O CARNAVALESCO conversou com a equipe criativa das escolas da Série Prata e Bronze, diretamente da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), no Centro do Rio, sobre os preparativos para os desfiles de 2026.

Thiago Braga, carnavalesco da Alegria de Copacabana, da Série Bronze, revelou detalhes do enredo de 2026, “Tranca Rua”, e descreveu a experiência de estrear à frente de uma escola no Carnaval carioca.
“Esse enredo, embora tenha um nome bem curtinho, tem uma miríade de significados. Ele traz para o Carnaval a temática da religiosidade. Claro, com muito respeito, cuidado e pesquisa para não ficar caricato nem ofensivo, mas, ainda assim, de maneira carnavalizada, porque Carnaval é festa”, defendeu.
“Eu sou de axé, então tive que me consultar com os orixás antes de aceitar, para ter autorização deles para falar sobre eles. A recomendação foi que, desde que não seja caricato e desrespeitoso, está valendo”, complementou.
Para isso, o artista apostou na criação de uma entidade própria da escola, o Tranca Rua da Alegria, a ser homenageada e invocada pela avenida até sua coroação final.
Cultuados na Umbanda e na Quimbanda, os Tranca Ruas são uma linhagem de Exus que atuam como guardiões dos caminhos, abrindo e fechando estradas espirituais.
“O Tranca Rua é uma entidade muito cara à Alegria de Copacabana, é o Exu da escola”, pontuou Thiago Braga.
Em seu primeiro desfile com assinatura própria, Thiago contou que a ideia do enredo partiu da diretoria da escola.
“Eles queriam trazer essa força para ter um reencontro com a comunidade e com a história da Alegria. Eu topei o desafio e comecei a pesquisa em abril, ainda sem saber se seria mesmo o carnavalesco. Conforme a pesquisa foi avançando e a gente foi conversando, a gente fechou, e foi quando ficou decidido que seria Tranca Rua”, recordou.
Tradicional bloco de enredo do Carnaval carioca, fundado em 1964, a Alegria de Copacabana ingressou como escola de samba na Intendente Magalhães no ano passado, na Série Prata, após 37 anos longe das passarelas. A sorte de estreante, no entanto, não veio, e a agremiação acabou deixando a terceira divisão da disputa.
Neste ano, na Série Bronze, a escola aposta em novas estratégias para conquistar o público e os jurados, a começar pelo condutor do desfile.
Graduando em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Thiago Braga tem experiência anterior na pesquisa de enredos.
“Antes de ser carnavalesco, eu já era sambista. Sou da harmonia, torço pela Imperatriz Leopoldinense. Nesse sentido, a gente pensa em algumas questões que talvez outros profissionais que não vivem o samba não priorizem. A estética é importante, mas a liberdade de movimento do componente também, assim como o fôlego. Às vezes, há um equilíbrio maior quando já se esteve do outro lado”, argumentou.
Sua primeira experiência, no entanto, já foi suficiente para comparar o tratamento dado aos criadores da Intendente em relação aos da Sapucaí.
“A gente sente que a valorização do Carnaval começa do Acesso para cima; do Acesso para baixo, a conversa ainda é outra. Existe uma subvenção muito mais fraca, que passa por uma questão política. Quando há interesse e vontade de fazer o negócio acontecer desde a base, você tem iniciativas maiores do que as que existem hoje. Da mesma maneira que a arte sempre fez ao longo da história da humanidade, a gente continua fazendo e vai sendo visto aos poucos. A tendência é melhorar, acredito”, expressou.
Esperançoso quanto ao futuro da festa popular, Thiago se mostrou animado para o desfile da Alegria de Copacabana em 2026 e deu detalhes:
“Haverá muitas cores quentes. O primeiro setor vai tratar de uma canção de Lia de Itamaracá, ‘Mar de Fogo’. A gente começa com o Mar de Fogo se abrindo para a chegada desses Exus. Eles vêm no dendê, no fogo, na chama, na gargalhada. A gente finaliza com entidades da Umbanda Sagrada, como pretos-velhos, crianças e caboclos.”
O artista exaltou ainda a proposta conceitual e sociopolítica do desfile.
“Exu representa o favelado, o preto, o sambista, o macumbeiro, assim como o rico e o branco. Ele é a humanidade. O diferencial do desfile, sem dúvidas, é a emoção, porque o povo do samba, na sua origem, é um povo preto cuja religiosidade foi apagada durante muitos anos”, finalizou.









