Por Gustavo Mattos, Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira

O último encontro da Vila Maria com o Sambódromo do Anhembi antes do desfile oficial foi marcado por fluidez, entrega e entendimento coletivo da proposta que a escola levará à avenida em 2026. A agremiação apresentou no último sábado um ensaio técnico consistente, com o conjunto funcionando de maneira coesa do início ao fim, reforçando a identidade do enredo “Do chão que alimenta à culinária que encanta: Brasil, um banquete de sabores”, assinado pelo carnavalesco Vinicius Freitas.

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Com tempo cravado em 58 minutos, contando a partir do início do canto do samba-enredo 2026, a escola mostrou preparo para cumprir seu papel como a 2ª escola a desfilar no domingo pelo Grupo de Acesso I, no dia 15 de fevereiro, quando retorna oficialmente ao Anhembi para o desfile competitivo.

COMISSÃO DE FRENTE

Com assinatura de Taiana Freitas, a comissão de frente apresentou uma leitura cênica clara e bem estruturada do enredo, apostando na relação entre gerações como fio condutor da narrativa. A cena central trouxe uma criança apresentando uma feira a um idoso, simbolizando a transmissão de saberes, memórias e tradições ligadas ao alimento, à terra e à cultura brasileira.

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Os integrantes utilizaram fantasias que remetiam a frutas, reforçando visualmente o conceito da feira e facilitando a compreensão imediata da proposta. Durante a apresentação, quatro tripés foram incorporados como elementos cênicos fundamentais da coreografia. Quatro integrantes ficaram responsáveis pela condução desses tripés, realizando deslocamentos coordenados ao longo da avenida, criando desenhos coreográficos que dialogaram diretamente com a evolução do samba e com a narrativa apresentada.

A coreógrafa optou por trabalhar com duas coreografias distintas, cada uma ocupando uma passagem inteira do samba-enredo. Na primeira, os movimentos evidenciaram a organização da feira, com gestos que simulavam a exposição e a oferta dos alimentos, enquanto os tripés eram movimentados de forma sincronizada, marcando espaço e ampliando o impacto visual da comissão. Na segunda passagem, a coreografia ganhou contornos mais afetivos, reforçando a troca simbólica entre a criança e o idoso, com movimentos mais fluidos e interação direta entre os personagens e os elementos cênicos.

Mesmo em ensaio técnico, a comissão demonstrou controle espacial e domínio dos recursos utilizados, com os tripés sendo conduzidos de forma funcional, sem comprometer o andamento da escola. A movimentação dos elementos manteve alinhamento, tempo musical e leitura clara da proposta, evidenciando um trabalho coreográfico pensado para dialogar com a avenida e com o desenvolvimento do enredo ao longo do desfile.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Carlos Eduardo (Kadu) e Camila Moreira apresentou uma performance marcada por sintonia e entendimento mútuo. A dança fluiu com naturalidade, com giros bem distribuídos, conduções seguras e constante diálogo corporal entre os dois. Os olhares se mantiveram presentes durante toda a apresentação, reforçando a conexão exigida pelo quesito, assim como os sorrisos, que surgiram de forma espontânea e coerente com a proposta do ensaio.

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Tecnicamente, a porta-bandeira realizou evoluções com boa amplitude de pano, mantendo a bandeira sempre bem aberta e distante do corpo do mestre-sala. Kadu executou proteções precisas, com deslocamentos que respeitaram o espaço da parceira, evitando cruzamentos ou momentos prolongados de costas. Não houve registros de interferências externas nem falhas de condução, o que reforça a segurança do casal neste estágio da preparação.

“Analisando esse nosso último ensaio técnico, o segundo com a escola, já saímos muito satisfeitos no primeiro, porque foi um ensaio incrível. Por ser o primeiro, sempre fica a sensação de que pode ter alguma coisa a mais. O primeiro ensaio foi fantástico, e esse segundo também. Não é porque a gente fez o trabalho, mas saímos muito satisfeitos. Se hoje fosse o dia do desfile, estaríamos completamente tranquilos. Foi um ensaio seguro, com tudo o que planejamos. Conseguimos executar todas as apresentações para os jurados nas cabines; foram quatro cabines para nós. A gente está se preparando desde maio para chegar bem, com resistência tranquila, para, no dia do desfile, estar tudo entregue”, disse o mestre-sala.

“A gente já estava acostumada com a mudança das cabines, porque estamos ensaiando desde o começo de janeiro. Já sabíamos dessas duas últimas, que são as mais difíceis, porque vêm uma seguida da outra. Há um pequeno respiro da terceira para a quarta cabine. Para nós, está tudo bem, porque estamos ensaiando justamente para esse preparo. Então a mudança foi tranquila nesse sentido. É um pouco mais difícil, mas está tranquilo. A minha análise é de um ensaio seguro e feliz. Primeiro, porque estamos na nossa escola. Segundo, porque o trabalho que desenvolvemos foi 100% perfeito. Não houve problema de espaçamento. Conseguimos garantir a coreografia na frente do jurado e também o tempo de descanso fora da cabine. O planejamento saiu 100%; não tem como não estar muito feliz hoje. A gente estava muito segura. Essa segurança trouxe mais tranquilidade para trabalhar. No primeiro ensaio foi muito bom, mas ainda havia algumas dúvidas em relação às cabines. Hoje estávamos seguras em todas elas, do começo ao fim do desfile. A gente sai daqui dançando, feliz, e depois foi comemorar junto com a escola”, completou a porta-bandeira.

