Por Letícia Sansão, Gustavo Mattos, Ana Carla Dias e Will Ferreira

A Mocidade Unida da Mooca realizou seu primeiro ensaio técnico no Anhembi como escola do Grupo Especial e chegou bonita, com o pé na porta, mostrando que veio para ficar. A MUM levantou as arquibancadas e apresentou um trabalho seguro e coeso, sustentado pelo canto constante. A escola mostrou que chega para brigar pelas primeiras posições, e não apenas para buscar a permanência no Especial.

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O enredo foi desenvolvido a partir da trajetória e da atuação do Instituto Geledés, referência histórica na luta das mulheres negras. O desfile propõe uma narrativa de ancestralidade, resistência e protagonismo feminino negro. A agremiação terá o desafio de abrir os desfiles do Grupo Especial, na sexta-feira (13 de fevereiro).

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Sabrina Cassimiro, a comissão de frente apresentou uma proposta de forte impacto. A coreografia se dividiu entre ações no chão e intervenções em cima de um elemento alegórico. O carro, feito pela Mocidade Unida da Mooca, também favoreceu as coreografias na altura das cabines de jurados.

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No topo do carro, em alguns momentos do desfile, era possível ver a representação de Exu em uma performance solo, com movimentos firmes e de grande presença cênica, conduzindo a narrativa do quesito. A escolha de posicionar essa figura isolada em altura privilegiada reforçou a centralidade do personagem como mensageiro. Ao longo da apresentação, surgiram também referências diretas a Odùdúwà, deusa da terra, citada no samba.

Os demais integrantes representavam ancestrais, e a coreografia conversou diretamente com a letra. Os integrantes utilizaram lentes de contato brancas, criando uma atmosfera ritualística desde o primeiro contato com a pista.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Jefferson e Karina apresentou uma dança integrada ao discurso musical do samba. Além dos movimentos tradicionais do quesito, incorporaram gestos coreográficos que simulavam o toque de tambores, dialogando diretamente com a temática afro-religiosa da escola.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Houve sincronia entre os dois durante toda a apresentação, com deslocamentos coordenados e atenção constante à bandeira. A execução manteve regularidade, sem registros de erros visíveis, como enrolamento do pavilhão, mesmo diante do vento constante no ensaio.

“Enfrentamos muito vento, assim como todos os casais nessa noite. É um desafio, principalmente para a porta-bandeira, que o nosso braço tem que ficar firme e forte. É muito difícil, mas acho que, no geral, foi positivo. Acho que agregou bastante para a gente construir melhor ainda a nossa dança. Então deu para a gente tirar algumas dúvidas no ensaio de hoje. A gente ainda não tinha pego, no ensaio técnico, as cabines, com o andamento da escola. Por mais que a gente faça nos nossos específicos, é um pouco diferente”, conta Karina.

“Hoje deu para sentir o que é preciso ajustar para o desfile oficial, mas a gente está satisfeito. Achei que foi um excelente primeiro ensaio, já que hoje realmente foi uma luta contra o vento. E aí só a porta-bandeira sabe o quanto é difícil. E, na minha opinião, foi excelente exatamente por ela ter conseguido superar o vento e as adversidades da natureza, e é algo que despontua a gente sem dó nem piedade. Mas fiquei muito feliz com o nosso desempenho, principalmente por ela ter conseguido enfrentar o vento de uma maneira brilhante”, explica Jefferson.

HARMONIA

A comunidade chegou para mostrar que “escola que canta, ganha”. O canto foi um dos pontos centrais do ensaio da Mocidade Unida da Mooca. Todas as alas apresentaram resposta vocal intensa, sem quedas perceptíveis ao longo da pista. O samba tem letra poética e estrutura que favorecem o canto forte; foi possível ver que ele foi sustentado com força do início ao fim.

“O que eu vi passando na frente, com o que eu pude interagir, foi, sem dúvida nenhuma, o ensaio de uma escola que esperou muito para viver isso e que está tendo a oportunidade de viver depois de muito tempo, depois de muitos anos. E está aproveitando, está sabendo aproveitar as oportunidades. Foi uma escola que curtiu muito, curtiu muito viver isso. É um sonho de uma vida inteira, de uma vida inteira. Eu estou na Mooca desde 2011 para 2012, cantando desde 2016, e vi muita coisa. Muitas pessoas que não viram, mas que mereciam muito estar vendo e vivendo esse momento. Foi o ensaio de uma escola de Grupo Especial. É emocionante. Não tem como não se emocionar, não tem como não lembrar de muita coisa que a gente passou, não tem como não lembrar de pessoas que não estão vivendo esse momento. Foi a melhor coisa do mundo viver esse primeiro ensaio”, disse o intérprete Gui Cruz.

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Destaque para a atuação dos intérpretes, que conduziram a escola com chamadas constantes antes do refrão. A ala musical trabalhou em sintonia com a bateria, criando espaços para que a comunidade assumisse o protagonismo vocal, especialmente nas retomadas após as bossas.

“Foi uma avalanche, uma energia deliciosa. O público na arquibancada veio junto com a gente. Foi lindo”, garantiu a intérprete Sté Oliveira.

“Uma energia absurda, uma troca maravilhosa, arquibancada correspondendo, samba funcionando absurdamente. Bom, essa é a visão que a gente estava tendo dali. E na hora que a escola fez o paradão, achei que foi uma sacada genial do mestre e que tivemos uma resposta. Eu acho que daqui para frente vai crescer, para chegar no dia do desfile e a gente arrebentar”, garantiu o intérprete Emerson Dias.

EVOLUÇÃO

A evolução da MUM tem a cara da escola: organizada e controlada. As alas desfilaram majoritariamente enfileiradas, com deslocamentos bem definidos e coreografias executadas de forma conjunta. Apesar da formação mais rígida, não houve engessamento.

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As referências visuais em dourado, presentes em diversas alas, assim como Oxum, associada ao ouro e à fertilidade, dialogaram diretamente com o discurso do enredo, reforçando a estética do desfile.

A condução indicou domínio do tempo de desfile e entendimento coletivo da proposta apresentada, principalmente nos momentos em que haverá carros. A organização para a entrada dos carros foi feita com excelência.

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SAMBA

O samba-enredo mostrou alto rendimento na pista, sustentado tanto pela comunidade quanto pela ala musical. A obra apresenta uma narrativa clara sobre ancestralidade e protagonismo feminino negro. Os versos favorecem o canto forte e contínuo e, na passagem pela Monumental, arrepiaram quem esteve presente.

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A condução também garantiu fluidez ao samba, sem problemas de andamento. O canto coletivo ganhou destaque em trechos de maior densidade poética, reforçando a identidade musical da escola já neste primeiro contato do ano com o Anhembi.

OUTROS DESTAQUES

A bateria apresentou bossas que abriram espaço para o crescimento da harmonia, com apagões estrategicamente posicionados para ampliar o canto da escola. A resposta dos componentes foi imediata, criando momentos de forte impacto sonoro na pista.

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É importante notar também os destaques posicionados em um carro com o pavilhão da Mocidade Unida da Mooca e o símbolo do Instituto Geledés, reforçando visualmente a parceria que fundamenta o enredo. No carro, provavelmente virão personagens importantes da história do Instituto. A presença desses elementos já no ensaio contribuiu para a clareza da proposta.

No conjunto, a Mocidade Unida da Mooca deixou o Anhembi com a leitura de uma escola que entende o peso do Grupo Especial e demonstra, desde o início, ambição compatível com ele.