Por Gustavo Mattos, Letícia Sansão e Will Ferreira
O Anhembi foi tomado por símbolos, gritos ritualísticos e uma atmosfera de encantaria na noite em que a Colorado do Brás realizou seu ensaio técnico rumo ao Carnaval de 2026. Sob a presidência de Antônio Carlos Borges, o KA, a escola apresentou um trabalho coeso, organizado e carregado de significado, traduzindo na pista a potência do enredo “A Bruxa está solta – Senhoras do Saber renascem na Colorado”, desenvolvido pelo carnavalesco David Eslavick.
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Com a proposta de ressignificar a figura historicamente perseguida da mulher sábia, a Colorado transformou o ensaio em um verdadeiro manifesto visual e sonoro. A narrativa apresentada reforçou a ideia de que a bruxa deixa de ser alvo da fogueira para assumir o posto de rainha, com o caldeirão fervendo liberdade, resistência e ancestralidade. A escola será a 2ª a desfilar na sexta-feira pelo Grupo Especial e volta à pista para novo ensaio no domingo, 01 de fevereiro, às 18h30.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Paula Gasparini, a comissão de frente apresentou uma leitura clara e teatral do enredo. Os componentes vieram caracterizados como bruxas, com maquiagem carregada, expressões marcantes e gestual ritualístico. Um tripé foi utilizado como elemento central da apresentação, delimitando espaço na pista e servindo de base para a movimentação do mago, personagem que conduziu parte da narrativa.

O caldeirão foi o grande símbolo da coreografia. Em diversos momentos, os integrantes se posicionaram ao redor dele, executando movimentos circulares com as mãos, como se invocassem forças ancestrais. Em pontos específicos, o mago desceu do tripé, aproximou-se do caldeirão e realizou a ação de mexê-lo, reforçando a ideia de ritual coletivo. Os gritos emitidos durante a coreografia criaram impacto sonoro e dialogaram com a proposta de intimidação e resistência, como se as bruxas assumissem o controle do espaço.
Na Arquibancada Monumental, o mago foi erguido pelos integrantes, em uma imagem simbólica que sugeriu a inversão de poder: aquele que antes julgava passa a ser conduzido pelas forças que tentou silenciar. A comissão conseguiu ocupar bem a pista, mantendo clareza narrativa e conexão direta com o enredo apresentado.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Bruno Mathias e Jéssika Barbosa realizou uma apresentação segura e alinhada tecnicamente. Houve sincronia constante entre os movimentos, com o mestre-sala valorizando a porta-bandeira em seus giros e deslocamentos, mantendo o olhar atento e o corpo sempre a serviço da bandeira. Jéssika apresentou controle nos giros, com boa sustentação do pavilhão e leitura precisa do samba, evitando que a bandeira perdesse desenho ao vento. Bruno trabalhou com variações coreográficas que dialogaram com os momentos do samba, alternando proteção, cortejo e marcações mais incisivas, sem se colocar de costas para a porta-bandeira ou comprometer a comunicação entre o casal.
O conjunto apresentou fluidez, respeito aos fundamentos e presença cênica, contribuindo para o impacto visual do ensaio e reforçando a identidade da escola.

“O ensaio teve um saldo muito positivo e mostrou a evolução do trabalho construído ao longo do tempo. Apesar do estranhamento inicial natural diante do novo, os ensaios específicos no Anhembi ajudaram no entrosamento, e agora o foco está no refinamento dos detalhes. A coreografia, que dialoga com elementos de magia e bruxaria, exige ajustes finos, especialmente com o jurado mais próximo, o que aumenta a atenção aos detalhes, mas sem alterar o andamento da apresentação”, disse a porta-bandeira.

