Por Letícia Sansão e Will Ferreira
O Pérola Negra deixou claro, logo no primeiro e único contato com a pista do Anhembi, que vai brigar pelas primeiras colocações no Carnaval de 2026. Campeã do Grupo de Acesso 2, a Joia Rara do samba apresentou um ensaio técnico de leitura direta e forte carga simbólica, sustentado pela narrativa de Maria Bonita como figura central de coragem, fé e resistência. Desenvolvido pelo carnavalesco André Machado, o enredo “Valei-me, cangaceira arretada, Maria que abala a gira, valente e Bonita que vence demanda” ganhou corpo na avenida com escolhas claras e protagonismo feminino bem definido.
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Este foi o primeiro e único ensaio técnico do Pérola, por opção da escola. A apresentação durou aproximadamente 58 minutos, contados a partir do início do canto do samba-enredo. A agremiação será a sexta a desfilar no domingo, 15 de fevereiro, pelo Grupo de Acesso 1.
COMISSÃO DE FRENTE
O grande ponto alto do ensaio. Sem tripé, a comissão de frente apostou exclusivamente na força da coreografia e da narrativa corporal para contar o enredo. A apresentação simulou uma batalha no cangaço, retratando a emboscada das forças policiais que culminou na morte de Lampião e Maria Bonita.

Lampião é morto pelos policiais e fica caído no chão da avenida. É quando a personagem central, Maria Bonita, surge como protagonista. Com uma peixeira, ela enfrenta os policiais em cena, riscando a faca no chão diversas vezes, gesto que dialoga diretamente com um dos versos do samba. A ação se repete ao longo da coreografia, reforçando a ideia de enfrentamento.
A performance é bem construída. Em vários momentos, Maria Bonita ergue a peixeira, ocupando o centro da cena e deixando explícito seu papel de liderança dentro da narrativa. A comissão conseguiu impacto sem recorrer a truques visuais, sustentando tudo na interpretação, no gesto e na intensidade dramática.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Kawe e Nathalia, que fazem sua estreia como primeiro casal do Pérola Negra, tiveram uma apresentação segura e muito bem caracterizada. Vestidos de Maria Bonita e Lampião, trouxeram para a dança elementos do cangaço que foram além dos movimentos tradicionais do quesito, como momentos em que realizaram movimentos que remetem a uma dança sertaneja.

Além dos passos obrigatórios, o casal incorporou deslocamentos mais firmes, com batidas de pé marcadas no chão enquanto conduziam o pavilhão, gesto típico associado às figuras do cangaço. Nathalia utilizava botas, reforçando a caracterização. A leitura estética e simbólica funcionou bem e contribuiu positivamente.
HARMONIA
O Pérola apresentou bom rendimento geral de canto ao longo da pista. O samba foi bem sustentado pela maioria das alas, especialmente antes do refrão de cabeça, que ganhou força coletiva e causou impacto sonoro na avenida.

Um ponto de atenção ficou para a primeira ala, formada por mulheres com saias de chita, elemento citado diretamente na letra do samba. Apesar da leitura visual muito clara, a ala apresentou menor intensidade no canto, destoando do restante da escola. Algo completamente reversível em ensaios, principalmente por se tratar de um samba forte.
EVOLUÇÃO
A escola desfilou de forma organizada, com andamento regular. As alas mantiveram bom espaçamento, sem registros de grandes buracos. A presença recorrente do tecido chita nas fantasias reforçou a unidade visual e indicou um caminho estético que deve ganhar ainda mais força no desfile oficial.

Os componentes avançaram de maneira fluida, o que contribuiu para uma evolução consistente ao longo dos cerca de 58 minutos de ensaio.
SAMBA
A arrancada do samba é intensa e contagiante. Mesmo após a passagem do refrão de cabeça, o início da obra segue em ânimo crescente, levantando a escola e criando um impacto imediato na pista a cada repetição. “Mandacaru anuncia” um início de grande explosão, que foi correspondida no canto forte dos componentes no ensaio técnico do último domingo.

Outro destaque importante foi a ala musical, que contou com a presença de mulheres ao lado dos intérpretes Lucas Donato e Juan Briggs, um ganho significativo para o canto.
O samba é curto e de fácil memorização, sem perder o tom poético e sensível na abordagem sobre Maria Bonita e sua importância enquanto entidade espiritual.
É, portanto, um samba dançante, divertido e capaz de descrever o enredo do Pérola de forma bastante visual.
OUTROS DESTAQUES
A bateria apresentou duas bossas com clara inspiração nordestina, remetendo ao xote, o que cria uma atmosfera coerente com o enredo. A retomada após as bossas foi sempre bem marcada pelo repique e remete às batucadas antigas. O andamento foi tranquilo e sem correria, mesmo com os momentos de explosão do samba.

À frente da bateria, a madrinha Ana Paula Santos apareceu caracterizada como cangaceira, riscando uma faca no chão, como manda o samba. Já a rainha Joyce veio como onça, representando a braveza de Maria Bonita.

O Pérola Negra deixou no Anhembi a impressão de um desfile coeso e com identidade. Assim como Maria Bonita, a Joia Rara mostrou que chega ao Acesso 1 com coragem.










