Por Lucas Santos e Bianca Faria

Nem a chuva que ameaçava cair sobre o Rio de Janeiro minutos antes do ensaio da Majestade do Samba afastou o povo que lotou as calçadas da Estrada do Portela. E a força de ancestralidade, de espiritualidade e de legado que a Portela por si só tem, somada ao enredo de 2026, pareceu ter impedido que os portelenses enfrentassem muito mais do que uma pequena garoa. Com os últimos brilhos de claridade do domingo, a Azul e Branca de Madureira começou o ensaio cantando o excelente samba deste ano a plenos pulmões até o final do treino, já com o frescor da noite. Sabendo que os próximos passos já serão no solo sagrado da Sapucaí, a Portela mostrou que todos estavam contagiados pela energia de deixar uma última e excelente impressão para a comunidade de Oswaldo Cruz e Madureira, a fim de mostrar a alegria de ser portelense em um ciclo de carnaval que não foi dos mais fáceis. Não dá para não pensar em como Gilsinho estaria feliz e satisfeito ao ver a comunidade cantando essa obra da forma como foi hoje. A bateria do mestre Vitinho ajudou muito, com bossas e convenções totalmente dentro do samba e abrilhantando-o ainda mais. Rendeu muito bem! No mais, uma evolução bem espontânea e livre, casal com muita vontade e comissão mexendo com a comunidade e apresentando bem o que vinha depois na escola.

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O diretor de carnaval, Júnior Schall, e o presidente Júnior Escafura destacaram o quanto a apresentação da Portela e esse final de ciclo de ensaios de rua da escola não dizem respeito apenas à técnica, apesar de passar muito por ela, mas também à energia, à emoção acima de qualquer coisa.

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“Mais uma vez, a Portela trouxe felicidade para o terreiro da Estrada do Portela, e com essa felicidade que ela construiu ao longo dessa caminhada. A construção da felicidade passa pela questão técnica, pois nós precisamos ter técnica. Mas ela passa primordialmente pelo coração. Hoje, entendo que a Portela não ensaiou, a Portela não encerrou com um ensaio. Ela encerrou com uma celebração de felicidade, celebração de intensidade na sua felicidade, celebração de conexão entre todos os segmentos, núcleos e setores da escola. A gente hoje trouxe para a Estrada do Portela tudo o que a gente plantou na quarta-feira, na sexta-feira, no domingo e está plantando no barracão. Hoje nós começamos a colher”, entende o diretor Júnior Schall.

“A gente viu o povo feliz. O portelense cantando com alegria, com felicidade, se divertindo. Eu sempre falo: carnaval é sobre alegria. E a Portela está com essa alegria, com essa energia. Vamos fazer isso na Sapucaí. Vamos brincar, vamos nos divertir; óbvio, vamos cumprir tudo o que a gente tem que fazer tecnicamente falando. Mas a emoção não pode faltar. A diversão não pode faltar. A alegria, a felicidade… Vai ser uma escola solta, sem aquela coisa de fila, não. Será uma Portela energizada, uma Portela cantando forte, uma Portela com garra, com vontade de buscar esse campeonato”, sentenciou o presidente da Majestade do Samba, Júnior Escafura.

Em 2026, com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, a Majestade do Samba será a terceira escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial.

COMISSÃO DE FRENTE

Comandados pelos coreógrafos Cláudia Mota e Edifranc Alves, estreantes na Portela no próximo carnaval, os componentes trouxeram uma coreografia muito marcada por pontuar os trechos do samba, mas com muita dança e muito sincronismo. Como no trecho “O príncipe herdeiro da coroa de Bará”, em que os componentes faziam o gesto de segurar uma “coroa” acima da cabeça, ainda no refrão principal. E também no trecho “Não há demanda que o povo negro não possa enfrentar”, em que os integrantes encerram o passo com o punho erguido da resistência.

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Em outros trechos, como no refrão do meio, “Vai ter Xirê ao toque do tambor”, a comissão chamou a atenção pelas danças e pela sincronia dos movimentos, já que os componentes se mantêm sempre próximos em uma falange, alternando alguns passos com os elementos das pontas e os integrantes do meio. Um dos momentos mais bonitos acontece no trecho “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”, quando os componentes erguem os braços enaltecendo a escola, virados para a comunidade que assistia, fazendo essa referência ao seu povo. Uma comissão que, apesar de não ter mostrado um grande clímax, soube ganhar a comunidade pela dança, pela sincronia dos movimentos, com os componentes extremamente bem ensaiados, e por alguns movimentos de muito carisma ao citar partes mais sensíveis e emocionantes do samba. Abriu muito bem este último ensaio, recebendo uma boa resposta da comunidade que assistia.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Marlon Lamar e Squel Jorgea realizaram este último treino na Estrada do Portela sem nenhum receio da pista molhada. Completamente de branco na vestimenta, a dupla começava as coreografias nas “cabines”, já mostrando muita garra, com olhar intenso. Na cabeça do samba, com alguns passos mais voltados para o afro, até os rodopios que os levaram à área de apresentação.

