No Carnaval 2026, a União do Parque Acari levará à Sapucaí o enredo “Brasiliana”, em homenagem a esse teatro negro brasileiro que, mesmo em meio a críticas, foi pioneiro em levar a cultura popular brasileira mundo afora, com performances que retratavam o folclore nacional e figuras caricatas, como a do malandro. A ideia foi desenvolvida pelo carnavalesco Guilherme Estevão, que vai para seu segundo ano na agremiação e promete celebrar a potência da arte e da cultura afro-brasileira. Na visita do site Carnavalesco ao barracão da escola, Guilherme contou como surgiu o interesse pelo enredo:

“O Brasiliana é um enredo que eu tenho guardado há muito tempo. Na verdade, era um enredo maior, sobre o Teatro Negro, mas, a partir do momento em que comecei a mergulhar no Brasiliana, entendi que ele, por si só, deveria ser enredo. Até porque algumas passagens do Teatro Negro muita gente conhece — as pessoas conhecem o Teatro Experimental, conhecem o Abdias —, mas muita gente não conhece o Brasiliana e a dimensão do seu pioneirismo no Carnaval, na cultura popular brasileira de maneira geral, e todos esses artistas que passaram por lá. Isso foi fundamental. Pensei: o Acari é uma escola de samba que tem uma relação muito forte com essa questão da brasilidade. Por mais que seja uma escola jovem, isso já virou uma identidade. E também a musicalidade, de forma mais intensa. Então nada mais oportuno do que trazer esse enredo para cá”.

O carnavalesco afirmou que, durante o período de pesquisas, o que mais chamou sua atenção foi a quantidade de artistas renomados que fizeram parte desse movimento.
“O que foi mais incrível ao longo do enredo foi entender o universo de artistas que circularam pelo Brasiliana. Fui percebendo que foram mais de mil profissionais e diversos artistas que se tornaram notáveis em outros segmentos e iniciaram suas carreiras no Brasiliana. Por exemplo, Tony Tornado, ícone da black music, só vai conhecer a música negra americana quando entra no Brasiliana e consegue viajar para os Estados Unidos. Há também mudanças no Jongo da Serrinha com Darcy do Jongo, a partir do momento em que ele passa a entender outros tipos de musicalidade e a inserir isso no jongo. Existe uma série de artistas que fizeram parte do Brasiliana, que não estiveram na companhia por muitos anos, mas que influenciaram outros grupos culturais do Brasil a partir dessa experiência. Isso é muito bacana”, diz Guilherme.
Guilherme revelou que o desfile terá um significado que vai além do estético, atingindo o campo emocional ao despertar nos espectadores o sentimento de pertencimento, por retratar uma parte importante da história da cultura brasileira e homenagear a memória do ator Aroldo Costa, figura central do Brasiliana, falecido em dezembro de 2025.

“Existe uma questão que vai além do artístico, uma questão emocional, principalmente depois que perdemos o Haroldo no final do ano. Ele é o idealizador de tudo isso. A gente gostaria muito de contar com a presença dele no desfile; infelizmente, não será possível, mas o enredo acaba sendo uma grande homenagem ao Haroldo após sua passagem. Então, para além de todo o universo cultural e artístico envolvido no Brasiliana, há agora um fundo emotivo muito forte e uma homenagem explícita no Carnaval para quem, de fato, idealizou tudo isso desde o início, primeiro com o Grupo dos Novos e depois com a colaboração de tanta gente importante”, afirma Guilherme Estevão.
Sobre as fantasias, o carnavalesco afirma que serão leves, porém abundantes, e destaca a diversidade de cores como ponto central, tendo a cultura brasileira como referência.
“As fantasias deste ano vêm um pouco mais volumosas, mas o principal é a pluralidade de cores. Vamos brincar muito mais com essa diversidade cromática, até porque é um enredo que pede um mergulho plural na cultura popular brasileira, e isso vai se refletir na estética das fantasias. O Acari estará muito mais colorido do que no ano passado. Como a Maria Augusta sempre definia, temos o luxo da cor. É nesse luxo da cor que vamos brincar mais do que propriamente com peso, volume e estruturas que limitem a mobilidade do componente. O componente precisa ter prazer em vestir a fantasia e brincar o Carnaval”, conta Guilherme.

