O Tigre de São Gonçalo segue firme na luta pelo retorno ao Grupo Especial por mais um ano. Após o vice-campeonato em 2025, a escola ousa com o enredo “Das Mais Antigas do Mundo, o Doce e Amargo Beijo da Noite”. Idealizado pelo carnavalesco Mauro Quintaes e escrito pelo enredista Diego Araújo, o desfile abordará a vida das trabalhadoras sexuais. Em visita do site CARNAVALESCO ao ateliê onde o desfile ganha vida, Mauro Quintaes contou que o enredo foi pensado originalmente como uma trilogia para os carnavais da década de 1990, mas acabou sendo reescrito e atualizado para os dias atuais.

“Eu tinha três enredos para serem desenvolvidos quando fiz parte da escola entre 1994 e 1998: um sobre os ladrões, outro sobre os loucos e outro sobre as prostitutas. Saí da escola por cinco anos, e esse enredo acabou ficando esquecido de alguma maneira. Mas foi ideia do presidente de honra, Fábio Montebello, fazer o enredo das prostitutas neste ano. Eu falei que as prostitutas de 1997 não são as de hoje. Hoje, o enredo precisa ter outro olhar, um olhar político diferenciado. Existem várias categorias que precisam ser contempladas: as mulheres, os homens, as pessoas trans”, compartilhou.
Durante a pesquisa do enredo, Mauro destacou uma história que atravessa prostituição, machismo e questões religiosas: a das Polacas, mulheres que foram contrabandeadas para o Brasil com o objetivo de serem exploradas sexualmente e que acabaram formando o primeiro coletivo de profissionais do sexo.
“Elas saíam da Polônia casadas com homens que já vinham com essa intenção. Eles iam às aldeias, casavam com duas, três, quatro mulheres em locais diferentes e as traziam para o Brasil, onde elas se prostituíam. Passaram a ser conhecidas como Polacas por virem da Polônia. Eram mulheres de pele clara, cabelos ruivos e olhos claros. Ao chegarem ao Rio de Janeiro, onde a maioria das prostitutas era parda, preta e de classe baixa, tornavam-se muito requisitadas. O pior é que perdiam o direito de exercer sua religião, porque a comunidade judaica não aceitava mulheres judias que fossem prostitutas. Elas ficavam sem nada. Pela primeira vez, percebemos a existência de um coletivo de mulheres profissionais do sexo. Elas se reuniram e, de cota em cota, construíram a própria sinagoga e o próprio cemitério, já que não podiam ser enterradas nos mesmos espaços sagrados que os judeus que não se prostituíam. É uma história de dor e tristeza, mas que, no fundo, também carrega o sentido do prazer”, refletiu.
O carnavalesco aponta que o grande trunfo do enredo é o respeito, a leveza e a poesia com que o tema foi desenvolvido, o que garantiu a aceitação da comunidade.

“O texto que o Diego Araújo escreveu foi tão bem recebido que não tive nenhuma crítica negativa. Tivemos um cuidado enorme na forma de apresentar isso à comunidade. Como chegar para uma mãe baiana e dizer: ‘Você vai ser prostituta’? No desfile, as baianas virão como Madame Pompadour, da corte francesa. Ela era uma cortesã, então há suavidade no personagem, e elas amaram. Além disso, não teremos crianças no desfile. Tudo foi alinhavado com muito cuidado e respeito. O objetivo do enredo é esse: levar para a avenida — que hoje é um grande espaço de fala política — uma reflexão respeitosa, mostrando que é uma profissão que precisa ser vista como profissão. Os corpos não são vendidos, são usados. Se conseguirmos diminuir um pouco o estigma das profissionais do sexo, a escola já terá cumprido seu papel político”, afirmou.
Entenda o desfile
A Porto da Pedra defenderá o enredo “Das Mais Antigas do Mundo, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, abordando a trajetória das trabalhadoras sexuais. Pensado como uma sequência dos lendários “No Reino da Folia, Cada Louco com Sua Mania” (1997) e “Samba no Pé e Mãos ao Alto. Isto é um Assalto!” (1998), o desfile foi adaptado às condições e demandas políticas da atualidade, contemplando a diversidade.
A proposta é percorrer figuras da cultura popular, a representação do trabalho na noite em suas formas contemporâneas e, por fim, a luta política das profissionais do sexo. A história será contada por meio de 16 alas, três alegorias e cerca de mil componentes.
Segundo o carnavalesco, a beleza do desfile estará na poesia, na leveza e na alegria com que o tema será abordado, começando pelo samba-enredo. Mauro afirma que a escola pretende tocar o público mais com “recursos sentimentais do que pirotécnicos” e relata a forte reação da comunidade de profissionais do sexo ao samba.

