A Mocidade Alegre convida o público a assistir ao seu espetáculo no Sambódromo do Anhembi, palco conhecido como o “teatro” do sábado de desfile. A escola do bairro do Limão levará para a avenida uma grande homenagem à renomada atriz Léa Garcia, artista que abriu caminhos para mulheres negras no teatro e no cinema brasileiro. A Morada do Samba apresentará um cortejo marcado pela ancestralidade negra, pela religiosidade de matriz africana, por grandes sucessos da carreira da atriz e pelos prêmios que coroaram sua trajetória. Com um dos sambas mais aclamados do carnaval, a agremiação também busca empolgar o público e conquistar a tão sonhada décima terceira estrela. A Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar no Anhembi no sábado de Carnaval, com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”. O CARNAVALESCO visitou o barracão da escola e conversou com Caio Araújo, artista responsável pelo desenvolvimento do desfile. Importante: a escola não autoriza imagens de suas alegorias.

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Carnavalesco Caio Araújo. Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Surgimento do tema e um rápido encantamento

De acordo com o artista, o tema surgiu por meio do filho da homenageada, que levou a proposta até a escola. A narrativa encantou Caio, o enredista Léo Antan e a presidente Solange Cruz. “O enredo chegou em novembro de 2025, quando estávamos desenvolvendo o desfile ‘Quem não pode com mandinga não carrega patuá’. A proposta veio por meio do filho da Léa e, de imediato, percebemos que tínhamos um tesouro nas mãos. Assim que saí da reunião, liguei para o nosso enredista, Léo Antan, apresentei o tema e ele gostou muito. Eu, o Léo e a presidente Solange percebemos que esse enredo precisava ser desenvolvido para 2026. A ideia nos atingiu de forma muito forte e rápida. Nós nos apaixonamos, iniciamos a pesquisa e o desenvolvimento e, quanto mais aprofundávamos na carreira e no legado da Léa, mais certeza tínhamos de que a escolha havia sido a correta”, contou.

Pesquisa do enredo

Dentro da pesquisa do enredo, Caio contou que não houve dificuldade, pois o filho de Léa esteve bastante presente para que tudo se tornasse realidade. “Dificuldade não tivemos, porque mantínhamos contato direto com o Marcelo, filho da Léa. Ele foi uma fonte muito importante, principalmente para o Léo, que mora no Rio e estava mais próximo. Ainda assim, realizamos uma pesquisa profunda sobre a obra dela. O grande interesse do enredo é mostrar o quanto o trabalho dessa mulher foi fundamental para que hoje possamos enxergar o protagonismo negro nas novelas e nos filmes. E não apenas na frente das câmeras, mas também entre quem escreve, dirige e produz. Hoje vemos artistas negros falando sobre narrativas negras, e esse é um legado que a Léa construiu ao longo da vida. Ela conseguiu ver esse legado se concretizar antes de partir. Essa é a grande herança que ela deixa, e o desfile foca exatamente nessa construção, mostrando como cada trabalho contribuiu para formar esse legado transformador na dramaturgia brasileira”, disse.

Alta aceitação da comunidade

O lançamento do enredo foi feito no Teatro Rui Barbosa, um dos principais da cidade de São Paulo — local de respeito para o tamanho e a representatividade de Léa Garcia. No dia, a aprovação foi grande e, segundo o carnavalesco, o cotidiano diz muito. “No dia do anúncio, percebemos imediatamente que a comunidade ficou feliz com a escolha do enredo. A Mocidade tem uma comunidade muito fiel e próxima, que participa do cotidiano da escola e pensa o carnaval junto com a gente. Essa proximidade acontece na quadra, nas redes sociais e no contato direto. Fomos recebendo essas devolutivas no diálogo com os componentes e observando como o comportamento da comunidade refletia esse envolvimento. O enredo começou a ganhar vida nos ensaios. As alas passaram a pesquisar filmes, entender personagens e se aprofundar na história. É muito bonito ver a comunidade vestir o enredo e ir para a avenida sabendo exatamente o que está defendendo. Quando isso acontece, tudo fica mais potente. O samba também contribuiu muito. Temos um samba forte, envolvente e muito gostoso de desfilar”, declarou.

