado.

Dandara se destaca especialmente pela elegância e pela qualidade dos giros, que nos ensaios de rua apareciam mais leves e que, na Sapucaí, ganharam força, vigor e projeção. Os giros são executados sem hesitação, com finalizações precisas e sincronização absoluta com Raphael. O casal chega junto aos pontos de marcação, mantém o olhar vivo e estabelece uma comunicação intensa entre si e com o público, evidenciando um trabalho consistente de ensaio e lapidação coreográfica.

A coreografia encontra seu fechamento simbólico no trecho “Pode até fazer quizumba, só não pode separar”, posicionando o casal como tradução viva da indissociabilidade entre samba e macumba que atravessa o enredo. Raphael e Dandara flutuam pela Sapucaí com leveza e controle, sustentando a proposta ao longo de toda a pista.

A dupla apresenta, sim, todos os elementos necessários para alcançar a pontuação máxima no desfile oficial. A apresentação no primeiro ensaio técnico credencia Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane à prateleira de cima dos casais de mestre-sala e porta-bandeira do Grupo Especial, pavimentando desde já uma defesa de pavilhão capaz de emocionar público e jurados no Carnaval de 2026. Trata-se de uma atuação de excelência, que combina rigor técnico, sensibilidade cênica e leitura fina do enredo, confirmando um trabalho maduro, preciso e profundamente conectado à proposta da Vila Isabel.

SAMBA E HARMONIA

Foi arrebatador o início do ensaio técnico da Vila Isabel. Já nos primeiros versos cantados por Tinga, antes mesmo de a escola entrar na avenida, a Sapucaí veio abaixo, cantando em plenos pulmões o samba de 2026. O impacto inicial revela uma comunidade com a obra na ponta da língua e um samba que estabelece, desde a largada, uma relação direta e explosiva com público e componentes.

O canto da escola é indiscutivelmente forte, sobretudo nos momentos centrais da obra. Pré-refrão e refrão principal explodem na boca do componente da Vila Isabel, criando sucessivas ondas de resposta ao longo da pista. Há potência, volume e, principalmente, entrega coletiva. A sensação é de que o samba já foi completamente incorporado pela comunidade, que canta de ponta a ponta com segurança e convicção.

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À frente do carro de som, Tinga dá um show à parte. Desde o aquecimento, o intérprete atua como verdadeiro condutor do canto, impulsionando a Sapucaí a cantar junto. Ele demonstra domínio absoluto da obra e sabe como poucos incentivar o público a responder no momento certo, especialmente na convocação do refrão principal, que cresce e explode sob sua condução. Tinga também reconhece os instantes em que precisa dialogar diretamente com o componente da Vila para manter o vigor do canto, equilibrando comunicação, comando e musicalidade.

O carro de som sustenta esse trabalho com eficiência, oferecendo base para que o intérprete possa brincar com a obra, convocar o público e mobilizar o povo do samba. Um dos momentos mais marcantes do ensaio acontece aos 38 minutos, quando a escola executa um paradão e toda a Sapucaí canta, em volume impressionante, o refrão principal. A cena sintetiza a força do samba e o grau de adesão coletiva alcançado pela Vila Isabel.

De forma geral, o canto da escola se mantém forte ao longo de toda a apresentação e se destaca como o mais potente da noite. O componente canta tudo, sem quedas abruptas ou dispersão, revelando um nível elevado de assimilação da obra. Há, no entanto, um ponto de atenção: na segunda metade do ensaio, percebe-se uma leve queda de rendimento no canto. A força se mantém, mas com menor intensidade, o que indica a necessidade de ajustes para garantir sustentação plena de ponta a ponta.

Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. O rendimento do samba, a resposta da comunidade e a relação construída com o público confirmam a potência da obra. O canto da Vila Isabel é forte, envolvente e profundamente coletivo, um samba que convoca, que emociona e que transforma a Sapucaí em um grande coro.

EVOLUÇÃO

A evolução da Vila Isabel no primeiro ensaio técnico se sustenta, antes de tudo, na segurança com que a comunidade domina o samba. Com a obra na ponta da língua, as alas evoluem com confiança e fluidez, permitindo que os corpos estejam mais livres e disponíveis para brincar, interagir entre si e dialogar com o público. Essa familiaridade com o samba se traduz diretamente em uma evolução leve, solta e prazerosa de acompanhar.

No início do desfile, a escola apresenta uma evolução mais rápida, especialmente até a passagem da comissão de frente e do casal de mestre-sala e porta-bandeira pelos módulos espelhados. Após esse momento inicial, o ritmo da evolução se torna mais cadenciado, permitindo maior acomodação das alas e melhor organização do conjunto na pista.

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Na metade do tempo de apresentação, a Vila Isabel cria um forte impacto visual ao iluminar a Sapucaí com luzes azul e branca, enquanto os totens que representam as alegorias soltam fogos de artifício. O recurso funciona não apenas como efeito visual, mas como elemento dinamizador da evolução, renovando a energia dos componentes e criando novos picos de envolvimento ao longo do desfile.

Um dos pontos positivos do ensaio é justamente a capacidade da escola de propor diferentes momentos dentro da evolução. Paradões, efeitos de luz e fogos são utilizados de maneira estratégica para evitar uma apresentação linear e estimular o componente a manter o canto, a presença e a entrega corporal. Esses recursos ajudam a sustentar o rendimento da escola e apontam caminhos importantes para equilibrar evolução e harmonia, especialmente na segunda metade do desfile, quando o canto apresenta leve queda de intensidade.

Vale destacar a condução do segundo recuo da bateria, realizada com tranquilidade e boa leitura de pista. A escola reduz momentaneamente o ritmo da evolução para permitir a entrada da bateria no recuo, enquanto a ala de passistas ocupa o espaço de forma orgânica. Os componentes seguem cantando, brincando e interagindo, mantendo a fluidez do conjunto sem rupturas ou desorganização.

O saldo da evolução é amplamente positivo. A Vila Isabel evolui com naturalidade, controle e segurança, construindo uma apresentação fluida, bem distribuída no tempo e marcada por momentos de renovação de energia.

OUTROS DESTAQUES

Destaque para a bateria “Swingueira de Noel”, comandada por Mestre Macaco Branco, que teve papel central no rendimento da escola. Em diálogo direto e afinado com a ala musical, a bateria apresentou um desempenho de alto nível e se consolidou como um dos pilares da noite. Com domínio absoluto do samba, executou bossas pensadas para a obra e sustentou com segurança a pulsação da escola ao longo de todo o percurso, garantindo base rítmica consistente para canto, evolução e interpretação.

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Outro ponto que chamou atenção foi a presença da rainha de bateria Sabrina Sato, que desfilou com fantasia nas cores do Brasil. Além da presença cênica, Sabrina protagonizou momentos de afeto e descontração ao interagir com Gael, filho do mestre Macaco Branco, criando momentos de muita fofura na Avenida. Detalhes que ajudam a compreender a força afetiva deste ensaio técnico da Vila Isabel.