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Após algumas mesuras e a apresentação do pavilhão para a comunidade, no refrão do meio o casal iniciava uma série de movimentos mais intensos, com grandes giros de Squel e passos mais característicos de Marlon, inclusive aquela “jogadinha de perna” bem charmosa. Squel parecia que não ia parar de girar nunca mais; a porta-bandeira só parava já no meio da segunda do samba, quando os dois voltavam ao contato, fazendo mais algumas referências, até voltar aos giros, agora de mãos dadas. E finalizam com Squel brilhando mais um pouco entre giros e a bandeirada final, para a dupla seguir em deslocamento.

Uma boa apresentação, sem nenhum erro aparente, cumprindo bem os requisitos que se espera de um casal de mestre-sala e porta-bandeira, mas, principalmente, destacando os movimentos que a dupla faz de melhor e colocando a personalidade do casal na dança.

HARMONIA E SAMBA-ENREDO

É notável o quanto a obra vem crescendo a cada ensaio. Muito rica melodicamente, permitiu à bateria do mestre Vitinho explorar essa musicalidade. Tudo muito bem encaixado e com uma razão de existir. Não tem nenhum som que esteja sobrando ou que não faça parte do arranjo da obra. A Tabajara está realmente tocando para o samba. E, claro, isso faz com que a música cresça e se destaque ainda mais. Refrão principal com muita ginga e alegre; refrão do meio mais denso e carregado de espiritualidade. Nas estrofes, a cabeça mais épica, cantando a história, e a estrofe de baixo mais emocionante, trazendo elementos que mexem com o brio do portelense e do carnaval como um todo, porque exalta a negritude.

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A comunidade foi espetacular hoje. Nesse ponto, nada a tirar em harmonia. E o carro de som, comandado por Zé Paulo Sierra, fez o seu trabalho de forma muito consciente, chamando a comunidade ao canto e trazendo potência na execução, principalmente pelo bom trabalho das vozes de apoio que auxiliavam Zé. Ótimo rendimento e boa expectativa de como essa obra será recepcionada por um público não totalmente portelense nos próximos dois finais de semana na Sapucaí. O intérprete Zé Paulo Sierra falou dessa expectativa e lembrou mais uma vez de Gilsinho.

“Foi uma temporada incrível e de muito trabalho, e hoje a expectativa é a melhor possível. Hoje a gente encerra o ciclo aqui na rua. Falta um de quadra, mais dois na Sapucaí, né, com um teste de som e luz. A Portela fez um grande pré-carnaval. Tem a comunidade feliz, eu como portelense estreando aqui, tendo essa missão de estar exaltando e carregando o legado do Gilson, que era um irmão para mim, um amigo. A gente está fazendo por ele também. Então, eu estou muito feliz com tudo isso”, entende o cantor.

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EVOLUÇÃO

A escola mostrou uma evolução bastante espontânea e livre, que resultou em uma energia muito alta para o ensaio. Com um grande contingente nas alas, mesmo assim não se observaram problemas de organização. As alas não estavam enfileiradas marcialmente, porém também não se observavam buracos ou grandes espaçamentos, nem alas se embolando. Ao contrário, o andamento foi muito bom, cadenciado, sem correria, com a comunidade se movimentando no ritmo do ótimo samba, brincando carnaval. Destaque também para algumas poucas alas coreografadas, como a que vinha já no final da escola, em que os componentes carregavam coloridos leques, fazendo alguns passos marcados e gerando um bonito efeito também no uso desses leques.

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Fotos: Lucas Santos e Bianca Faria/CARNAVALESCO

OUTROS DESTAQUES

A Tabajara do Samba, do mestre Vitinho, não só se conformou em apresentar uma sonoridade muito rica, como chamou a atenção por coreografias pertinentes e que não atrapalhavam em nada no toque e na correção musical. A rainha Bianca Monteiro, hoje descalça mais uma vez, teve um momento de ainda maior brilho quando entrava no meio da bateria para dançar nas bossas, vendo os ritmistas se abaixando para que Bianca tivesse ainda mais destaque. No discurso antes do treino, o presidente Júnior Escafura agradeceu à comunidade pela temporada de ensaios, projetou o ensaio técnico do próximo sábado e afirmou que “a campeã voltou”, reforçando a promessa e o desejo de a Portela voltar a ser protagonista do carnaval.