Por Lucas Sampaio, Ana Carla Dias, Gustavo Mattos e Will Ferreira

Os Gaviões da Fiel realizaram, no último sábado, seu segundo ensaio técnico no Sambódromo do Anhembi, em preparação para o desfile no Carnaval 2026. Um treinamento de altíssimo nível, no qual o conjunto da obra se fez valer e o canto da comunidade foi a estrela principal da passagem da agremiação, encerrada após 60 minutos na Passarela do Samba. A Fiel Torcida será a quarta a desfilar no dia 14 de fevereiro pelo Grupo Especial, com o enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, assinado pelos carnavalescos Júlio Poloni e Rayner Pereira.

gavioes anhembi et26 7

As arquibancadas foram tomadas pelo negro dos mantos corinthianos durante a passagem dos Gaviões. A soma da presença massiva de torcedores com o que se viu na pista são sinais claros de uma comunidade carregada de uma confiança que não se via, talvez, desde os tempos dos últimos títulos da escola. É um senso de compromisso que se reflete em técnica irretocável, canto arrebatador e boa comunicação de todos os quesitos avaliáveis até o presente momento. Como diria um samba antigo da escola, a sensação que ficou é a de que a Fiel Torcida está com uma grande saudade de ganhar o Carnaval e fará de tudo para que, em 2026, isso não seja um mero sonho antigo. Se o nível for mantido, aliado ao visual e a um enredo bem contado, as chances de bordarem a quinta estrela no pavilhão são realmente altas.

COMISSÃO DE FRENTE

A coreografia ensaiada por Helena Figueira ocorre ao longo de duas passagens do samba e vem representando o “Ritual de Yakoana”. É uma apresentação que acontece com quatro elementos alegóricos empurrados individualmente por componentes, mas que, apesar de ocuparem cada um uma pequena área da pista, são bastante altos e têm uma função quase de composição de cenário, pois a coreografia ocorre praticamente toda no chão.

gavioes anhembi et26 2

É uma dança impactante, visível no fato de que, no início, uma parte dos dançarinos se junta em marcha e canta o refrão do samba com muito vigor. As movimentações características da temática originária se fazem presentes para a evocação do ritual, que evolui para, no segundo ato, um componente pegar um tipo de cabaça da qual sai um fumaceiro. Daquelas alegorias mencionadas, aparecem pessoas no topo dessas estruturas, sendo possivelmente uma referência aos Xapiris, os espíritos da floresta evocados no ritual.

A abertura do desfile dos Gaviões promete ser impactante, com todos os componentes demonstrando estar em perfeita sintonia e prontos para buscar a nota máxima no quesito.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Wagner Lima e Carolline Barbosa precisaram ser guerreiros para superar o vento que surgiu durante o ensaio da escola, mas, diante do clima, conseguiram se sair bem. Nos pontos da pista em que foram observados, o primeiro casal dos Gaviões da Fiel cumpriu todos os balizamentos exigidos pelo quesito e ainda terá tempo para aperfeiçoar ainda mais e chegar pronto para o dia do desfile oficial.

gavioes anhembi et26 8

“No nosso primeiro ensaio, na semana passada, sentimos que ainda tínhamos algumas coisinhas que precisávamos ajustar, em questão de tempo e de entradas e saídas de jurados. Hoje, saímos de um ensaio muito felizes porque conseguimos colocar esses pequenos ajustes já em prática. A gente vem com força e com garra, querendo vencer, indo para brigar, claro, com o pé no chão, mas com o nosso sonho, que a gente nunca pode deixar de sonhar e de acreditar naquilo que busca. A escola está buscando essa quinta estrela”, celebrou a porta-bandeira.

“Hoje é aquele negócio de arrumar detalhezinhos, ver onde o braço entra certinho, afinar detalhes. A gente conseguiu ajustar esses detalhezinhos e colocar tudo em prática hoje, o que estava no papel. Estamos com o pé no chão, mas a gente vem fazendo um bom Carnaval já há alguns anos, então estamos em busca da quinta estrela e de mais um título. Muito foco no enredo, que fala dos povos indígenas, sobre essa terra que é deles. Estamos falando de ancestralidade indígena e, com certeza, o povão vai cantar junto com a gente. Queremos também fazer um bom desfile para o corintiano apaixonado, para quem ama o Gaviões, para quem ama o carnaval. A gente quer colocar tudo o que está no papel em prática e fazer o povão feliz”, conto o mestre-sala.

