Por Luiz Gustavo, Mariana Santos, Guibsom Romão e João Gabriel Rothier
O Arranco do Engenho de Dentro foi a segunda escola a pisar na Marquês de Sapucaí no domingo de ensaios técnicos da Série Ouro, já sem a chuva que desaguou no início das apresentações. A pista mais seca deixou a escola à vontade para imprimir seu ritmo e realizar uma boa apresentação, calcada na leveza e na alegria do mundo circense, o que foi visto desde a comissão de frente. O ponto alto do ensaio foi o desempenho da ala musical, comandada pelos intérpretes Pâmela Falcão e Rodrigo Tinoco, num casamento impecável de vozes que potencializou o animado samba da azul e branco. Os componentes entraram na brincadeira e realizaram uma evolução solta, com bom canto na maior parte das alas, embora algumas destoassem no quesito. A agremiação do Engenho de Dentro pisará no sábado de carnaval como terceira escola a desfilar, com o enredo “A gargalhada é o xamego da vida”, celebrando a vida de Maria Eliza Alves dos Reis, a primeira palhaça negra do país. O enredo é de autoria da carnavalesca Annik Salmon.
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COMISSÃO DE FRENTE
Lipe Rodrigues e Márcio Dellawegah elaboraram uma comissão formada por 14 componentes vestidos de palhaços, numa caracterização de indumentária mais teatral, porém com uma coreografia inserida de elementos circenses, como cambalhotas e equilibrismo. A coreografia se mostrou criativa, e as interpretações foram boas, porém vários erros de sincronia foram visíveis, como no momento em que os integrantes formaram duplas e uma delas não interagiu corretamente. A execução da dança também teve alguns senões, deixando a apresentação irregular.
“O ensaio de hoje ainda está acontecendo, mas para a nossa comissão de frente foi um aproveitamento muito bom, de excelência no nível técnico. Sabemos que ainda há muito trabalho a fazer, e nossa estética, nossa sina — pela alegria do carnaval, pelo circo, pela história dessa palhaça negra — está sendo construída. Conseguimos trazer aqui um pouco desse vigor para o público. Estamos muito eufóricos, porque, de fato, é uma comissão de frente que vai trazer muita cena, alegria e algumas surpresinhas, simples, mas que vão chegar ao coração do público e, principalmente, ao dos jurados. Todo o trabalho está sendo pensado detalhadamente, não só por nós, mas com a carnavalesca e a direção da escola. O ensaio de hoje deu um gostinho do que vai acontecer no sábado de carnaval; quem viu, viu; quem não viu, vai ver na internet. Mas sem dúvidas, no dia do desfile, será outra coisa”, prometeu Márcio Dellawegah.

“Foi incrível, parando para pensar no trabalho que temos feito com nosso elenco e com a escola, é um resultado muito bom. Endosso o que o Márcio falou: é maravilhoso ver que conseguimos colocar todo o nosso trabalho e nossa mente em prática, e isso traz só alegria real. Mas também temos responsabilidade, não apenas porque o Arranco é uma escola de muita tradição, mas porque é uma escola de mulheres, e estamos falando da primeira palhaça negra. É uma história forte que fala muito sobre a nossa trajetória, nós, pretos periféricos, e nossa ancestralidade. Além de alegria, há grande responsabilidade, e vamos entregar um trabalho impecável, porque nossa geração e nossa história merecem isso”, completou Lipe Rodrigues.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Diego Falcão e Denadir tiveram um bom desempenho no ensaio técnico, com uma apresentação acertada e de boa interação entre ambos. Denadir transmite muita segurança nas suas ações e possui um rodopiar muito bonito, realizando seus gestos e seu bailado com naturalidade. Faltou um trabalho de pernas mais ágil para Diego em alguns momentos, principalmente na segunda parte do samba, quando ele baila para trás norteando os giros de Denadir, mas ele foi muito bem nos giros em torno do próprio eixo e no cortejo à Denadir. Na primeira cabine, na entrada da segunda parte, Diego fez o movimento de dar a mão para Denadir, mas não era esse o passo seguinte na série. Uma apresentação com pontos de correção, mas de bom nível.

“Somos perfeccionistas e sempre achamos que não está bom. Mas conseguimos executar tudo o que vínhamos ensaiando e identificar o que precisa ser ajustado, mesmo que seja um dia antes ou uma hora antes do Setor 1. Temos compatibilidade e afinidade para isso, e vimos que vai dar muito certo. Quanto à fantasia, hoje viemos como ciganos do Circo Guarani, para não ser óbvio, já que a escola trouxe palhaços em toda a agremiação. Escolhemos outra vertente, com uma energia leve e sutil, que estamos aprimorando na coreografia, pedindo também auxílio à aura cigana para ajudar no ensaio de hoje”, disse o mestre-sala.
“Para mim, nada está perfeito. O nome já diz: ensaio. Eu sempre saio daqui com a sensação de que ainda há muita coisa para ajustar, mas espero que tenha agradado a todos. Para mim, foi 75%, muito bom. Agora é continuar ensaiando, ensaiando, ensaiando, para fazermos algo ainda mais bonito no dia do desfile. Também vamos vir com a fantasia dentro do enredo, não na cor tradicional da escola”, completou a porta-bandeira.
EVOLUÇÃO
Leveza, corpo livre e bom uso da lateralidade da pista foram marcas da evolução que o Arranco apresentou neste ensaio. A primeira ala entrou um pouco mais travada na avenida, dando a impressão de que o avanço da escola seria morno, mas logo as alas seguintes mostraram qual seria a tônica da passagem da azul e branco. Componentes sorrindo, utilizando muito os braços, se movimentando sem engessamento e aproveitando as laterais, uma evolução solta e alegre, tal qual o samba da agremiação. O andamento também foi bem agradável, sem correria e mantendo tranquilidade para chegar ao final da Sapucaí. Um senão é que, pelo contingente pequeno, algumas alas vieram bem espaçadas para ocupar mais espaço, perdendo um pouco da compactação. Mas, no conjunto, o Arranco mostrou uma evolução leve, do jeito que a escola pretendia.

