A Beija-Flor de Nilópolis aposta em uma história que atravessa fé, ancestralidade e resistência para o Carnaval 2026. O enredo sobre o Bembé do Mercado — o maior candomblé de rua do mundo, celebrado em Santo Amaro da Purificação, na Bahia — ganhou corpo após duas visitas dos enredistas Bruno Laureato, Guilherme Niegro e Vivian Pereira à cidade: a primeira, em abril, dedicada à pesquisa, e a segunda, em maio, durante as celebrações do 13 de Maio.

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Em entrevista ao CARNAVALESCO, os enredistas falaram sobre as impressões das viagens à Bahia, os elementos fundamentais levados para a sinopse, a parceria criativa com o carnavalesco João Vitor Araújo, a recepção do enredo pela comunidade de Santo Amaro e a forma como a narrativa se desdobra nas fantasias e alas do desfile.

A força da rua e do mercado

Guilherme conta que a experiência mais marcante foi testemunhar o povo preto de Santo Amaro ocupando o Mercado Municipal. “Do hasteamento da bandeira do 13 de Maio até a entrega dos presentes, o que mais me impressionou foi ver o quanto, para o povo santo-amarense, é importante levar o candomblé para a rua”, disse.

Vivian recorda a sensação de pertencimento imediato: “Santo Amaro é uma cidade mágica. Assim que pisamos no mercado, sentimos como se estivéssemos em casa. Era como se aquele chão também nos pertencesse”. Ela também destacou a recepção calorosa: na volta da equipe, após o anúncio oficial do enredo, moradores abordaram os pesquisadores para celebrar a escolha.

Para Bruno, a viagem foi um presente não apenas para eles, mas para toda a comunidade nilopolitana. “O Bembé é uma celebração religiosa, política e de cultura popular brasileira. E o que me bateu lá foi: como pode uma festa que acontece há 136 anos e o Brasil não conhecer?”, questionou.

O que não poderia faltar na sinopse

O processo de construção da sinopse foi diretamente alimentado pelas imagens e experiências vividas no Recôncavo Baiano. Bruno defendeu a centralidade da figura de João de Obá, responsável por fincar a primeira bandeira do 13 de Maio no mercado, em 1889. “Imagina se hoje a gente fizesse um candomblé na Central do Brasil? Sofreríamos preconceito religioso. Agora, imagina isso no ano 1, logo após a abolição?”, refletiu.

Vivian destacou o mercado como espaço indispensável: “É um lugar muito sensorial: é cheiro, é gosto, é barulho. Queríamos dar, na sinopse, a sensação do caos do mercado, que funciona, ao mesmo tempo, como terreiro”.

Guilherme trouxe três imagens que considera fundamentais: a comeeira, a estátua de João de Obá e os balaios de Oxum e Iemanjá. “Essas três referências ficaram comigo o tempo todo”, contou.

Uma construção em parceria

Os enredistas também ressaltaram a parceria com o carnavalesco João Vitor Araújo. “O João é uma das pessoas mais generosas que já conheci. Ele é quem desenha e pensa o Carnaval, mas a gente constrói junto com ele. Toda a construção é horizontal”, afirmou Guilherme.

Vivian reforçou a cumplicidade: “A ideia do Bembé chegou para a gente de formas diferentes. Quando nos reunimos, todos citaram o Bembé. Para mim, o primeiro contato foi por meio de uma entrevista de Pai Pote, liderança do Bembé, ao programa ‘Avisa Lá’, de Paulo Vieira”.

Bruno completou: “Trabalhar com João é ter a oportunidade de pensar como essa história pode ser contada. Ele é um cara generoso, que divide o palanque. Nosso trabalho é baseado na troca mútua”.

Do enredo às fantasias

O grupo explicou que a narrativa do enredo se traduz com clareza no desenvolvimento plástico. “É um enredo com começo, meio e fim. As fantasias também têm começo, meio e fim, e não há dificuldade em justificá-las”, afirmou Bruno.

Guilherme acrescentou que o desenvolvimento das alas coreografadas e da comissão de frente tem sido feito em diálogo com os pesquisadores envolvidos. A expectativa é que o desfile traduza, em imagens e movimentos, a potência do encontro ancestral celebrado há mais de um século no Recôncavo Baiano.