Em 1996, Claudinho e Selminha davam início na Beija-Flor a uma história de parceria, respeito e amor com o pavilhão nilopolitano e, desde então, vêm se tornando referência por sua sintonia e pela capacidade de se renovar em meio às inovações que surgiram no quesito, agregando-as, mas mantendo a tradição. A comemoração dessas três décadas foi realizada no bar do carnaval, o Baródromo, nesta última quarta-feira, e teve como destaque a celebração do casal com seus amigos, o mestre-sala mostrando seus dons no canto ao interpretar o samba de 1996 e o discurso de Aydano Motta, jornalista e amigo do casal. Vale lembrar que antes a dupla já tinha brilhado na Estácio e conquistado o título no carnaval de 1992.

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Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Em 2026, Claudinho e Selminha retornam à Sapucaí com o peso de completar 30 anos defendendo o pavilhão nilopolitano e em busca do bicampeonato. Neste ano, a agremiação apresentará o enredo “Bembé”, em homenagem à maior manifestação de candomblé de rua do mundo, o Bembé do Mercado, que acontece na cidade de Santo Amaro, na Bahia.

O casal contou como é ter tantos anos juntos: “Eu só tenho a agradecer a Deus, aos Orixás. Acho que quando a gente se propõe a fazer um trabalho com muito amor, com muito carinho, fazendo aquilo que a gente ama… Somos duas pessoas diferentes, porém com o objetivo de realizar um trabalho de qualidade, com muita seriedade, através da cultura. Porque a gente sabe que hoje todas as escolas têm seus torcedores, e a Beija-Flor é uma escola que tem um mundo de torcedores. A gente sabe que, ali com aquela bandeira, a gente está representando todos esses torcedores com a nossa nota para somar com a escola e chegar ao objetivo, que é ganhar o título”, diz Claudinho.

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“É muito mágico saber que nós estamos ali com todo o vigor, toda a garra, toda a vontade de continuar, de entregar com compromisso, com orgulho, com carinho, com respeito a todos que amam a escola e que estavam nos assistindo. Este ano é especial por ser 30 anos cravados de desfile. […] Eu acho que, mesmo quem não torce pela escola, mas ama o samba, entende que existem personagens que marcaram, marcam e marcarão a história. E é lindo ter personagens que evidenciam que vale a pena estar ali se entregando tanto, fazendo essa cultura, fazendo a roda girar, fazendo a roda se movimentar. Independentemente de torcida, acho que todo mundo olha para Claudinho e Selminha com muito carinho e diz: ‘Nossa, esses caras aí, essa menina e esse menino, quando eu nasci, eles já estavam dançando’. E outros dizem: ‘Tô velhinho, mas vi Claudinho e Selminha começarem e agora estão aí, e eu estou aqui olhando para eles’. É algo muito mágico dos Orixás. Acho que eles olham para a gente e ficam felizes, porque deram essa missão e nós estamos cumprindo com muita maestria e dignidade, porque quando eu empunho o pavilhão da Beija-Flor, não é só a bandeira: tem ali uma força ancestral de gratidão e de resistência, porque eles sabem o tamanho do respeito e da gratidão que eu tenho por eles, que tanto lutaram para que nós estivéssemos aqui”, diz Selminha Sorriso.

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Um dos momentos de destaque na noite de quarta-feira foi o discurso de Aydano Motta, que, com muita precisão, carinho e intimidade com o casal, expressou a grandeza que eles representam juntos. Trata-se de um amigo com um olhar atento e observador, que acompanhou a caminhada deles ao longo dos anos.

Aydano conta que, em 2007, após a apresentação do casal na avenida, Selminha estava com as costas sangrando, mas não sentia dor por conta da animação. Essa cena ficou tão marcada em sua memória que o motivou a escrever um livro sobre as porta-bandeiras, colocando a mulher como protagonista dessa história e expressando a força desse quesito.

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“Eles construíram uma história política. Porque eles resumem o carnaval, resumem a arte carioca, resumem a melhor cara do Brasil, que é o carnaval. O Brasil não inventou nada melhor do que a escola de samba. E um ponto alto da escola de samba é o casal de mestre-sala e porta-bandeira. E o maior casal, por toda a história, pela fidelidade um com o outro, pela coerência, pela atitude, pelo recomeço — e é a trigésima quinta vez que vai recomeçar tudo outra vez —, eles começam como se fosse a primeira”, diz Aydano Motta.

Em tantos anos juntos defendendo o pavilhão nilopolitano, com enredos distintos, qual foi o desfile que mais marcou cada um?

“Eu tive 2015, foi África. Tive as duas Áfricas, quando a Beija-Flor homenageou as duas. O ‘Monstro’, para mim, foi um desfile maravilhoso, que eu amo muito; o do Laíla também, entre outros. […] Todos a gente fez com amor e carinho. Se eu for ficar falando aqui, são vários desfiles, porque eu gostei de quase todos”, conta Claudinho.

“O ano de 2015 foi o desfile que mais me marcou, foi Guiné Equatorial, porque representei uma mulher africana com cabelo black power. Eu nem entendia o que era racismo como entendo hoje, mas ali foi uma virada de chave. Eu podia assumir um black power e representar a negritude no cabelo, quando ninguém fazia isso. A roupa era incrível, foi mágico. Todos os desfiles da Beija-Flor foram maravilhosos. Tivemos obstáculos como chuva, água, óleo, salto quebrado (risos), mas tudo isso fez e faz parte dessa construção que ainda estamos construindo. E com certeza ficaremos até a hora que os deuses, os Orixás, quiserem que a nossa permanência seja feita aqui nesse plano, por essa escola tão amada”, afirma Selminha.

