Após o rebaixamento, a Mancha Verde optou por reeditar um de seus carnavais mais marcantes, mas com uma proposta totalmente renovada. A escolha segue uma estratégia já adotada em outras ocasiões no Grupo de Acesso, quando a escola busca encurtar caminhos no desenvolvimento do enredo e na definição do samba, permitindo maior agilidade na construção do desfile. Para isso, desta vez a escola aposta no consagrado enredo de 2012, A Lenda de Odu Obará. Trata-se de um desfile recheado de momentos marcantes, com uma proposta estética deslumbrante, samba-enredo considerado um dos melhores do ano e segmentos de alto nível. Foi o primeiro ano em que, de fato, a Mancha Verde passou a ser vista pelo público como postulante à briga pelo título. Naquela oportunidade, a escola alcançou a quarta colocação.

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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Uma curiosidade é que foi o ano de estreia do intérprete Fredy Vianna, um dos compositores do samba, que permanece até hoje na agremiação. Também chamou atenção a bateria “Puro Balanço”, com uma apresentação ousada, e uma comunidade emocionada, cantando forte já pela manhã de sábado, sendo a Mancha a última escola a desfilar na sexta-feira de carnaval. Agora, para conquistar o retorno ao Grupo Especial, a “Mais Querida” aposta na reedição desse desfile histórico.

O CARNAVALESCO visitou o barracão para conversar com Rodrigo Meiners, integrante da comissão de carnaval e um dos artistas responsáveis pelo desenvolvimento do desfile.

A Mancha Verde será a quarta escola a desfilar no domingo de carnaval pelo Grupo de Acesso, com o enredo “Pelas Mãos do Mensageiro do Axé, a Lição de Odu Obará: a Humildade”, assinado por uma comissão de carnaval.

Encurtar caminhos: uma estratégia positiva

Rodrigo Meiners explicou a ideia do enredo e como está trabalhando essa reedição histórica do carnaval de São Paulo. “Esse enredo chega para mim após a confirmação do rebaixamento da escola. Sempre que esteve no Grupo de Acesso, a Mancha adotou a estratégia de reeditar grandes carnavais, pois a diretoria acredita que isso encurta alguns caminhos, especialmente no processo de divulgação da sinopse e na escolha do samba. Para mim, isso é muito válido. Sou uma pessoa ansiosa em relação ao trabalho e sinto muito prazer no que faço. Gosto de projetar e pensar o carnaval.

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Em meus trabalhos, utilizo o samba como uma legenda do que estamos transmitindo visualmente. Nos desfiles que assinei, apenas em 2024 houve disputa de samba, o que foi positivo, pois consegui dialogar com os compositores sobre a linha narrativa que eu queria seguir, permitindo que o samba contasse, de forma cronológica, o que viria no desfile. Em março, eu já sabia que estava fechado com a escola e qual seria o samba, e comecei a construir todo o processo e o projeto de carnaval pautado em sua letra, até porque, em 2012, tínhamos um carnaval muito maior, por ser no Grupo Especial.

A partir disso, utilizo a história do carnaval de 2012 para recriar a sinopse e a narrativa textual, sempre guiado pela linha do samba-enredo. Isso foi um grande facilitador”, disse.

Concepção diferente da lenda de Odu Obará

Naquele desfile houve momentos simbólicos, como o abre-alas simbolizando o caos e a destruição no início do desfile, e a mesma concepção de carro fechando o desfile, significando o mundo ideal no último setor — algo que ficou muito marcado. Porém, Meiners revelou que a proposta para 2026 é totalmente distinta de 14 anos atrás.

“Basicamente, é tudo diferente. Temos um tema, que é a lenda de Odu Obará, e o samba. A partir dessa lenda e da narrativa seguida pelo samba, criamos um novo roteiro. Geralmente, quando as escolas descem para o Grupo de Acesso, reaproveitam peças por questão de verba, mas não esperem nenhuma referência visual ao desfile de 2012. Foi um grande desfile, porém pertence a outra época, a outro carnaval, com outros materiais.

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Venho de uma linha profissional em que construo meus projetos no computador, com carros desenvolvidos em 3D, e tenho facilidade no uso dessas tecnologias. O mundo hoje é muito mais tecnológico. Trata-se de um carnaval com mais efeitos, mais tecido digital e estampas exclusivas. Em 2026, a proposta pede mais inovação do que em 2012. Não é uma crítica, longe disso, pois considero aquele um carnaval belíssimo, mas acredito que exista um movimento cada vez maior em direção aos efeitos especiais. Esse movimento é visível no carnaval como um todo, especialmente no Rio de Janeiro, com destaque para a iluminação e as comissões de frente. Por isso, essa reedição será completamente diferente, já que busco trazer fortemente esses elementos”, explicou.

Mostrando a imponência da escola

Questionado sobre o ponto alto do desfile da Mancha Verde, o carnavalesco revelou que a escola irá apostar muito na abertura. Comissão de frente, casal e abre-alas gerarão um impacto positivo para passar a impressão daquela agremiação imponente à qual o público se acostumou a ver nos últimos anos.

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“De forma proposital, a abertura do desfile será mais impactante. A escola ficou muito machucada com o rebaixamento, principalmente pela maneira como aconteceu. Houve um erro de jurada, mas o impacto foi gigantesco para a entidade, sobretudo no aspecto financeiro, e também para as pessoas. Ainda mais sendo uma escola de torcida, com muitos integrantes que vivem intensamente a Mancha Verde, onde a alegria e a tristeza estão diretamente ligadas à escola de samba.