“A chuva atrapalhou um pouco, e alguns componentes não puderam vir, mas as pessoas que estiveram presentes ficaram alegres. O enredo pede leveza, brincadeira, e as pessoas vão ter uma surpresa no desfile oficial conosco. Hoje, a avaliação foi a mais positiva possível. Procuramos melhorar a cada ensaio. Se tudo fosse 100% hoje, seria uma falsa realidade; cabe a nós chegar à perfeição nos próximos ensaios, e no desfile oficial certamente será um show de bola. Esperamos transmitir muita risada, gargalhadas e felicidade. Vivemos em um mundo tão sofrido, e nosso enredo, que fala do palhaço Xamego, é tão alegre que queremos passar essa energia para o público e fazer um carnaval excelente, que com certeza faremos”, analisou Cosme Márcio, diretor de carnaval.
SAMBA E HARMONIA
O samba-enredo da escola teve ótimo desempenho, passando agradavelmente de ouvir durante todo o ensaio. Muito disso se deve à construção do enredo na letra, que facilita o canto, e à melodia que mantém o samba firme, além dos dois refrãos animados que a obra possui. Uma parte significativa se deve ao excelente rendimento da dupla de intérpretes. Pâmela e Rodrigo formam uma dupla na total acepção da palavra: as vozes não se atropelam ou se engolem, elas se somam, trocam forças e se unem. Um casamento impecável que levou o samba a alcançar um nível extremamente satisfatório. Belo trabalho da direção musical, comandada por Ledjane Motta.

A força demonstrada pelo samba na avenida também potencializou a harmonia da escola, embora algumas alas tenham pecado pela falta de canto, principalmente na meiúca da composição, só crescendo próximo ao refrão de cabeça. Foi assim com a primeira ala do Arranco, que pouco abria a boca quando o refrão acabava. Panorama bem diferente de várias outras alas que entoaram o samba com entusiasmo. A ala das baianas, que costuma apresentar mais dificuldade com o canto, levou todo o samba no gogó. A parte final da agremiação segurou bem e encerrou o ensaio cantando forte.
“Nossa! Mas foi uma das melhores avaliações possíveis. A comunidade cantou, a bateria veio junto, o carro de som alinhado, afinado. Internamente, eu não tenho do que reclamar, foi maravilhoso. A expectativa para o dia do desfile é das melhores possíveis. Hoje já tivemos um ótimo termômetro, com as frisas cantando e vibrando, e a arquibancada também. A comunidade vai abraçar a escola, e já abraçou, na verdade. Foi um samba escolhido de forma unânime pela escola e pela comunidade, e a gente só tem a chamegar na avenida. Sobre o novo sistema de som da avenida, é uma descoberta, um novo momento. Internamente, todos se ouviram, se comunicaram, o canal do nosso diretor musical funcionou perfeitamente, e ajustes foram feitos. Passagem de som e ensaio técnico são momentos diferentes, mas conseguimos superar as condições, mesmo com chuva. Esse processo vai se consolidar melhor no dia com a Sapucaí cheia, mas internamente, foi muito conciso e positivo”, afirmou Pâmela.

“Com certeza, foi uma energia incrível. Temos a sorte de ter um samba leve, consistente, que se manteve durante todo o ensaio. A bateria acompanhou, o samba pulsou o tempo inteiro, junto da comunidade e do carro de som. Estamos muito felizes e satisfeitos com o que aconteceu hoje. É emocionante ver a reação das pessoas, que nos transmitem energia e fazem a Sapucaí vibrar junto. A expectativa para o desfile também é das melhores, porque o Arranco foi cedo para a rua e tivemos uma resposta imediata do público; a crescente é maravilhosa. Sobre o novo sistema de som, concordo com a Pamela: é uma análise muito positiva. A diferença em relação ao ano anterior é clara, e essa técnica nos ajuda a aprimorar e evoluir. Ainda há ajustes a fazer, mas o desempenho foi incrível, e o som contribuiu muito para nossa evolução na avenida”, contou Rodrigo Tinoco.
OUTROS DESTAQUES
Citada anteriormente, a ala das baianas do Arranco mostrou muita disposição e energia, levando o samba da escola na ponta da língua até o final da apresentação, além de seus rodopios tradicionais.
A bateria, comandada pela mestra Laísa, animou a escola e o público presente com um ritmo gostoso, uma cozinha firme e uma bossa que emulava uma banda de circo, funcionando muito bem.

“Exausta, mas com a certeza de que hoje entreguei tudo o que meus amigos e eu construímos nesta família chamada bateria Sensação. Estamos desde abril em uma escolinha, e muitas pessoas estrearam comigo na Sapucaí, algumas que nunca tiveram contato com a bateria de escola de samba. Hoje, estão aqui felizes, e só tenho a agradecer a eles por acreditarem no trabalho da minha diretoria, porque sem eles nada seria possível. São várias cabeças pensantes, e só tenho a agradecer à Bateria Sensação e, principalmente, às presidentes Diná e Tatiana, por me concederem a oportunidade de abrir portas para outras mulheres. Para o desfile, posso dizer que os pratos serão a cereja do bolo”, revelou a mestra.
Anderson Morango, mais uma vez, veio como segunda porta-bandeira do Arranco, mostrando talento, carisma e representatividade.