Ainda sobre a estética do desfile, Guilherme revelou uma das novidades que a escola levará à Sapucaí:
“Vamos trazer uma novidade no abre-alas. No ano passado, apresentamos uma estrutura eólica diferente. Agora, vamos trazer mais uma estrutura com movimento interessante, priorizando a ilusão de ótica. Já houve outras estratégias de ilusão de ótica na Sapucaí, mas acredito que a que vamos usar é uma novidade, logo no abre-alas da escola. Vocês vão ver duas grandes mandalas com esse trabalho. No restante, vamos valorizar a musicalidade, a dança e a interpretação teatral nos carros”.
Aproveitando o gancho da musicalidade, o carnavalesco falou sobre o trabalho dos compositores do samba-enredo e a missão de ajudar a contar a história do Brasiliana.

“Felizmente, temos um dos sambas mais poéticos do grupo. Um samba muito bom, feito por Moacyr Luz, Fred e Gustavo Clarão. Eles conseguiram incorporar muito bem essa pluralidade cultural por meio da musicalidade. É um samba com muitas nuances melódicas, o que também favoreceu a bateria da escola a criar outras propostas de bossas, inspiradas em cada uma dessas referências musicais presentes tanto nos quadros quanto no samba. Isso potencializa ainda mais o samba do Acari”, afirma.
Guilherme também falou sobre suas expectativas para o desfile de 2026:

“O Acari vem se superando a cada ano. Felizmente, no ano passado fomos bastante elogiados. A escola está em um processo de amadurecimento em todos os sentidos, não apenas no estético. Temos uma equipe ainda mais forte este ano: reforçamos a comissão de frente, a direção de harmonia, temos um novo casal. Estamos com um samba que acredito ser melhor do que o do ano passado. O enredo anterior foi muito elogiado, mas este traz um ineditismo interessante. Os carros estão um pouco maiores, principalmente mais altos. Estamos apostando realmente em nos superar. Esperamos agradar e atingir esse objetivo, fazendo um desfile ainda melhor do que o do ano passado”.
Entenda o desfile
A União do Parque Acari contará o enredo com três carros alegóricos, abre-alas acoplado e cerca de 1.400 componentes. Guilherme Estevão explica que o desfile será dividido em três momentos, em referência às três fases que formaram o Brasiliana: o Grupo dos Novos, a formação do Teatro Folclórico Brasileiro e, por fim, a consolidação do Brasiliana.
Primeira fase
“O Grupo dos Novos surgiu a partir de dissidentes do Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento. Eles fizeram um mergulho intenso pelos terreiros da Baixada Fluminense, entendendo os batuques ancestrais e a contribuição da cultura afro-brasileira para um universo que nunca havia estado no teatro. O abre-alas vai retratar esse universo do candomblé e o batismo do Grupo dos Novos no terreiro de João da Gomeia, um babalorixá importantíssimo. Elementos como a saudação a Exu, figura historicamente demonizada, ganham outro olhar no Brasiliana. É um carro mais terroso, em tons quentes, com referências à estamparia africana e à materialidade dos terreiros”, explica Guilherme.
Segunda fase
“Na sequência, mostramos a formação do Teatro Folclórico Brasileiro, com um mergulho intenso na musicalidade do interior e, principalmente, do Nordeste. Entram números como o frevo, a festa do coco, a capoeira e, em especial, o maracatu, que encerrava as apresentações do grupo. O rei do maracatu era interpretado por Haroldo Costa. É um carro muito colorido, com estética nordestina levada aos palcos, sempre referenciada na cenografia da época”, diz o carnavalesco.
Terceira fase
“Por fim, chegamos à formação do Brasiliana. O Teatro Folclórico revolucionou a cena, mas acabou despertando o olhar da censura, que dizia que aquilo não representava a cultura brasileira. O Brasiliana bate o pé e afirma: ‘O Brasil é isso, e precisamos mostrar isso para o mundo’. O que era Teatro Folclórico vira Brasiliana — nome inspirado em um conjunto de documentos históricos do país. Essa brasilidade passa a ser apresentada ao mundo, tendo como espinha dorsal, além da cultura popular afro-brasileira, o samba”, afirma Guilherme.
“O Brasiliana constrói a imagem do samba brasileiro para o mundo, assim como a figura da cabrocha e do malandro. Essa estética é levada a mais de 80 países e molda a imagem da cultura festiva do Brasil internacionalmente. Hoje, grupos de passistas, malandros e dançarinos se apresentam pelo mundo inteiro, e tudo isso nasce com o Brasiliana”, conclui o carnavalesco.










