O céu de Madureira desceu à Zona Sul na noite da última quinta-feira. O Vivo Rio foi tomado pelo azul e branco da Portela no espetáculo “O céu de Madureira é mais bonito”, idealizado e comandado por Teresa Cristina, em uma celebração marcada pela memória, pelo afeto e por uma reverência profunda a Gilsinho, o maior intérprete da história da escola. Com casa cheia, o show reuniu nomes fundamentais da agremiação e do samba: a Velha Guarda Show da Portela, Zé Paulo Sierra, Leonardo Bessa, Ito Melodia, Rixxah e a cantora Simone, além da participação especial da bateria Tabajara. Entre os presentes, lideranças e personalidades da escola, como o presidente Júnior Escafura, a vice-presidente Nilce Fran, a presidente de honra Vilma Nascimento, o ex-mestre-sala Jerônimo e a atriz Cacau Protásio, entre outros.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

showprotela26 2
Fotos: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Teresa Cristina abre caminhos com a alma portelense

A anfitriã da noite abriu o espetáculo reverenciando a história da Portela, interpretando sambas clássicos que atravessam gerações. Com sensibilidade e domínio do repertório, Teresa conduziu o público por uma viagem afetiva, chamando ao palco, um a um, os convidados da noite. A sequência respeitou a tradição: primeiro a Velha Guarda, depois Tia Surica, seguida por Leonardo Bessa, Rixxah, Ito Melodia e Simone, todos celebrando a força do samba e da memória portelense.

Silêncio que falou mais alto

Um dos momentos mais impactantes da noite veio quando todas as luzes se apagaram e o Vivo Rio ficou completamente no escuro. O público passou a ouvir clássicos eternizados na voz de Gilsinho, criando um clima de comoção coletiva. O silêncio respeitoso se transformou em homenagem.

showprotela26 4

Na sequência, as luzes se acenderam, revelando a bateria Tabajara no palco. Logo depois, Zé Paulo Sierra surgiu para interpretar um medley de sambas consagrados por Gilsinho, reafirmando a continuidade de uma história que não se encerra.

Encontro de gerações e de amor

O ápice emocional da noite veio com a entrada de Vinícius Sumas, filho de Gilsinho. Ao lado de Zé Paulo Sierra e Teresa Cristina, ele deu voz à memória do pai em um dos momentos mais comoventes do espetáculo, arrancando aplausos do público.

showprotela26 7

O encerramento foi apoteótico. Com a bateria Tabajara, o samba-enredo da Portela para 2026, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Marlon e Squiel, além das musas da escola, o Vivo Rio ficou de pé, cantando em coro, transformando o espaço em uma extensão da quadra de Madureira.

Legado que não se apaga

Presente ao evento, o presidente da Portela, Júnior Escafura, falou ao CARNAVALESCO sobre a importância de Gilsinho para a escola e para o carnaval.

“Gilsinho é um cara que dispensa comentários. Além de ser o cantor da Portela, era meu amigo de longa data. Eu o conheci ainda na época do (grupo) Fora de Série, quando ele cantava pagode no Rio de Janeiro. Venho de uma família de sambistas, e ele fez vários shows nas casas da minha família, como o Sambola e o River da Piedade. Depois, a gente se reencontrou na Portela. Posso dizer, sem dúvida alguma, que Gilsinho foi o maior intérprete da história da Portela”, afirmou Escafura.

showprotela26 1

O dirigente também destacou a importância simbólica da realização do evento na Zona Sul da cidade.

“A importância não é só para a Portela, é para o carnaval. O sambista está aqui, na Zona Sul, onde existem muitos portelenses. A Portela tem uma tradição muito grande por aqui, porque nos anos 70 ensaiava no Mourisco, em Botafogo. Toda vez que a Portela vem ao Vivo Rio é casa cheia. Muitos portelenses não conseguem ir à quadra por falta de tempo ou deslocamento e aproveitam quando a escola vem para cá. Onde a Portela vai, é casa cheia e todo mundo feliz, porque a Portela tem uma torcida gigante”, destacou.

Ao falar sobre o legado deixado por Gilsinho, Escafura foi enfático. “O maior legado é o amor. O amor que Gilsinho tinha pela Portela vai ficar para sempre. Os filhos dele estão aqui, participando do show, junto com a gente. Eu prometi a eles que honraria o contrato do Gilsinho e assim fiz, pagando integralmente o salário para os filhos. É o mínimo que eu poderia fazer. O nome do Gilsinho jamais cairá no esquecimento da Portela e do mundo do samba. A voz dele vai ecoar sempre nos sambas históricos da escola”, afirmou.