“A Deusa Negra” — o ponto alto do desfile

Elencando um ponto alto do desfile da escola, Caio Araújo falou sobre o seu xodó: o quarto carro, que representa a obra “A Deusa Negra”. Neste filme de 1979, Léa Garcia interpretou uma sacerdotisa. “A Mocidade apresenta um conjunto bem linear, mantendo qualidade do primeiro ao último carro. As alegorias são diversas e não se repetem. Cada uma tem uma proposta diferente, o que torna o desfile muito pessoal. Para mim, o ponto alto é a terceira alegoria, que fala sobre A Deusa Negra, filme protagonizado pela Léa. Nesse momento, mostramos como ela abraçou a religiosidade afro-brasileira. Ela interpretou mães de santo, orixás e entidades ao longo da carreira. Esse carro sintetiza tudo isso, com uma proposta artesanal e uma decoração diferente do que estamos acostumados a ver. É, sem dúvida, o meu xodó”, comentou.

Mocidade colorida

O artista explicou que a escola irá com uma plástica diferente. Os setores não vão dialogar em termos de cores, e ele aposta em uma Mocidade colorida. “O processo de criação começa em abril, durante a pesquisa e o desenvolvimento da sinopse. Paralelamente, já iniciamos a pesquisa visual e os desenhos. É um trabalho árduo, especialmente porque buscamos coerência em cada assunto levado à avenida. Cada setor tem cores dominantes, que não vão dialogar entre si. No primeiro, predominam o vermelho e o preto. Depois, fazemos uma transição para rosa e roxo, chegamos ao laranja e encerramos o desfile com dourado e preto. A escola virá bastante colorida. Em relação aos materiais, apostamos em uma grande diversidade. Há carros voltados ao luxo, outros mais cenográficos, alguns com proposta rústica e outros que investem na ousadia das formas”, explicou.

Setor a setor

Setor 1
“No primeiro setor, abordamos o início da Léa no Teatro Experimental do Negro, quando ela ingressa na carreira de atriz. Destacamos a importância desse legado e a relação dela com Abdias do Nascimento, que aparece representado como Exu. Não apenas por ter interpretado esse orixá diversas vezes, mas por ter sido alguém que abriu caminhos para uma dramaturgia preta no Brasil. Após estabelecer a relevância do Teatro Experimental do Negro, seguimos mostrando a trajetória da Léa no teatro”.

Setor 2
“No segundo setor, apresentamos os papéis que levaram a Léa a esse lugar de destaque, evidenciando a diversidade de personagens. Encerramos com a transição do teatro para o cinema, a partir de Orfeu Negro. A Léa participou da peça Orfeu da Conceição no Teatro Experimental do Negro, que depois se transformou no filme. Essa obra concorreu ao Festival de Cannes e venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A partir daí, mostramos a transição da carreira da Léa para o audiovisual, abordando o cinema e a televisão. O setor também discute como esses meios limitavam os papéis oferecidos a artistas negros. Enquanto no teatro ela interpretava rainhas, orixás e entidades, na televisão passou a viver personagens como pessoas escravizadas, empregadas domésticas e secretárias. É nesse contexto que surge sua atuação política dentro da profissão”.

Setor 3
“Esse terceiro setor aborda de forma intensa a construção do legado de uma mulher que, a cada oportunidade, colocava um tijolo para construir um mundo diferente para quem viria depois. Desde a personagem Rosa, em A Escrava Isaura, quando se recusou a gravar uma cena em que deveria chutar um ebó, algo inconcebível para alguém de matriz africana, até o diálogo com roteiristas e diretores que resultou na mudança da cena. Passamos também por A Viagem, quando ela escreve uma carta ao diretor da Globo, Boni, questionando a ausência de pessoas negras no céu. Esse trecho, inclusive, inspira parte do samba. O setor mostra como a Léa utilizou a ancestralidade para construir esse caminho e se encerra com a alegoria que homenageia A Deusa Negra”.

Setor 4
“No quarto setor, mostramos a colheita dos frutos desse legado. Apresentamos a Léa recebendo prêmios por filmes como Filhas do Vento e conquistando espaço para que pessoas negras participassem de todo o processo audiovisual, atuando atrás das câmeras como diretores, roteiristas e produtores. Essa conquista era extremamente importante para ela e aparece representada no desfile. Encerramos com a homenagem ao prêmio pelo conjunto da obra que a Léa receberia no Festival de Gramado. Ela faleceu na manhã do dia em que seria homenageada, e o desfile finaliza celebrando sua carreira, colocando a Léa como protagonista do pavilhão da Mocidade no Carnaval de 2026”.

Ficha técnica
Quatro alegorias
Dois tripés
Elemento alegórico (comissão de frente)
18 alas
2.500 componentes
Diretor de barracão — Mestre Sombra