Por Marielli Patrocínio e Matheus Morais
A Avenida Mirandela, em Nilópolis, foi tomada por emoção, ancestralidade e samba de alto padrão na noite do último sábado. Convidado para o Encontro de Quilombos, ao lado da Beija-Flor, o Salgueiro realizou um ensaio que superou a ideia de preparação técnica e se consolidou como um verdadeiro manifesto cultural. Com canto potente, grande presença de componentes e quesitos bem definidos, a escola apresentou o seu enredo para o Carnaval 2026, “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, do bacalhau e do pirata da perna-de-pau”, em homenagem à genialidade de Rosa Magalhães, com maestria em solo nilopolitano.
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Desde a chegada à Mirandela, o clima era de reverência e união. Para os mestres da bateria Furiosa, pisar naquele chão tem um significado que vai além do ensaio. “Chegar aqui e pisar nesse solo sagrado de Nilópolis é muito importante para a comunidade do samba. Mostra que o samba é unido, que as escolas são amigas e que a gente se fortalece nesses encontros”, destacou o mestre Gustavo, ressaltando a importância de ocupar aquele espaço simbólico.
O diretor de carnaval, Wilsinho Alves, destacou a importância histórica do encontro e o estágio atual da escola. “Esse encontro é necessário. O quilombo da Baixada encontrar a escola que deu protagonismo ao negro no carnaval é muito significativo. É ancestralidade, é samba”, afirmou.
COMISSÃO DE FRENTE
Assinada pelo coreógrafo Paulo Pinna, a comissão de frente do Salgueiro apresentou um trabalho de alto nível técnico e simbólico, alinhado com a homenagem à mente criadora de Rosa Magalhães. Composta por 20 integrantes, a comissão surgiu com figurinos de bobo da corte, figura historicamente ligada à inteligência afiada, ao humor crítico e à ironia, elementos que dialogam diretamente com a personalidade da homenageada.
O corpo dos bailarinos veio em preto e branco, criando uma base gráfica forte, enquanto as cabeças em tons de rosa, com detalhes em strass e brilho, chamaram atenção. A escolha da cor pode remeter, coincidentemente ou de forma consciente, à mente brilhante de Rosa, sua imaginação viva e inquieta. As luvas em rosa mais vívido reforçaram essa leitura, evocando simbolicamente as mãos da carnavalesca, tantas vezes “postas à massa”, conduzindo carnavais memoráveis com vivacidade, humor peculiar e aquele tom inconfundível de ironia e deboche inteligente.

A execução foi marcada por boa estrutura e dinamismo. O grupo se reorganiza constantemente ao longo do samba, apresentando diferentes desenhos coreográficos, como, por exemplo, fila em V, fila horizontal, além de saltos, giros precisos e gestos festivos com as mãos, sempre com clareza de leitura e controle de espaço. A apresentação foi concebida no modelo para cabine espelhada, novidade prevista para o Carnaval 2026, o que reforça a atualização estética do trabalho.
O grande ápice veio no trecho “Ô lê-lê, eis a flor dos amanhãs” da segunda passada do samba. Nesse momento, nove integrantes, posicionados um passo atrás, executam giros rápidos e “caem” simbolicamente sobre os figurinos, revelando o pavilhão de uma agremiação em que Rosa foi carnavalesca e fez acontecer a festa. Simultaneamente, os bailarinos da linha de frente deixam cair sobre seus figurinos, um a um, as letras que formam o nome “SALGUEIRO”. Um instante de forte carga emocional e impacto visual, que arrebatou o público e consolidou a comissão como um dos trabalhos mais impactantes do ensaio, em nível altíssimo.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com figurinos em tom de rosa elegante, Sidclei e Marcella realizaram uma apresentação impecável. A sintonia entre os dois impressiona pela precisão dos giros, leveza dos movimentos e um bailado contínuo que dava a sensação de flutuação. A porta-bandeira, em especial, parecia deslizar pela Mirandela, conduzindo o pavilhão com extrema elegância.

Os giros da porta-bandeira mantiveram regularidade de eixo, velocidade controlada e excelente distribuição do espaço, sem perda de forma ou altura da bandeira. O mestre-sala, sempre bem posicionado, protegeu o pavilhão com movimentos limpos, sem cruzamentos indevidos, mantendo distância adequada e evitando qualquer bloqueio visual.
Houve progressão clara nos giros, entradas e saídas bem resolvidas e total respeito ao regulamento do quesito, com o casal se mantendo sempre voltado um para o outro, sem quebras de foco ou desencontros. O conjunto apresentou fluidez, elegância e precisão técnica, reforçando a maturidade e a segurança de uma dupla plenamente preparada para o desfile oficial.
EVOLUÇÃO
A escola evoluiu com andamento consistente, ocupando bem todo o espaço da avenida. O que se viu foi uma comunidade que brincou do início ao fim, com todas as alas pulsando entusiasmo. Muito movimento, muita animação e um tom festivo que reforça a identidade salgueirense.

