Por Bianca Faria e Vanessa Vicente
Os sonhos, tambores, tintas e Prazeres de Heitor se encontram todos em Vila Isabel. O resgate da ancestralidade e da força da escola de Noel se reafirmaram em seu último ensaio de rua da temporada de 2026. Durante um dia de semana, as ruas do Boulevard 28 de Setembro foram completamente tomadas por famílias inteiras, sambistas, curiosos e admiradores, todos em busca de presenciar o show da comunidade azul e branca de Vila Isabel, onde ecoou o samba a plenos pulmões.
Com o enredo “Macumbembê, Samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, a escola se propõe a atravessar o tempo e a memória para homenagear Heitor dos Prazeres, um multiartista, compositor e pintor que transformou o cotidiano negro do Rio de Janeiro em arte, ritmo e cor. Sua obra, profundamente enraizada na cultura afro-brasileira, nasce do samba, da rua e do terreiro. Levar essa história para a avenida, com a delicadeza, beleza e força que ela exige, é uma missão entregue às mãos de Gabriel Haddad e Leonardo Bora, que conduzem esse tributo com respeito, poesia e emoção.
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A emoção do canto fica sob a responsabilidade do intérprete da agremiação, Tinga, que reafirmou a felicidade da escola com o enredo, com o trabalho feito até agora e a expectativa de todos os sambistas com o desfile da escola, já que, para muitos, possui o “samba do ano”.
“Coisa linda. A escola está feliz demais com o nosso enredo e o nosso samba. Se Deus quiser, a gente vai fazer um grande ensaio técnico, em busca do nosso sonho maior, que é ser campeão do carnaval e trazer esse título para a nossa comunidade”, relatou o intérprete da Vila.
Com a próxima parada sendo o ensaio técnico na Sapucaí, a Vila entregou para a sua comunidade um ensaio à altura do seu enredo e samba, trazendo muita entrega, força e alegria como resultado do trabalho construído ao longo dos meses. A escola reafirmou para todos o seu excelente pré-carnaval, com canto alto, alas coreografadas, casal de mestre-sala e porta-bandeira em harmonia e bateria entrosada com seu mestre. A escola passou cumprindo as altas expectativas e deixando um gostinho de quero mais.
“Eu acho que o mundo do samba, a bateria, todo mundo tá feliz com o nosso samba. Muita gente fala que vai torcer para a Vila Isabel, mesmo sendo Mangueira, sendo Portela, sendo Salgueiro. Eu acho que o que importa é isso. A gente é feliz demais com a nossa cultura. E é o samba. Nossa equipe de barracão, nota 1000. Da Unidos de Vila Isabel, fazendo um trabalho”, afirmou Tinga, reforçando que todo o trabalho é em torno de apenas um objetivo: trazer o troféu que está há 13 anos sem visitar a quadra da Unidos de Vila Isabel.
COMISSÃO DE FRENTE

Sob o comando de Alex Neoral e Márcio Jahú, a comissão de frente se apresentou como quem abre um ritual. Os movimentos, precisos e sincronizados, misturavam giros calculados ao samba no pé que pulsava no chão. A coreografia trazia a força dos Orixás, tanto nos gestos quanto na presença cênica dos bailarinos, homens e mulheres em sintonia. No centro, uma figura principal conduzia o espetáculo, bailava como eixo da narrativa, enquanto ao redor o corpo coletivo dançava em harmonia. Dois integrantes representaram Oxum e Xangô, com roupas douradas e vermelhas, respectivamente. No momento em que é entoado o canto “De todos os tons, a Vila, negra é. De todos os sons, a negra Vila é”, os bailarinos fazem um sinal de reverência à comunidade, com movimentos de mãos erguidas em sinal de força e, depois, em direção à escola, como forma de apresentar a Vila Isabel.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com um bailado deslizante, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, comandados pela coreógrafa Cátia Cabral, trouxe um figurino mantendo o tradicional azul e branco, mas com um toque de modernismo na roupa da porta-bandeira, que deixou o tradicional vestido de lado e investiu em uma saia com uma blusa um pouco mais curta.
Assim como a comissão de frente, o casal traz, em momentos da dança, a exaltação à escola e à sua comunidade. Em sintonia com o samba, a coreografia também apresenta movimentos delicados com as mãos, simbolizando a pintura, quando é cantado: “Da nossa favela branca e azul do céu. No branco da tela, o azul do pincel. Vem ser aquarela, pintar a Unidos de Vila Isabel”. Além, é claro, das referências às danças afro, que encerram a perfeita sintonia da coreografia do casal com o enredo e o samba. O casal bailou protegido por uma espécie de “guardiões” que se posicionavam tanto à frente quanto atrás, criando uma corrente simbólica de proteção e destaque.
HARMONIA E SAMBA
O samba nasceu grande, mas veio crescendo a cada ensaio e a cada vez que era cantado por um sambista. O encerramento dos ensaios de rua demonstrou que a obra chegou a todos: escola, comunidade e público. Com canto alto e forte durante todo o desfile, a suposição de que a escola cantava apenas no refrão foi completamente desmentida. A escola canta a todo momento, e o refrão é berrado com a alma de quem está apaixonado pelo seu samba. Destaque para as duas alas seguintes após a alegoria 4, que entoaram o samba em alto e bom som durante todo o ensaio, com a animação e o entusiasmo de quem tem verdadeiro amor pelo pavilhão e vai em busca dos quarenta pontos do quesito. Destaque estão as alas dos setores 1, 3 e 5.
EVOLUÇÃO

As alas mostraram vibração sincronizada e coesa. Tinga com sua bela voz empolgava os componentes a cantar e fazia do refrão o ponto alto do ensaio, onde as pessoas abaixavam e subiam pulando cantando o samba. Ensaiar na 28 de Setembro é um exercício de logística, já que o espaço não tem largura para receber confortavelmente os componentes. A preocupação dos diretores era não deixar dar buraco, mesmo com essa dificuldade geográfica.
OUTROS DESTAQUES

A sempre competente bateria “Swingueira de Noel”, do mestre Macaco Branco, dando o ritmo ideal para o histórico samba-enredo da Vila Isabel. A rainha de bateria e a corte de musas da escola são um show à parte. Com uma simpatia arrebatadora, Sabrina Sato exibe todo o seu amor e respeito pela escola, mostrando por que reina há 15 anos à frente da bateria e continua sendo tão amada. Entre as musas, chama a atenção Juliana Morais, que, além de muita beleza e gingado, esbanja simpatia e conexão com a comunidade. A sambista atravessou o ensaio técnico sambando, coreografando e sendo atenciosa com crianças e admiradores que gritavam seu nome enquanto admiravam seu samba no pé.
“É muito gratificante poder estar à frente da bateria da Vila Isabel nesse ano maravilhoso, que fala sobre o Heitor dos Prazeres, um multiartista. A temporada tem sido linda com esse samba lindo. A comunidade cantando em plenos pulmões. Temos uma surpresa na fantasia para o desfile. O povo ficar emocionado com a Vila Isabel”, prometeu mestre Macaco Branco.