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Em 30 anos, o casal enfrentou diversos obstáculos, entre eles chuva e calor extremo, que atingiram diretamente o condicionamento físico devido às fantasias mais elaboradas, mas conseguiram superá-los com maestria.

“A gente já pegou muita chuva, já pegou muito calor intenso, e isso, para a gente que veste uma fantasia bastante quente, acho que prejudica um pouco, mas nada como o amor e o carinho para superar todos esses percalços”, diz o mestre-sala.

“Você passa por transições, e nós resistimos a elas e continuamos sendo admirados e respeitados, fazendo o máximo possível para manter a tradição da dança do mestre-sala e da porta-bandeira raiz. Mas é claro: houve inovações, e nós entendemos isso e seguimos com elas, mantendo também as tradições e sendo muito felizes fazendo isso. É notório que fazemos com alegria e felicidade. Ver os próprios colegas, nossos pares, com tanto respeito e carinho por nós não tem preço. Eles entendem que é uma história muito longeva e bonita, e nós não nos achamos melhores que ninguém; somos iguais a todos”, afirma a porta-bandeira.

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No discurso dado pelo casal no Baródromo, eles comentaram a importância do diretor de carnaval e carnavalesco Laíla na inserção deles na agremiação, pois foi ele quem os levou para o time nilopolitano. Diante disso, o peso de ter vencido o Carnaval 2025 se torna ainda maior, como forma de agradecimento por ele ter deixado essa porta aberta.

“Eu acho que não só o casal Claudinho e Selminha, mas houve uma comoção da escola por tudo que ele nos ensinou. Ele foi o nosso ‘griô’. Todos os títulos ele deu para a escola. Ele não era só diretor de carnaval, mas também carnavalesco, porque opinava em várias áreas: carros alegóricos, confecção de fantasias, comunidade, samba… Diversos sambas tiveram a mão do Laíla e nós fomos sagrados campeões. A importância dele para nós foi enorme, e tínhamos essa obrigação de dar esse presente para ele, seja lá onde esteja, em outro plano, e para toda a sua família”, diz Claudinho.

“Era como se eu estivesse vivendo um filme, porque foi tudo muito recente. Eu continuei tendo muito contato com ele no final da vida aqui nesse plano. Tenho um áudio dele, duas semanas antes de falecer, dizendo o tamanho do amor que tinha por mim. Ele disse que quem venceu foi o meu talento e o meu esforço, que ele só lapidou. Isso me fez chegar tão longe, e ele tinha muito orgulho de mim”, revela Selminha.

Com o desfile se aproximando, o casal segue focado e ensaiando para 2026. “O momento atual é trabalhar muito, focado na parte física. Acabei de sair do treino. Porque sabemos que, cuidando do corpo, da mente, tendo qualidade de vida e colocando Deus no coração, com a parte espiritual em equilíbrio, conseguimos fazer um trabalho à altura do que o jurado, a escola e o povo esperam da gente. É dedicação, garra e vontade de vencer”, afirma Claudinho.

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“A gente está muito feliz com esse enésimo desfile. Vamos deixar, como sempre, o universo nos levar, mas fazendo por onde, para não nos acomodarmos. Buscamos sempre sermos iniciantes, termos o ‘shoshin’, a mente de principiante da filosofia japonesa, que entende que sempre há o que aprender. Quando você acha que sabe tudo, se acomoda. Sabemos, sim, pela longevidade, mas precisamos aprender mais, entender mais, e isso nos dá força para continuar”, diz Selminha.

O casal também falou sobre as expectativas para o Carnaval 2026 e a busca pelo bicampeonato:

“O enredo vai levantar uma pauta muito importante, que é mostrar o que realmente é o candomblé, a religião de matriz africana, que é linda e da qual nos orgulhamos. O Estado é laico, e o respeito à diferença precisa existir todos os dias. Esse enredo vai transcender, esclarecer e fazer as pessoas refletirem, serem menos racistas e preconceituosas. Tenho orgulho de ser macumbeira e de representar, em 2026, o Bembé do Mercado, um candomblé de rua a céu aberto. Que minha Oxum, minha mãe de cabeça, e todas as Iabás se sintam felizes ao ver essa filha de Oxum e o Claudinho, filho de Ogum, representando a ancestralidade dos Orixás”, conta Selminha.

“Vai ser um ano especial! Para mim, principalmente, que sou um dos autores do samba. Estou muito feliz. Claro que precisamos ter cuidado e técnica, porque não podemos nos emocionar demais. Somos diferentes: Selminha fica mais na parte emocional, e eu fico mais na técnica, tomando cuidado com ela”, diz Claudinho.

Selminha também falou sobre sua experiência como presidente da escola mirim O Sonho do Beija-Flor: “É uma grande realização. Sempre pontuei a educação no samba. Trabalhar com crianças e jovens é manter viva a história do samba. Quando fui escolhida, levei um susto, mas agradeci. Minha missão sempre foi promover o samba através da educação antirracista e da história da Beija-Flor, fazendo com que eles tenham orgulho do que são. O samba é subsistência, inclusão social, resistência, cultura, arte e educação. A escola mirim mostra que o samba nunca vai morrer”, diz Selminha.