Por Letícia Sansão e Will Ferreira

A Unidos do Peruche realizou seu ensaio técnico no último sábado, no Sambódromo do Anhembi, e promete apresentar ao público um desfile de leitura clara e acessível. Com o enredo “Oi… esse Peruche lindo e trigueiro… terra de samba e pandeiro”, o Peruche propõe uma mescla entre a celebração de seus 70 anos de história e a trajetória do pandeiro na cultura popular brasileira.

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Na pista, a Filial do Samba apresentou um conjunto que permite a quem está na arquibancada identificar rapidamente as referências propostas. As alas dialogaram diretamente com a história da agremiação, sempre marcadas pelas cores tradicionais da escola, o que reforça identidade e pertencimento ao longo de todo o ensaio.

O enredo é desenvolvido pelo carnavalesco Chico Spinosa e será apresentado no sexto desfile do sábado, 7 de fevereiro, pelo Grupo de Acesso 2.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente apresentou uma proposta que combinou coreografia no chão e sobre um elemento alegórico, trazendo uma criança como figura central, além de um personagem posicionado em destaque no topo, que remetia à imagem de um rei, portando um cajado e sugerindo algum tipo de autoridade simbólica.

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A criança executou movimentos coreográficos tanto no chão quanto sobre o carro, sempre com um pandeiro nas mãos, erguendo o instrumento repetidas vezes ao longo da apresentação. O gesto reforçou o pandeiro como eixo narrativo do enredo. Os integrantes estavam caracterizados como onças, com maquiagem elaborada, indicando uma aproximação estética com o que será apresentado no desfile oficial, especialmente considerando que este foi o único ensaio técnico da escola no Anhembi.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O novo casal Daniel Vitro e Taiene Caetano apostou em uma apresentação baseada nos movimentos clássicos e obrigatórios do quesito. Vestidos com trajes predominantemente amarelos, mantiveram uma dança tradicional, priorizando a execução correta dos fundamentos.

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Daniel utilizou leque e chapéu como parte da composição visual, elementos que dialogam com a simbologia cultural do malandro brasileiro, figura historicamente associada ao samba, ao choro e ao pandeiro. A relação entre o chapéu e o instrumento remete à boemia, à resistência cultural afro-brasileira e à estética popular que permeia o enredo da escola.

HARMONIA

Embora o samba tenha sido bem conduzido pelo novo intérprete Juninho Branco, que mostrou firmeza na puxada e boa comunicação com a escola, nem todas as alas responderam com a mesma intensidade de canto.

Foi possível observar alas com participação vocal mais tímida, o que chama atenção diante da importância histórica da Unidos do Peruche no samba paulistano.

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A ala que mais cantou foi a ala de ciganos, após a comissão de frente. Os componentes surgiram com pandeiros em formato de meia-lua e figurinos coloridos inspirados na cultura cigana. A referência dialoga com o significado do pandeiro nesse contexto cultural, em que o instrumento simboliza celebração e proteção. Eles estavam decorados com fitas coloridas que representam raios de sol e caminhos abertos na cultura cigana.

EVOLUÇÃO

A evolução da escola se mostrou organizada, com alas bem identificadas e deslocamentos claros. A leitura do desfile foi facilitada pela coerência entre figurinos e proposta narrativa, permitindo que o público compreendesse rapidamente o que cada ala representava.

Não foram observados grandes embolamentos, e a escola manteve uma progressão constante pela pista. Ainda assim, a menor resposta de canto em parte das alas impactou a percepção de energia da agremiação.

SAMBA

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O samba foi bem sustentado pelo intérprete Juninho Branco, que conduziu a obra com segurança e boa projeção. A composição dialoga diretamente com o enredo e favorece a identificação imediata do tema, reforçando a proposta de um desfile de fácil leitura.

OUTROS DESTAQUES

A bateria, uma das mais tradicionais de São Paulo, apresentou bons arranjos e não teve pontos negativos evidentes durante o ensaio. A rainha de bateria, Tata Soares, chamou atenção ao desfilar tocando pandeiro, elemento central do enredo.

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Sua fantasia fez uma releitura em homenagem a Nani Moreira, histórica rainha de bateria da Mocidade Alegre. Em 2004, Nani se destacou ao desfilar tocando tamborim, com figurino marcado por fitas e adereços em formato de relógios. Tata incorporou esses elementos, trazendo relógios e o pandeiro como extensão do discurso visual da escola.

Outro destaque foi a presença de Herivelto Scaife, um dos nomes mais conhecidos do carnaval paulistano, que desfilou como passista de pandeiro, figura cada vez mais rara nas escolas de samba.

Também chamou atenção uma ala mirim que apresentou uma roda de capoeira no meio da avenida, com palmas ritmadas e jogo real. A cena dialoga diretamente com a história do instrumento, já que foi a população negra quem incorporou o pandeiro às festas e rodas, tornando-o hoje o segundo instrumento mais importante da capoeira.