Na primeira conversa que tive com o presidente, externei esse entendimento e disse que meu maior desejo era que, no momento em que a escola entrasse na pista para desfilar, todos percebessem que o padrão estético e de proporção da Mancha Verde não é o de uma escola do Grupo de Acesso. Investimos muito nessa abertura e tenho certeza de que, quando a escola apontar no portão, o público vai olhar e dizer que ali vem a Mancha que todos conhecem, a escola bicampeã do carnaval, que já proporcionou momentos de grandeza no Anhembi”, declarou.

Desejo de voltar ao Grupo Especial

Rodrigo Meiners esteve três anos como carnavalesco da Barroca Zona Sul e depois se transferiu para os Gaviões da Fiel. No último carnaval, o artista assinou pela Pérola Negra, retornando a escola ao Grupo de Acesso 1. Meiners não escondeu a vontade de estar entre os 14 carnavalescos do Grupo Especial trabalhando pela própria Mancha Verde e disse que o seu estilo casou com o que a escola busca.

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“A sensação é de que posso mais, e acredito que, aqui na Mancha Verde, houve um encaixe perfeito de equipe. Temos um material humano excepcional, com alguns dos melhores escultores, serralheiros, decoradores e ateliês do carnaval de São Paulo. São profissionais experientes, com títulos conquistados na Mancha Verde e em outras escolas da cidade. Soma-se a isso o meu amadurecimento pessoal, que resulta em crescimento profissional, aliado a uma grande equipe e à enorme vontade de ambas as partes em mostrar sua capacidade.

Tenho muita vontade de voltar ao Grupo Especial e de provar que mereço estar entre os 14 carnavalescos que integram a elite do carnaval. Acredito na minha capacidade e na da Mancha Verde, que também quer mostrar que merece estar entre as grandes, disputando o título no Grupo Especial. Por isso falo tanto da grandiosidade do nosso projeto. Pensando friamente no julgamento, isso pode até representar um risco, talvez não fosse a escolha mais conservadora, mas queremos voltar mostrando, de fato, a nossa capacidade de fazer carnaval”, afirmou.

Peso do favoritismo

Ao lado da Tucuruvi, não há dúvidas de que existe um favoritismo, ambas as escolas caíram em 2025 executando grandes projetos. Apesar de ser um grupo bastante traiçoeiro, qualquer deslize pode fazer a escola parar no Acesso 2. Perguntado se existe pressão dentro desse favoritismo, Rodrigo Meiners disse que gosta disso.

“Confesso que é legal esse sentimento de pressão, mesmo as pessoas estando esperando alguma coisa sua. Isso é o meu maior combustível. Me motiva todos os dias a tentar fazer o meu melhor. Tenho a felicidade de trabalhar com o que amo e sempre sonhei, mas brinco com a minha família e até nas minhas conversas comigo mesmo que, se eu estiver em um projeto em que não exista pressão, não tenho ânimo para a competição. Acho que, para mim, perde totalmente o sentido.

Sou um cara muito competitivo, não gosto de perder par ou ímpar, e estar pressionado a conseguir algum resultado me faz ser um profissional melhor. Eu funciono muito mais nessas situações, porque consigo transformar isso no meu combustível por ser um cara muito competitivo”, completou.

Setor 1

“A abertura do desfile retrata um mundo em destruição. O babalorixá, figura do pai de santo, recorre ao jogo de búzios para compreender tanta tragédia e desgraça na humanidade. Ao lançar os búzios, Exu responde. Exu é o orixá responsável por levar as mensagens da terra ao céu, atuando como mensageiro entre os seres humanos e os orixás. Ele traz a resposta de Olorum, o deus do candomblé, que passa a explicar por que o mundo está se destruindo”.

Setor 2

“O segundo setor mostra Olorum explicando como criou o mundo. Primeiro, ele cria os orixás; depois, a terra e seus elementos, para que os orixás se tornassem os guardiões da natureza. Em seguida, surge o ser humano, destinado a viver nessa terra criada por Olorum, seguindo os conselhos e ensinamentos dos orixás, especialmente o respeito à natureza e às suas riquezas.

Olorum então explica que a ganância humana é a causa das tragédias que assolam o mundo. Nesse momento, surge a lenda do Odu Obará, que simboliza a humildade. Obará era o Odú mais pobre e, certo dia, um babalaô convidou os Odús para uma visita. Obará não foi chamado por vergonha de sua pobreza. O babalaô, já ciente disso, presenteou os Odús com abóboras, e não com riquezas.

No caminho de volta, os Odús passam pela casa de Obará, sentem fome e lhe oferecem as abóboras, acreditando que não tinham valor. Mesmo sem ter sido convidado, Obará os recebe de forma cordial e serve tudo o que tinha para seus irmãos. No dia seguinte, sem nada para comer, ele resolve abrir as abóboras e descobre que, dentro delas, estavam as riquezas. A humildade transforma Obará em um rei africano e no Odú mais próspero. Essa é a grande mensagem do enredo”.

Setor 3

“No terceiro setor, ocorre o período de perdão do homem por Olorum e o acordo em que Olorum estabelece que todos os homens da religião se tornariam mensageiros da esperança, propagando a lenda de Obará para outros povos, para que as três criações de Olorum vivam em harmonia e o mundo não chegue ao fim.

O desfile se encerra com a última alegoria, que representa as três criações de Olorum convivendo em harmonia, em um mundo utópico segundo a visão do deus africano na lenda da criação dos orixás, do homem e da terra no candomblé”.