“Sem recesso entre um carnaval e outro, o trabalho vem sendo desenvolvido desde abril, com ajustes contínuos entre enredo e coreografia. O ensaio com a escola inteira trouxe a emoção real da pista e confirmou que tudo o que foi construído ao longo dos meses tende a funcionar no desfile. Com o jurado mais próximo, a exigência por sincronismo e acabamento aumenta, mas também intensifica a emoção do contato direto. A Colorado, que completa 50 anos, prepara um desfile histórico, marcado por entrega, amor e emoção visíveis na avenida”, completou o mestre-sala.
HARMONIA
Sob comando do intérprete Léo do Cavaco, a harmonia da Colorado apresentou momentos de grande entrega coletiva. O canto ganhou força especialmente nos trechos de retomada após apagões, quando bateria, carro de som e componentes voltavam juntos, criando um efeito de impacto na pista.
Em alguns pontos estratégicos, principalmente no retorno do canto após a bateria, foi possível perceber oscilações na intensidade vocal de determinadas alas, o que refletiu em uma leitura menos vibrante para quem acompanhava de fora. A ala localizada no segundo setor apresentou maior constância no canto, enquanto alas mais ao fundo demonstraram variação, algo que pode ser ajustado com maior atenção ao direcionamento do carro de som.

Léo do Cavaco manteve presença constante, conduzindo o samba com clareza de letra e boa comunicação com a escola. A ala musical teve papel fundamental na sustentação do andamento, garantindo que o canto não se perdesse mesmo nos momentos de menor resposta coletiva. Pequenos desencontros de letra foram pontuais, como a troca do verso “Sou eu, sou eu, sou eu / O grito calado na perseguição” por variações fora da composição original, algo que tende a ser corrigido com a repetição dos ensaios.
EVOLUÇÃO
O trabalho dos diretores Flávia Vieira, João Daniel e Luciano Lopes resultou em uma evolução organizada e bem distribuída ao longo da pista. Nenhuma ala apresentou embolamento, e não foram observados buracos significativos entre os setores, mantendo a leitura visual limpa e constante.

As alas desfilaram com alegria, sambando soltas em sua maioria, o que valorizou o conjunto e reforçou a identidade popular da Colorado. Houve atenção aos deslocamentos e preenchimentos naturais da pista, sem necessidade de correções bruscas ou retornos para fechamento de espaços. A escola demonstrou entendimento coletivo do ritmo do desfile, algo essencial para a construção de um conjunto competitivo.
SAMBA
O samba-enredo, de autoria de Léo do Cavaco, Thiago Meiners, Claudio Mattos, Sukata, André Valencio e Vitor Roblanco, mostrou rendimento consistente ao longo do ensaio. Trechos como “Vem ver! Vai ferver o caldeirão / Tem magia nesse chão” ganharam força na pista, especialmente quando a escola respondeu em uníssono ao comando do intérprete.
Momentos narrativos mais densos, como “Sou eu, sou eu, sou eu / O grito calado na perseguição”, exigiram maior atenção das alas para manter clareza de dicção e intensidade emocional. O carro de som teve papel decisivo para sustentar esses trechos, ajudando a escola a não perder o fio condutor da narrativa musical.

O samba se mostrou bem assimilado pela maioria dos componentes, com potencial de crescimento à medida que o canto coletivo se torne ainda mais homogêneo, especialmente nos setores finais do desfile.
OUTROS DESTAQUES
A bateria comandada por Acerola de Angola contribuiu para a dinâmica do ensaio, com paradinhas bem distribuídas, apagões que dialogaram com o samba e bossas que foram acompanhadas pelo público nas arquibancadas. A resposta da escola às intervenções rítmicas mostrou sintonia entre ritmo e canto.

“Após um longo período de preparação, a bateria conseguiu entregar no primeiro ensaio técnico um trabalho consistente, com som mais afinado e melhor executado, ainda que exista margem clara para ajustes até o desfile. O saldo foi bastante positivo, sobretudo pela organização e pelo caráter mais intimista do ensaio, com apoio fundamental de diretores e equipe. Entre os pontos a evoluir estão o canto da bateria e o andamento, especialmente em algumas bossas que podem fluir com mais naturalidade — aspectos que serão trabalhados nos próximos ensaios. Para 2026, a bateria aposta também em ousadia visual e conceitual, com uma fantasia especial alinhada ao enredo e estratégias inéditas no miolo, buscando uma batida ideal e um desempenho ainda mais impactante na avenida”, explicou mestre Acerola de Angola.

A rainha Talita Guasteli teve presença marcante, interagindo com o público, cantando o samba e realizando coreografias que acompanharam as convenções da bateria. Com figurino adequado ao ensaio, ela se mostrou integrada ao conjunto, reforçando o clima de celebração e protagonismo feminino proposto pelo enredo.