Personalidade, talento e continuidade

Atual intérprete da Portela, Zé Paulo Sierra falou da relação pessoal com Gilsinho e da ausência sentida pelo amigo.

“Gilsinho era um cara de poucos amigos, mas de amizades sinceras. Eu tive o privilégio de estar nesse grupo. A gente tinha duas coisas muito fortes em comum: o samba e o jiu-jitsu. Ele era faixa-preta, eu também sou. Sempre que nos encontrávamos, falávamos de música, de carnaval e de esporte. Além de um grande cantor, ele era compositor, músico completo, tocava vários instrumentos. Era um cara extremamente prazeroso de conversar”, contou.

showprotela26 3

Zé Paulo lembrou que uma das últimas memórias ao lado de Gilsinho foi uma viagem para o Maranhão, em um dos últimos shows do intérprete.

“Foi uma das últimas vezes que estivemos juntos. Ele faz muita falta, não só como cantor da Portela, mas como pessoa, com muita personalidade e autenticidade”, destacou.

Sobre a homenagem no Vivo Rio, o intérprete ressaltou a importância da iniciativa. “Teresa Cristina é uma portelense que sempre brigou pelo samba. Desde a pandemia, com as lives, sempre valorizou os artistas do samba. Essa homenagem é grandiosa e justa. Pena que ele não esteja em vida para ver isso, mas tenho certeza de que, onde estiver, está sentindo nossa energia. É uma noite de gala para o samba”, afirmou.

Ao falar da responsabilidade de ocupar o posto deixado por Gilsinho, o cantor foi direto. “Não gosto de falar em substituição. É uma missão muito difícil ocupar um espaço que ele construiu por 20 anos. São personalidades diferentes, e eu precisei impor a minha identidade. Tenho certeza de que ele está me abençoando, me dando axé, para que a gente faça um grande desfile”, concluiu.

Amizade, respeito e voz marcante

Leonardo Bessa destacou a amizade e a afinidade musical com Gilsinho. “A gente tinha uma amizade e um respeito muito grandes, muito pela afinidade musical. Fizemos vários trabalhos juntos, inclusive ele participou de um projeto audiovisual meu com muito carinho. Eu era muito fã do timbre, da pessoa e do cantor Gilsinho. Ele vai fazer muita falta, mas a lembrança dele fica no coração da gente”, contou.

showprotela26 6

Sobre o legado, Bessa foi enfático. “Ele deixou uma entrega muito grande na avenida. Uma voz marcante, um sorriso, uma alegria. Para mim, uma das grandes vozes da história da Portela e do carnaval como um todo”, afirmou.

Compadre, um sonho e um rei de azul

O depoimento de Ito Melodia foi um dos mais emocionantes da noite. Afilhado de casamento de Gilsinho, ele falou do choque com a partida e da ausência sentida.

“Foi um choque muito grande. Duas semanas antes a gente tinha se falado, eu não sabia da gravidade da situação. Ele era a cara da Portela. Assim como outros grandes intérpretes, ele deixou a marca dele. Hoje ele faz muita falta”, afirmou.

showprotela26 8

Ito também compartilhou um sonho marcante vivido no Natal. “Eu sonhei que estávamos no Sambola, com vários cantores. O Gilsinho estava sentado em uma cadeira azul, como se fosse um trono, uma cadeira de rei. Ele apontava para mim, sem falar nada. Aquilo me emocionou muito. Acordei com a sensação de que ele estava bem, de que tinha feito a passagem em paz”, contou.

Por fim, Ito fez uma reflexão sobre respeito entre gerações no samba. “O samba precisa de respeito entre as gerações. Eu sou da época em que grandes vozes se respeitavam. Cantar aqui hoje é uma honra, representando o Gilsinho, a Portela e o samba. Tenho certeza de que a Portela vai fazer um grande desfile em homenagem a ele”, destacou.

Voz que ficou marcada para sempre

Rixxah relembrou a relação com a família de Gilsinho e a admiração mútua. “Eu trabalhei com o pai do Gilsinho, o Jorge da Conceição, que dizia que o filho me ouvia em São Paulo, tentando me imitar. Quando contei isso a ele, já adulto, ele se emocionou. Ele dizia, sem vergonha nenhuma, que era meu fã. Isso, para mim, é só orgulho”, contou.

showprotela26 5

Para Rixxah, o legado é incontestável. “A voz dele defendendo a Portela é o maior legado. Um tenor potente, inconfundível. Hoje o nome dele é saudade, mas uma saudade boa, de quem foi uma pessoa boa e fez história”, concluiu.