Trocar de pele é mais do que um conceito estético no enredo “Camaleônico”, que a Imperatriz Leopoldinense apresentará no Carnaval 2026 em homenagem a Ney Matogrosso. Para o carnavalesco Leandro Vieira, trata-se de um modo de viver e festejar a liberdade, princípio que atravessa tanto a obra do artista homenageado quanto o momento vivido pela agremiação. A Imperatriz, ao trocar de pele, desfila com corpos que deixam de apenas ilustrar um enredo e passam a afirmar, na Avenida, o corpo como território político.

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Fotos: Leonardo Queiroz/Divulgação Imperatriz

“O Ney é um enredo que está na minha cabeça há algum tempo. O que mais me interessa nesse personagem é o quanto ele foi um corpo que abrigou muitas identidades. E o fato de esse corpo abrigar muitas identidades fez com que esse corpo também fosse um território muito político”, afirmou o carnavalesco.

É a partir dessa leitura que Leandro Vieira insere o enredo “Camaleônico” em um percurso iniciado na Imperatriz em 2023, marcado por enredos diferentes entre si, mas unidos pela recusa da fixidez e pela afirmação da transmutação como projeto artístico.

“O que me chamou mais atenção nesse processo é o quanto mudar de pele é importante para a história e a trajetória artística de uma personalidade que fez disso uma bandeira. Ele é a bandeira pelo direito de ser quem se é, de poder ser o que se quer ser: bicho, homem, mulher, bandido, transgressor”, declarou.

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É essa noção de liberdade, entendida como constante metamorfose do comportamento, que Leandro identificou também no momento vivido pela Imperatriz Leopoldinense.

“Por mais que o ‘Lampião’ não tenha a ver com a ‘Cigana’, que a ‘Cigana’ não tenha a ver com o ‘Oxalá’ e que o ‘Oxalá’ não tenha a ver com o ‘Ney’, o que fica é justamente essa ideia de escola em constante metamorfose”, destacou.

Uma metamorfose que se traduz no comportamento da escola em desfile e reposiciona a Imperatriz para além do antigo rótulo de “Certinha de Ramos”.

“O grande trunfo dos carnavais da Imperatriz, para mim, são enredos que possibilitam o comportamento que a comunidade tem hoje. A escola está contaminada por um espírito de festa e de liberdade, que reflete no comportamento. Não existe mais a ideia de fila, não existe mais a ideia de ordem pré-estabelecida, não existe mais a ideia de marcha”.

Se a liberdade se manifesta na evolução de um corpo coletivo livre, a festa surge como elemento permanente nos enredos de Leandro Vieira à frente da Imperatriz Leopoldinense, funcionando como desfecho recorrente de seus carnavais.

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Foto: Wagner Rodrigues/Divulgação Imperatriz

“O que fica de permanente é a ideia de liberdade na escola, e isso se reflete em comportamento. E o que fica também é uma ideia de festa”, destacou.

Ao longo dos últimos carnavais, essa lógica se manifestou de formas distintas. Em 2023, o desfile sobre Lampião se encerrava em uma festa terrena, após a travessia entre céu e inferno. No ano seguinte, a Cigana terminou com a Imperatriz celebrando a sorte plena, enquanto o enredo sobre Oxalá, em 2025, tinha como desfecho a cerimônia das águas, também marcada pela proposta de celebração.

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Em 2026, porém, essa ideia de festa ganha um novo sentido. “O Ney se encerra numa festa altamente hedonista. ‘Se joga na festa’ talvez seja a frase que resume o desfecho do desfile”, revelou o artista.

Leveza como escolha estética

A liberdade e a festa se materializam, antes de tudo, no corpo que veste o desfile. Em “Camaleônico”, as fantasias são concebidas para colocar o componente no centro da narrativa, dialogando diretamente com a trajetória de Ney Matogrosso, marcada pelo uso do figurino como elemento fundamental de construção artística e de afirmação identitária ao longo da carreira.

Para Leandro Vieira, não há dissociação entre enredo e forma de vestir. A leveza das fantasias, segundo ele, é uma exigência do próprio enredo.

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“O meu enredo para 2026 é naturalmente um enredo de pouca roupa. Não faz sentido imaginar um artista que fez da pouca roupa um discurso público de liberdade sendo homenageado com um desfile de pessoas vestidas de gola e manga fechada da cabeça aos pés”, disse.

