Nascida e criada em Maricá, Rayane Dumont não ocupa o posto de rainha da bateria da União de Maricá apenas com samba no pé. Ela o ocupa com pertencimento, memória, identidade e emoção. Há quatro anos à frente da Maricadência, Rayane construiu um reinado que vai além do brilho e se conecta diretamente com a história de uma comunidade que se reconhece nela.

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Antes de assumir o posto, em 2020, Rayane já fazia parte do cotidiano da escola como sambista, vivendo o Carnaval desde dentro, no chão da quadra, nos ensaios e no convívio diário com a comunidade. Essa trajetória faz com que sua presença à frente da bateria carregue verdade e representatividade.

Ser rainha da bateria da União de Maricá, para ela, é uma responsabilidade afetiva. É representar um povo inteiro, suas lutas, suas vitórias e sua alegria.

“Pra mim, representa milhões de sensações. Eu sou nascida e criada em Maricá, então é uma honra muito grande. Eu represento uma comunidade, um povo guerreiro.”

A relação com a escola sempre foi marcada pelo acolhimento e pelo amor. Rayane destaca que nunca se sentiu distante da sua comunidade; pelo contrário, sempre foi abraçada e incentivada a crescer junto com a agremiação.

“Sempre fui muito bem recebida pela comunidade. Eu cheguei como sambista, criada ali, e continuo construindo história junto com a União de Maricá, sempre com muito carinho e muito amor. Eu com amor pela minha comunidade, e a minha comunidade com amor por mim.”

UM REINADO QUE CARREGA MEMÓRIA E REPRESENTATIVIDADE

No atual momento da escola, Rayane representa o Reino de Bregaidê de Belagantã, conceito que dialoga diretamente com ancestralidade e identidade negra. Para ela, ocupar esse espaço também é um gesto de reverência às mulheres que vieram antes e às que ainda virão.

“Hoje, com esse reino, eu represento as pretas que vieram antes de mim, as mulheres que estão comigo agora e as muitas pretas que ainda virão.”

Esse compromisso com a história aparece de forma muito clara na estética que Rayane escolhe para a avenida. Seus figurinos são pensados como extensão do enredo, nunca como mero adorno.

“Eu não venho com figurino à toa. Esse, por exemplo, representa três pretas guerreiras. Eu sempre gostei de passar um pouco dos enredos através dos meus looks, porque são histórias que por muito tempo ficaram silenciadas. A gente precisa aproveitar todos os espaços pra contar essas histórias da melhor forma possível.”

ESSÊNCIA, TREINO E EVOLUÇÃO

Muito elogiada pelo carisma e pela presença forte à frente da bateria, Rayane reforça que o segredo está em respeitar a própria essência e nunca parar de evoluir. Para ela, sambar é estudo, entrega e compromisso.

“Cada um tem a sua essência. O segredo é jogar isso pra fora, com muito treino e muita evolução. Eu nunca estou parada, estou sempre estudando, e acho que é isso que faz a gente melhorar a cada dia.”

Essa postura reflete não apenas no desempenho técnico, mas também na forma consciente com que ela ocupa o posto de rainha, entendendo o peso simbólico que carrega dentro da escola.

REFERÊNCIAS QUE NASCEM DA COMUNIDADE

Quando fala sobre inspirações, Rayane faz questão de destacar mulheres que também vieram do chão da comunidade e que representam força, verdade e identidade no Carnaval.

“Minhas referências são a Evelyn Bastos e a Mayara Lima. Tenho muitas inspirações, mas essas duas tocam meu coração. São rainhas da comunidade, e a gente sempre tenta se espelhar nelas, porque eu também sou cria da minha.”

UMA RAINHA QUE REINA COM VERDADE

Ao completar quatro anos como rainha da bateria da União de Maricá, Rayane Dumont se consolida como um dos grandes símbolos da escola. Sua trajetória traduz o que Maricá leva para a avenida: orgulho de origem, ancestralidade, força coletiva e emoção.

Quando Rayane surge à frente da bateria, o público não vê apenas uma rainha do samba. Vê a história viva de uma comunidade inteira pulsando no ritmo do surdo, celebrando quem veio antes, quem está agora e quem ainda vai chegar.