Por Letícia Sansão e Will Ferreira

A Dom Bosco de Itaquera realizou, no último sábado, seu ensaio técnico no Anhembi e deixou sinais claros de uma leitura de enredo já bem alinhada. A escola apresentou o samba com intensidade, alas respondendo ao canto e uma comissão de frente que já aponta uma narrativa bem construída. Longe da imagem de escola apenas simpática ou inofensiva, a “Escola do Padre” vem em ascensão desde 2024, após um 2025 em que muitos a colocavam apenas na luta contra o rebaixamento. Para quem pensa que eles só rezam, a impressão deixada neste primeiro ensaio técnico é a de uma escola pronta para disputar em igualdade no Grupo de Acesso 1.

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Com o enredo “Mariama, Mãe de todas as Raças, de todas as Cores, Mãe de todos os Cantos da Terra”, assinado pelo carnavalesco Fábio Gouveia, o ensaio teve duração aproximada de 57 minutos, contados a partir do grito de guerra do intérprete Rodrigo Xará.

COMISSÃO DE FRENTE

Mesmo sem fantasia neste primeiro ensaio, a comissão de frente já apresentou uma coreografia totalmente conectada ao samba-enredo. A coreografia, assinada por Luana Poletti, dialoga diretamente com a narrativa proposta, apostando em movimentos compreensíveis para quem assiste.

Chamou atenção a marcação de um espaço central na pista, indicando o uso de um possível elemento alegórico. Em alguns momentos, as coreografias se concentravam nesse ponto demarcado, alternando ações no chão e nesse espaço, o que sugere uma coreografia em cima de um carro.

O destaque individual ficou por conta da encenação de Henri Araújo, que construiu uma movimentação potente, simulando estar acorrentado, em pedido de auxílio celestial, seguido da libertação das correntes. A leitura remete à história do escravo Zacarias, que teria fugido de uma fazenda acorrentado e teve suas correntes rompidas após pedir a intercessão de Maria. A encenação ajuda a costurar comissão, enredo e samba de forma fácil para o entendimento do público.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Leonardo Henrique e Mariana Vieira demonstrou entrosamento e domínio das movimentações obrigatórias. No entanto, o desempenho foi impactado pela condição climática que mais maltrata as escolas paulistas: o vento forte.

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Em um dos momentos, já em frente à arquibancada monumental, a bandeira acabou enrolando, consequência direta da ventania. São ajustes esperados para um primeiro ensaio técnico, especialmente em um cenário de clima instável, e que tendem a ser corrigidos nos próximos testes de pista.

HARMONIA

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

As alas se mantiveram animadas ao longo do percurso, com canto forte por parte dos componentes. O intérprete Rodrigo Xará teve papel central na condução da escola, chamando o público e sustentando a energia do samba do início ao fim; em nenhum momento o samba caiu.

Destaque para as alas posicionadas à frente e logo atrás do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. Ambas apresentaram canto forte e movimentação solta, utilizando cabos de vassoura como elemento cênico da fantasia. Em alguns momentos, os integrantes fincavam o objeto no chão, criando uma imagem que remete a um cajado.

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EVOLUÇÃO

A escola avançou de forma organizada, sem registros de grandes embolamentos ou buracos evidentes. As alas desfilaram soltas, mesmo coreografadas, apostando em movimentação mais natural. O conjunto manteve fluidez durante todo o ensaio.

SAMBA

O samba é de autoria de Gui Cruz, Darlan Alves, Portuga, Imperial, Douglas Chocolate, Marcos Mala, Luciano Rosa, Gabriel, Reinaldo Marques e Willian Tadeu, e apresentou rendimento constante. Trata-se de uma obra de fácil entendimento, com letra que conduz bem o enredo e melodia que sustenta o canto nas alas e na arquibancada.

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O refrão teve resposta imediata do público e das alas, o que elevou o volume do canto. A bossa do refrão de cabeça, com retomada marcada pelo repique, foi de arrepiar. Destaque também para o encaixe perfeito entre a ala musical e a bateria, tanto nos momentos de bossa quanto nas partes mais lineares do samba. Os arranjos estão bem ajustados, e a bateria já mostra características bem definidas.

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OUTROS DESTAQUES

A rainha de bateria, Mayra Barbosa, interagiu com o público durante todo o ensaio, cantando o samba e demonstrando intimidade com a escola, da qual é cria. A presença ajudou a manter a energia da avenida, especialmente nos momentos finais.

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No panorama geral, a Dom Bosco de Itaquera apresentou um ensaio consistente e sai com saldo positivo. A agremiação retorna ao Anhembi no próximo ensaio técnico, marcado para sexta-feira, 30 de janeiro, às 21h30.

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