HARMONIA

Sob a condução de Clayton Reis, a harmonia da Vila Maria apresentou regularidade ao longo de todo o ensaio. O intérprete sustentou o samba com firmeza, mantendo o andamento estável e estabelecendo comunicação constante com a bateria, fator determinante para a manutenção do canto coletivo.

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As alas responderam de forma positiva, com destaque para a homogeneidade do canto nos setores iniciais. Em alas posicionadas mais ao fundo do ensaio, especialmente no segundo setor, houve pequenas oscilações de intensidade vocal, prontamente corrigidas com o apoio do carro de som. Não foram identificados desvios significativos de letra, e o canto se manteve distribuído ao longo da escola, sem quedas bruscas de rendimento. A atuação da ala musical evidenciou entrosamento e leitura precisa do samba-enredo.

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“O clima para este ano é de diversão, e tem que ser assim, porque é carnaval. Acho que Carnaval é alegria, descontração, e todo mundo tem que vir com essa alegria e vibração para passar para o povo da arquibancada; assim, eles vêm junto com a gente. Para o dia do desfile, o coração está a mil. Fizemos um primeiro ensaio bom e um segundo ensaio ótimo; agora, para o grande dia na avenida, espero ainda mais dessa comunidade maravilhosa. A gente vive um clima maravilhoso, e o Vinícius arrebentou nas alegorias, que estão muito lindas. Não tem nem o que falar: está tudo maravilhoso. Acho que esse clima daqui de dentro do barracão também está perfeito”, comentou o intérprete Clayton Reis.

EVOLUÇÃO

A evolução, conduzida por Julio Cesar e pela Comissão de Harmonia, transcorreu de maneira organizada. As alas avançaram de forma constante, sem registros de embolamentos, mantendo boa ocupação da pista e atenção aos intervalos entre os segmentos da escola.

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A movimentação ocorreu sem a formação de buracos evidentes, e não foi necessária a realização de retornos excessivos para correção de espaço. Um ponto que merece destaque foi a postura das alas, que desfilaram de maneira mais solta, sem dependência exclusiva de fileiras rígidas, mantendo o samba no pé e leitura leve da evolução. Alas coreografadas executaram seus movimentos de forma sincronizada, sem comprometer o deslocamento da escola.

SAMBA

O samba-enredo 2026 da Vila Maria apresentou rendimento consistente durante o ensaio técnico, sustentando a narrativa do enredo ao longo de toda a apresentação. A obra, assinada por Alemão do Pandeiro, Anderson Magrão, Mazinho Argenta, Renne Campos e Márcio Biju, demonstrou bom encaixe com a bateria e com a interpretação de Clayton Reis.

Trechos como “Explode, dá água na boca / Despertando sonhos e inspiração” ganharam força com a resposta do coral, enquanto partes mais descritivas do samba exigiram maior condução do intérprete para manter a intensidade, algo bem administrado pelo carro de som. O samba cumpriu seu papel como fio condutor do desfile, permitindo evolução contínua e leitura clara da proposta.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Cadência da Vila”, sob o comando de Marcel Bonfim, apresentou atuação segura e bem alinhada. Com três bossas distribuídas ao longo do samba, a bateria manteve o BPM estável do início ao fim do ensaio, respeitando a dinâmica da obra e dialogando diretamente com o intérprete. Os naipes mostraram equilíbrio sonoro, com diretores atentos às entradas, saídas e à limpeza rítmica.

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“Sobre hoje, tivemos um balanço bem positivo, porque o primeiro ensaio foi bom. Tivemos um segundo só de bateria, no qual detectamos alguns problemas, mas, graças a Deus, esse último que acabamos de fazer foi ótimo, graças a Deus, maravilhoso. A gente ainda tem mais um tempinho para trabalhar e, se Deus quiser, vai dar tudo certo. A bateria está confiante. Trabalhamos muito forte uma transição, e isso também tem que ser ressaltado, porque é sempre uma responsabilidade muito grande. A Vila Maria é uma escola gigantesca, e assumir uma bateria por onde passou o Mestre Moleza durante 13 anos não é tão fácil. Então, a gente passou por esse processo ao longo desses anos juntos; agora estamos seguindo um legado e, se Deus quiser, vamos conseguir entregar o melhor para a escola. As expectativas são as melhores, já que a escola está trabalhando muito forte, assim como a nossa direção de Carnaval e de harmonia. A gente, com a bateria, também está tentando resgatar esse canto forte da Vila Maria, que é muito importante para o carnaval. Graças a Deus, está rolando. Se Deus quiser, neste carnaval vai dar tudo certo”, afirmou o mestre.

A rainha de bateria, Nathany Piemonte, marcou presença com interação constante com o público e com os ritmistas. Durante o ensaio, cantou o samba, acompanhou as bossas com leitura corporal precisa e utilizou figurino leve, adequado à dinâmica do treino técnico, permitindo liberdade de movimentos e conexão direta com a bateria.

Com um ensaio técnico que evidenciou organização, leitura de enredo e maturidade coletiva, a Vila Maria encerra sua preparação no Anhembi confiante para o próximo e decisivo encontro: o desfile oficial no dia 15 de fevereiro, quando levará à avenida um Brasil servido em forma de samba, tradição e identidade cultural.