HARMONIA

Em um ensaio em que o elevado nível do conjunto da obra dificulta apontar qual quesito se destacou mais, fica a menção honrosa para o espetáculo que foi o canto da comunidade dos Gaviões da Fiel. Por muitos anos, as pessoas tendiam a fazer pouco caso do empenho dos componentes na hora de cantar, com a escola sendo criticada com alegações de que só sabiam cantar os refrões. Pode ser reflexo das ótimas colocações alcançadas nos últimos carnavais, mas o que se viu não apenas no último sábado, como também nos dois ensaios técnicos, é que a Fiel Torcida se vê como um time compromissado e que trabalha em prol do objetivo maior.

gavioes anhembi et26 5

Um vigor constante se espalhou por todos os segmentos, impactando até mesmo alas com passos marcados e outras que não costumam, no geral, cantar forte, como baianas e crianças. A confiança que esse nível de canto proporciona estimula outros quesitos, em especial a bateria, que sente coragem de fazer apagões, pois sabe que a comunidade vai responder à altura e manter o andamento. Parabéns ao trabalho dos diretores dos Gaviões, mas, em especial, à determinação da nação corinthiana. Que continuem assim, com gana de vencer, daqui em diante e por muitos anos.

“Esse daqui já foi melhor que o outro. Já estamos chegando perto daquilo que a gente pretende no desfile. Escola coesa, tudo perfeito, todo mundo cantando o samba, que é o principal. É muito legal, só tenho a agradecer o trabalho de todos. A gente almeja fazer um grande espetáculo. Porque aqui ainda não temos as fantasias, ainda não temos as alegorias. Essa é a cereja do bolo do dia do desfile principal. A gente quer fazer um desfile para agradar e marcar no coração de todo mundo”, garantiu o intérprete.

EVOLUÇÃO

Tecnicamente irretocáveis, os Gaviões da Fiel passaram pelo Sambódromo do Anhembi de forma constante, compacta e em um ritmo que permitia aos desfilantes brincarem o Carnaval com muita tranquilidade. O ensaio se encerrou aos 60 minutos, mesmo com a escola fazendo uma pequena parada próximo ao setor final do desfile, apenas para a bateria realizar mais um dos apagões praticados pela avenida. Carnaval é para se divertir, e a Fiel Torcida conseguiu fazer isso sem comprometer o andamento do desfile.

SAMBA-ENREDO

Um samba que, na primeira versão divulgada, gerou preocupações, mas que, desde os ajustes feitos para a faixa oficial do CD, foi amadurecendo e ganhando cada vez mais confiança. Os Gaviões souberam lapidar o diamante e, com a ala musical comandada pelo baluarte da voz Ernesto Teixeira, a escola fez do canto mais um grande momento da noite. O andamento foi agradável de se acompanhar e, em nenhum momento, se perceberam quedas de desempenho, sendo essa mais uma arma poderosa da Fiel Torcida para o dia do desfile oficial.

gavioes anhembi et26 4

OUTROS DESTAQUES

A mais badalada das rainhas estava lá de novo. Sabrina Sato reinou imponente à frente da bateria “Ritimão” e deslumbrou nos olhares o que, nos ouvidos, já estava sendo um show à parte. Os comandados pelo mestre Ciro estavam mais ousados que de costume, muito favorecidos pelas boas oportunidades de bossas que o próprio samba proporciona, mas, como já citado, encorajados também pelo canto vigoroso da comunidade para aplicarem apagões deslumbrantes.

“Achamos muito boa a evolução, principalmente em relação ao primeiro ensaio que a gente fez só de bateria. Para este, houve uma evolução muito grande, e a gente está preparado para apresentar isso aos jurados e conquistar as notas, convencê-los de que a bateria se preparou bem, está afinada, as bossas estão bem encaixadas, e o carro de som também, junto com as bossas, está funcionando. É trazer essas notas para o Gaviões brigar novamente pelo título. É isso: no geral, o Gaviões vai brigar pelo título. Acho que dá para ver pela energia, pelo clima, está todo mundo querendo buscar. Essa questão de, nos últimos dois anos, ter voltado para as campeãs mostra uma evolução em todos os sentidos. Eu fui ao barracão e fiquei extasiado com o acabamento de tudo, com o capricho das fantasias. A gente, como bateria, também, e é o que costumo falar para os ritmistas, tem que corresponder a tudo isso à altura. E todo mundo entende muito bem esse recado: veste a camisa, vai de corpo e alma e vamos buscar, se Deus quiser”, disse mestre Ciro.