“Antes da escolha do samba, participei de uma reunião com o Coletivo das Putas da Vida e, por acaso, estava com a letra do samba que eu acreditava que venceria. Entreguei para uma delas recitar. Enquanto recitava, algumas começaram a chorar. Ali percebi que o samba tinha uma mensagem que chegava a quem precisava chegar. As profissionais do sexo — mães, avós, filhas — que estão nessa luta, seja por prazer, aventura, necessidade ou obrigação, se emocionaram muito. Acho que estamos no caminho certo. ‘São tigresas que matam um leão por dia’”, declarou.
Quanto à plástica do desfile, Mauro adianta que apostará fortemente em cenários e esculturas — todas inéditas neste ano.
“Meu carnaval não é de frufru, nem de plaquinhas ou babados. É um carnaval de cenários. Um carro da Porto é um carro da Porto. Uma boate de Copacabana vai ser uma boate de Copacabana. Gosto desse tipo de carnaval: cenários alegres, vivos, bem feitos e bem acabados”, afirmou.
Setor 1
O desfile começa com a licença e as bênçãos das Pombagiras, na comissão de frente. Forças espirituais femininas e ancestrais, consideradas guardiãs das ruas e das mulheres, serão representadas em coreografia criada por Aline Kelly. O carro abre-alas mostrará a chegada das Polacas ao Brasil, simbolizando as mulheres contrabandeadas para a prostituição. A alegoria retratará o porto onde trabalhavam, com marinheiros que formavam a clientela, além de trazer a Velha Guarda da escola.
O primeiro setor também apresentará personagens populares como Tieta do Agreste e Perpétua, da obra Tieta, Madame Pompadour e outros ícones da cultura popular. A proposta é uma abertura suave, envolvente e de reconhecimento imediato com o público.
Setor 2
A segunda parte do desfile abordará o lado festivo da noite: boates, acompanhantes e as diversas formas contemporâneas de trabalho das profissionais do sexo. Estarão representadas as boates de Copacabana, as trabalhadoras das calçadas e aquelas que atuam no pole dance, retratadas na segunda alegoria, com barras de pole acopladas às laterais do carro.
Nesse setor, surgirão figuras como Monique Prada, escritora e profissional do sexo; Vivi Castelo, do coletivo Divas de Copacabana; Elisa Sanchez, ex-atriz pornô; a musa Andressa Urach; e Stela, representante das profissionais que exercem a atividade por escolha.
Setor 3
O último setor tratará da luta e do posicionamento político das profissionais do sexo. O carro final é assumidamente político e trará símbolos dessa luta, como Indianarae Siqueira, além de uma homenagem ao legado de Gabriela Leite, falecida em 2013. Também estarão presentes cerca de 40 militantes de coletivos de todo o Brasil, que atuam nas pautas de saúde, segurança e direitos das profissionais do sexo.

Na plástica, o carnavalesco destaca esculturas femininas e uma pequena representação de um cabaré, criada a pedido de Lourdes Barreto, ativista de 83 anos que estará presente no desfile. Lourdes fundou o Coletivo Nacional de Prostitutas ao lado de Gabriela Leite e foi eleita uma das 100 mulheres mais importantes do Brasil.
“Vamos cumprir nosso papel com a sociedade, com as profissionais do sexo, com a escola, com o público e, principalmente, com o espetáculo como um todo. Vamos mostrar que é possível falar de temas historicamente apagados com leveza e na tentativa de diminuir o estigma”, concluiu o carnavalesco.










