Por Marielli Patrocínio e Júnior Azevedo
O ensaio de rua do Paraíso do Tuiuti deixou claro que a escola não está apenas aquecendo os motores: está afirmando um discurso estético, musical e simbólico consistente para o Carnaval 2026. Com o enredo “Lonã Ifá Lukumí”, que mergulha na religião Ifá a partir da vertente Lukumí e promove um encontro sonoro entre Brasil e Caribe, a agremiação apresentou uma exibição coesa, vibrante e de forte impacto, da comissão de frente ao último componente em desfile. Com “Lonã Ifá Lukumí” como enredo de 2026, o Paraíso do Tuiuti desfila no dia 17 de fevereiro, terça-feira de carnaval.
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COMISSÃO DE FRENTE
Comandada por David Lima, a comissão de frente foi um dos pontos altos do ensaio. A coreografia aposta em dinamismo constante, com movimentos precisos e forte carga teatral, dialogando diretamente com elementos afro-cubanos. A figura central, representando Changó Lukumí, integra-se organicamente ao conjunto, criando uma narrativa corporal potente e bem amarrada. O resultado é uma comissão de forte impacto visual, com excelente sincronismo e leitura clara, que prende o olhar e sustenta a proposta do enredo desde o primeiro momento.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Vinícius Antunes e Rebeca Tito apresentou uma dança de grande entrosamento e conexão. Há firmeza no chão e, ao mesmo tempo, leveza nos gestos, formando um equilíbrio muito bem executado. Em alguns momentos, surgem referências sutis à dança afro-cubana, incorporadas com elegância. Vinícius impressiona com giros precisos, muitas vezes sustentados com apenas um pé tocando o solo, enquanto Rebeca conduz o pavilhão de forma segura, emblemática e majestosa, valorizando cada desenho da coreografia.
EVOLUÇÃO
A evolução do Tuiuti foi bastante fluida e consistente nos setores, com a escola avançando em ritmo constante, transmitindo firmeza e controle. As alas mantiveram bom preenchimento dos espaços. Na altura da bateria, o grande público presente no ensaio acabou travando momentaneamente a passagem, mas, com mais abertura logo adiante, a escola retomou uma evolução mais solta, vibrante e pulsante, sem perder o ritmo ou o canto.

HARMONIA E SAMBA
Mesmo trazendo termos específicos da cultura afro-cubana e da vertente Lukumí, o samba apresenta uma melodia envolvente, e o canto dos componentes se potencializa de forma natural. A escola canta alto do início ao fim, com muita força e entrega. A ala musical tem papel central nessa construção, muito bem estruturada, e o samba, na voz do intérprete Pixulé, ganha magnitude especial.

“Olhando hoje, é um samba que chegou desacreditado. Ninguém acreditava na potencialidade dele”, lembra Pixulé. “Com o tempo, foi caindo no gosto do povo, foi crescendo, e hoje o samba do Paraíso do Tuiuti está aí, acontecendo. O mundo do samba já abraçou. Não tem mais o que falar”, afirma o intérprete.

OUTROS DESTAQUES
A bateria SuperSom, comandada por mestre Marcão, deu um verdadeiro show. As bossas são criativas, bem encaixadas e ganham ainda mais riqueza ao dialogar com elementos da música afro-cubana, ampliando a identidade sonora do enredo.

“Isso aqui é uma construção”, explica mestre Marcão. “A gente começa pela planta, vai vendo o que pode fazer, o que não pode, e vai botando cada tijolinho. Hoje o prédio já está construído, mas ainda tem ajustes, mudanças e melhorias. É assim que o trabalho vai ganhando forma”.
Sobre o ensaio técnico na Sapucaí, o mestre não esconde a ansiedade. “Não é nem expectativa, é ansiedade. Todo mundo quer chegar logo. Os ritmistas perguntam: ‘não chega?’. E eu falo: calma, é sábado. Mas é assim, essa ansiedade vai batendo cada dia mais”.

Ele também comentou sobre os ensaios da bateria na Sapucaí. “Fizemos o ensaio no setor 11 sem carro de som. A gente não coloca o carro de som para poder ter uma noção exata do que está acontecendo. Você para, você vai, faz isso aqui, faz aquilo dali, e é isso.” Na penúltima segunda-feira de ensaios de rua da agremiação, mestre Marcão reforçou que o trabalho tem sido de constante construção.

Já Pixulé reforçou a segurança da escola ao declarar que “não tem muita expectativa, não. O que se viu aqui hoje é o que vai acontecer no ensaio técnico. A escola está pronta. Se o desfile fosse amanhã, o Paraíso do Tuiuti estaria pronto. A escola toda cantando, fantasias prontas, dedo no gatilho”.
A rainha de bateria, Mayara Lima, uma das mais renomadas do carnaval atual, brilhou à frente da SuperSom. Durante a bossa que explora a musicalidade afro-cubana, Mayara incorporou elementos da dança afro-caribenha com um repertório corporal multifacetado e impressionante. Destaque também para a ala de passistas, que deu um verdadeiro show de carisma, identidade e muito samba no pé.

Ao fim do ensaio, a sensação era de certeza. Como resumiu Thor, presidente da agremiação, emocionado ao falar sobre o que foi apresentado na rua: “Se o Tuiuti repetir no ensaio técnico na Sapucaí o que vem fazendo nos ensaios de rua, pode ter certeza de que vai ser mais um ensaio e um desfile avassalador”.