Nesse sentido, o conjunto de fantasias foi pensado para respeitar a individualidade dos corpos que compõem a escola, permitindo que pele, barriga, colo e coxa apareçam como parte constitutiva da linguagem do desfile.

“O enredo do Ney me possibilitou ter um conjunto de fantasias em que a individualidade dos corpos da minha comunidade é respeitada. Um conjunto em que a sensualidade da nudez é possibilitada.”

Cores e impacto visual

Se o corpo ganha liberdade, a cor assume papel central na construção do carnaval da Imperatriz Leopoldinense em 2026. Leandro Vieira definiu o projeto visual como o mais surpreendente de sua trajetória na escola.

“Em termos de cor, talvez seja o carnaval mais surpreendente que eu já fiz até aqui, até para mim. A abertura é muito mais colorida, muito mais doida. É uma Imperatriz luxuosa, brilhosa”, contou.

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A escolha dialoga diretamente com o universo estético de Ney Matogrosso, artista cuja imagem pública sempre esteve associada ao brilho e aos figurinos como linguagem. Para o carnavalesco, o material visual que Ney acumulou ao longo da carreira transforma o homenageado em síntese do próprio Carnaval.

“O Ney traz um material estético muito grande. Esteticamente, ele é o carnaval em pessoa. A fantasia sempre foi fundamental na construção artística dele.”

Samba do enredo

Essa mesma lógica de liberdade e celebração também atravessa o samba-enredo, concebido para sustentar o desfile sem romper com o projeto estético e narrativo da escola. Na avaliação de Leandro Vieira, a obra cumpre o papel de comunicar com clareza a proposta do enredo e dialogar com o comportamento que a Imperatriz tem construído nos últimos anos.

“O samba é totalmente dentro do enredo. Ele apresenta a ideia do Ney de forma completa e tem a qualidade descritiva, que é o que a Imperatriz tem feito nos últimos carnavais”.

Liberdade inegociável

Ao falar sobre sua trajetória recente, Leandro Vieira também destacou que a liberdade criativa não é apenas um valor estético, mas uma condição inegociável de seu trabalho. Para ele, a possibilidade de experimentar caminhos distintos em uma mesma escola está diretamente ligada à recusa de rótulos e ao respeito institucional pelo projeto artístico proposto.

“Eu não gosto da ideia de um artista rotulado. Um artista disso, desse perfil. Fazer a Imperatriz quatro vezes diferente, para mim, aponta para uma negação, mas também para uma continuidade. Eu estou reafirmando a troca o tempo todo”.

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“A ideia de liberdade é fundamental no meu trabalho. É uma ideia inegociável. Fazer isso na Imperatriz tem a ver com o respeito da diretoria pelo que eu proponho e com o respeito que eu tenho pelo que acredito”.

Diante desse entendimento, as especulações recorrentes sobre sua permanência na escola de Ramos perdem centralidade. Segundo o carnavalesco, esse tipo de comentário acompanha sua trajetória em diferentes agremiações, mas nunca determinou o modo como constrói seus projetos.

“Há anos dizem que é meu último Carnaval em todos os lugares por onde eu passo. Eu fico muito mais tempo do que dizem que eu vou ficar”.

Essa mesma liberdade orienta a decisão de abordar Ney Matogrosso a partir de sua obra, e não de uma narrativa biográfica.

“O enredo é focado na obra. Não é biográfico. O que me interessa é o discurso estético, o discurso de transgressão, os personagens que ele construiu ao longo da carreira”.

Em 2026, essa leitura ganha a Sapucaí como experiência coletiva. Entre corpos livres, fantasias leves, cores exuberantes e um desfecho festivo sem juízo ou pecado, a Imperatriz Leopoldinense transforma a obra de Ney Matogrosso em afirmação: de que o carnaval pode ser, ao mesmo tempo, espetáculo, festa e território político, um espaço onde mudar de pele é uma maneira de exercer a liberdade.

Conheça o desfile

Todas essas escolhas se organizam no desenho do desfile que a Imperatriz Leopoldinense levará para a Sapucaí no Carnaval 2026. Segundo o carnavalesco, o enredo “Camaleônico” será desenvolvido na Sapucaí em cinco setores, com um total de nove alegorias e cerca de 3 mil componentes. Conheça os nomes de cada setor:

1º Setor: Meio homem, meio bicho
2º Setor: A coragem no corpo
3º Setor: O poema que afronta o sistema
4º Setor: A voz de tantas canções
5º Setor: Sem juízo ou pecado, se joga na festa