O ensaio da escola mirim da Unidos do Viradouro, na última terça-feira, terminou em clima de emoção e reconhecimento. Um dos maiores nomes da história do carnaval carioca, o mestre de bateria Ciça recebeu a Medalha Tiradentes, maior honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em reconhecimento à sua trajetória de cinco décadas dedicadas ao samba. A iniciativa é do deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), autor da proposta aprovada pela Casa, e a cerimônia contou também com a presença da deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), que fez questão de prestigiar o momento. A entrega aconteceu na quadra da Viradouro, em Niterói, território simbólico para a história do mestre e da escola.
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Veterano da Marquês de Sapucaí, Ciça completa 70 anos de vida e 50 anos de desfiles, sendo referência absoluta na formação de ritmistas, na criação de identidade musical e na construção do padrão rítmico que ajudou a consagrar a Viradouro como uma das grandes forças do carnaval. Em entrevista ao CARNAVALESCO, visivelmente emocionado, mestre Ciça contou que foi pego de surpresa com a homenagem. “Eu fui pego de surpresa com essa homenagem, que é uma honraria do nosso estado. É muito orgulho estar recebendo esse reconhecimento. Estou feliz pra caramba”, afirmou.

Questionado se algum dia imaginou ser homenageado dessa forma, tanto pela escola quanto pelo Estado, o mestre foi sincero: “Nunca imaginei isso na minha vida, nunca. Não que eu não mereça, mas o sambista ainda sofre um pouco de discriminação. O povo do samba merece muito mais homenagens. Outra s pessoas também merecem. Acho isso muito bacana, muito importante”.
Para Ciça, a Medalha Tiradentes não é apenas um reconhecimento individual, mas um gesto simbólico que pode abrir caminhos para outros nomes do carnaval serem valorizados em vida.

“Tenho certeza de que as portas vão se abrir para outros sambistas. As escolas também vão começar a homenagear mais pessoas em vida. Isso é fundamental. O samba envolve milhares de pessoas, envolve trabalho, envolve economia, envolve cultura. E quem faz o show é o sambista, do mais humilde ao que ocupa cargos maiores. O samba tem que estar sempre em primeiro lugar”.
Durante a entrevista, Ciça fez questão de destacar a importância da família Calil, responsável pela gestão da Viradouro, em um dos momentos mais marcantes de sua trajetória: o retorno à escola após um período fora.

“Foi a família Calil que me trouxe de volta para a Viradouro. Eu estava na Ilha e tenho muita gratidão por isso. O senhor Marcelo Calil, o Marcelinho, a dona Terezinha, o seu Antônio… eles são fundamentais na minha vida”.
O mestre resumiu o sentimento com simplicidade e emoção: “É só gratidão. Não sei nem como agradecer. A gente agradece todo dia. A melhor recompensa que posso dar é fazer a Viradouro campeã de novo. Isso seria nota 10”.
Reconhecimento como política pública
Autor da proposta, o deputado estadual Flávio Serafini destacou a importância de políticas públicas voltadas ao reconhecimento dos trabalhadores do carnaval.

“O samba é a maior expressão da cultura popular brasileira e, muitas vezes, quem faz o samba é invisibilizado. São passistas, ritmistas, mestres-salas, porta-bandeiras, mestres de bateria. O mestre Ciça percorreu toda essa trajetória até se tornar um campeão do carnaval e uma figura fundamental na construção do samba nos últimos 40 anos no Brasil”.
Serafini também ressaltou a importância de homenagear em vida: “A Viradouro acertou e foi ousada ao homenagear o mestre Ciça em vida. Não dá para esperar o amanhã. Hoje ele é fundamental, representa gerações do samba. Isso precisa ser apoiado e fortalecido, porque essa é a cara do Brasil”.
‘Não vamos esperar a saudade pra cantar’, canta Talíria
Presente na cerimônia, a deputada federal Talíria Petrone destacou a emoção de participar da homenagem e reforçou a ligação entre Niterói, Viradouro e o mestre Ciça.

“É uma emoção ser parte dessa história. Não tem como pensar no carnaval da Viradouro sem pensar no mestre Ciça. O carnaval não começa na avenida. Ele é feito por quem constrói a batida da bateria, por quem costura, por quem carrega. Ele nasce no barracão, na quadra, no dia a dia”.
Talíria também ressaltou a valorização dos trabalhadores do carnaval: “Homenagear o mestre Ciça é homenagear os trabalhadores que fazem o carnaval acontecer. Essa festa popular precisa ser valorizada porque ela é a cara do povo brasileiro”.

Orgulhosa de suas raízes, a deputada falou da relação afetiva com a cidade e a escola: “Eu sou muito niteroiense. Não tem como pensar Niterói sem pensar na Viradouro. Estar aqui, no último ensaio antes do carnaval, homenageando ninguém menos que o mestre Ciça, é simbólico. Quando ele é o próprio enredo, como diz o samba, nós não vamos esperar a saudade pra cantar”.
A Medalha Tiradentes chega em um momento especialmente simbólico da carreira do mestre. Em 2026, a Viradouro levará para a avenida o enredo “Pra cima, Ciça!”, desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon, celebrando a trajetória, o legado e a contribuição do mestre para o samba e para o carnaval brasileiro.