A evolução do Salgueiro foi marcada por fluidez e inteligência coletiva. A escola apresentou um andamento confortável, sem variações bruscas de ritmo, permitindo que os componentes brincassem o carnaval sem comprometer o desenho do conjunto.
O aproveitamento do espaço da Mirandela foi de alas bem distribuídas, ocupação lateral eficiente e ausência de buracos ou compressões excessivas. Não se observaram correrias nem lentidão, e a escola caminhou com naturalidade, sustentada por um samba que favorece a progressão contínua.

Mais do que organização, o que se destacou foi o espírito de festa e animação. Todas as alas, sem exceção, evoluíam com alegria genuína, muito movimento corporal e interação constante entre componentes. A sensação era de uma escola viva, pulsante, que evoluiu brincando, exatamente como pede o DNA salgueirense.
A escola chegou numerosa em Nilópolis, com cerca de duas mil pessoas, mobilizando ônibus e componentes que fizeram questão de viver o ensaio como um momento especial. “A gente levou muito a sério esse ensaio por tudo que representa a Mirandela”, destacou Wilsinho, diretor de carnaval, ressaltando o peso simbólico do local e da troca entre as comunidades.
HARMONIA
O canto foi um dos grandes destaques da noite. Forte, potente e bem distribuído, manteve coerência com o andamento do samba do início ao fim. O trecho “que tititi é esse pelo mundo a me levar, naveguei sem sair do lugar” ganhou um brilho especial, pois a comunidade cantava sorrindo, de forma leve e brincalhona, traduzindo um estado coletivo de felicidade genuína.

Segundo Wilsinho, o Salgueiro vive um momento de crescimento contínuo. “A cada semana a gente sente que foi o melhor ensaio. Isso mostra que estamos numa curva ascendente e que o samba com a comunidade vai chegar no máximo de rendimento no carnaval.”
SAMBA
O samba apresentou rendimento crescente ao longo do ensaio, acompanhando o avanço da escola pela avenida. Trata-se de uma obra de fácil assimilação, com refrões fortes e um pré-refrão que cria expectativa emocional, favorecendo o canto coletivo. O trabalho do carro de som foi fundamental para essa evolução. À medida que o Salgueiro tomava conta da Mirandela, o samba ganhava corpo, volume e emoção, criando uma espécie de espiral crescente de energia.

O grande momento técnico e sensível veio no solo de violino no pré-refrão, executado por Mateus Soares. O instrumento trouxe uma camada de sofisticação rara, com um diálogo direto com a música clássica, evocando a formação intelectual e a elegância estética de Rosa Magalhães. Foi um instante singelo, delicado e profundamente emocionante, que tocou os componentes antes da explosão popular que se seguiu.
Para o mestre Guilherme, o ensaio na Mirandela funcionou como um verdadeiro teste técnico. “Apesar de ser um evento festivo, para gente é um ensaio de verdade. É repetição, é execução. Ensaiar aqui, com cabine espelhada, ajuda muito na resistência e no ajuste fino. Fizemos mais um bom ensaio”, avaliou.

No aspecto técnico, a bateria “Furiosa” apresentou um trabalho consistente, mesmo sem estar com sua formação completa. Mestre Gustavo explicou que o grupo vive um momento decisivo na preparação para o desfile de 2026, impulsionado por uma virada recente no processo de ensaios.
“O ensaio de quinta-feira foi fundamental, foi quando tudo saiu cravado. As bossas já estão assimiladas, a galera está focada, unida e querendo buscar mais uma vez os 40 pontos para ajudar o Salgueiro a conquistar o título tão sonhado”, ressaltou.

Na Mirandela, cerca de 70% dos ritmistas estavam presentes, já que parte da bateria permaneceu na quadra para cumprir a programação do samba. Ainda assim, o desempenho manteve alto nível de entrega e precisão, sustentando o andamento da escola e dialogando com o crescimento do samba ao longo do percurso.

“Quem veio representou muito bem. A bateria está unida, comprometida e isso é essencial para o nosso trabalho e para a escola”, afirmou mestre Gustavo.
Sobre o samba, o diretor Wilsinho Alves reforçou a confiança no rendimento da obra e na resposta da comunidade ao longo da temporada. “O samba vai chegar no máximo de rendimento no carnaval. Ele é fácil, tem dois refrões fortes, um pré-refrão que funciona muito bem. Tenho certeza de que o Salgueiro vai finalizar o carnaval muito bem, e aquele arrastão promete”.
OUTROS DESTAQUES
A rainha de bateria Viviane Araujo não esteve presente à frente da bateria no Encontro de Quilombos, muito provavelmente por conta da agenda na quadra da escola no mesmo dia, mas a agremiação contou com a presença de musas como a atriz Bruna Griphao e a cantora MC Rebecca, que abrilhantaram o ensaio.










