Por Marcos Marinho e Júnior Azevedo

Com grande presença de público, o Boulevard 28 de Setembro já viveu clima de Carnaval na noite do ensaio de rua da Vila Isabel. A rua cheia, o canto forte e a resposta imediata da comunidade criaram o ambiente ideal para um treino marcado por confiança, entrega e sensação de sonho vivido coletivamente. Em uma noite de alto rendimento musical, a escola apresentou excelente performance do intérprete Tinga, canto sustentado do início ao fim e uma atuação de grande nível do casal de mestre-sala e porta-bandeira, confirmando um ensaio em que técnica e prazer de desfilar caminharam juntos. A Vila Isabel será a segunda escola a desfilar na terça-feira de Carnaval, com o enredo “Macumbebê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, assinado pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, com pesquisa do enredista Vinícius Natal.

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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

A apresentação do casal Dandara Ventapane e Raphael Rodrigues sintetizou o estado de confiança que marcou o ensaio da Vila Isabel. Há, antes de mais nada, uma dimensão de beleza que se impõe sem esforço: Dandara vestia azul e branco, cores que prolongam o próprio pavilhão em seu corpo; Raphael, em terno branco com delicados detalhes em azul, constrói uma presença elegante. Juntos, defendem o pavilhão da Vila Isabel com evidente conforto cênico, sem rigidez, sem tensão, como quem sabe exatamente o lugar que ocupa na narrativa do desfile.

A observação a partir da simulação da segunda cabine de jurados revelou uma construção coreográfica particularmente inteligente já na entrada do módulo. Logo na cabeça do samba, no verso “sonhei macumbembê”, Dandara realizou bandeiradas curtas e precisas, que funcionam quase como um marcador temporal. O gesto não é à toa: através do pavilhão, a porta-bandeira parece dobrar o tempo, instaurando desde o início do ensaio a dimensão onírica do enredo, o sonho de um sambista que sonhou a África sendo agora sonhado pela Vila Isabel. A bandeirada inaugura um estado de sonho, tanto como evocação do homenageado e de seu legado quanto como projeção simbólica da busca pela quarta estrela do Povo do Samba.

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Fotos: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Ao longo da apresentação, o casal executou os giros com convicção. Dandara se destaca pelos rodopios graciosos e por uma elegância que nunca resvala no excesso. Tudo nela parece estar na medida exata: o sorriso, a posição das mãos, a forma de segurar o mastro, o desenho dos giros. Trata-se de uma elegância natural, sustentada por firmeza e controle técnico, que valoriza o pavilhão sem jamais ofuscá-lo.

Raphael, por sua vez, apresenta um riscado firme e seguro, marcado por presença e abertura de espaço. Seu bailado é elegante, mas sobretudo afirmativo: há cortejo, proteção e condução clara da cena, sempre em diálogo atento com a porta-bandeira. É um mestre-sala que organiza o espaço para que a bandeira aconteça em plenitude.

No refrão principal, quando o samba reverencia Oxum, Dandara assume o protagonismo, incorporando gestos delicados que dialogam com a simbologia da orixá. Já na menção a Xangô, é Raphael quem se projeta, com pequenos gestos dançantes que evocam força e autoridade, sem perder a leveza do conjunto. A alternância de protagonismos é fluida e bem resolvida, reforçando a leitura dramatúrgica da coreografia.

O ponto mais alto da apresentação surge no trecho em que o samba diz “pintar a Unidos de Vila Isabel”. Ali, os dois simulam o ato de pintar o próprio pavilhão que Dandara carrega. O gesto ganha densidade simbólica ao funcionar como homenagem direta a Heitor dos Prazeres.

Com segurança técnica, inteligência coreográfica e forte leitura simbólica do enredo, Dandara e Raphael apresentaram um ensaio de altíssimo nível. É um casal que reúne beleza, firmeza e sentido, com todos os elementos para disputar os 40 pontos com plena categoria.

SAMBA E HARMONIA

Se a energia de confiança que atravessou o ensaio da Vila Isabel precisava de um ponto de ignição, ele estava claramente no trabalho de Tinga à frente do carro de som. O esquenta foi sensacional e cumpriu um papel decisivo na atmosfera da noite. Um dos momentos mais fortes aconteceu quando o intérprete cantou “Angola”: a vibração foi imediata e transversal, alcançando não apenas os componentes da escola, mas também o público que acompanhava o ensaio e cantou junto, em alto volume e resposta espontânea.

Essa capacidade de mobilização não se restringe ao esquenta. Tinga leva a mesma categoria, a mesma animação e o mesmo domínio vocal para a defesa do samba-enredo de 2026, afirmando-se com clareza como um intérprete de primeira prateleira do Carnaval carioca. Sua condução imprime gás constante à obra e sustenta a escola do início ao fim, mantendo o canto vivo, encorpado e comunicativo.

O samba é integralmente cantado pela escola. Não se trata apenas de explosões pontuais nos refrões, mas de um canto que percorre toda a letra, com entrega coletiva. O refrão principal, naturalmente, concentra maior impacto e provoca um canto mais devocional, mas o que chama atenção é a manutenção do volume e da presença vocal ao longo de todo o percurso. A Vila Isabel canta muito e canta a letra inteira.

Do ponto de vista da harmonia, há um ponto de atenção a ser observado. O samba começa em rendimento muito alto e, à medida que o ensaio avança, especialmente após cerca de 20 a 30 minutos de desfile, percebe-se uma leve queda na intensidade do canto. Ainda assim, mesmo nesse momento, a comunidade segue cantando de forma consistente e retoma um rendimento mais forte na parte final do ensaio, em patamar próximo ao observado no início.

Esse movimento não compromete a leitura geral, mas indica um aspecto a ser lapidado na reta final da temporada: a manutenção do pico de energia vocal em toda a extensão do desfile. Em contrapartida, é significativo notar como o público acompanha a escola. Muitas pessoas que estavam ali como espectadoras cantavam o samba do início ao fim, reforçando a sensação de pertencimento e ampliando o campo sonoro do ensaio.

No conjunto, samba e harmonia se apresentaram como um dos quesitos mais fortes da escola. Há canto, há adesão, há convicção. A Vila Isabel não ensaia um samba que ainda precisa ser aprendido; ensaia uma obra que já foi incorporada, dentro e fora da escola.

Após o ensaio, o intérprete Tinga destacou o clima de satisfação e confiança vivido pela escola na noite do Boulevard 28 de Setembro. Para ele, o rendimento apresentado já é motivo de celebração, independentemente do que ainda virá pela frente.

“Foi maravilhoso. Independente do que vai acontecer, a gente já está feliz demais. A escola está feliz, a comunidade está feliz. A gente vai em busca do nosso sonho com toda humildade. A luta vai continuar na avenida, com alegria e com força. Se Deus quiser, a gente vai em busca desse título tão sonhado pela nossa comunidade”, declarou.

Questionado sobre eventuais ajustes no samba até o desfile oficial, Tinga ressaltou que o trabalho segue em processo contínuo de teste e lapidação, algo natural na preparação para a Sapucaí:

“Até lá a gente vai ajustando tudo. Hoje mesmo já fizemos algumas coisas diferentes para testar. É sempre assim: a gente testa, vê o que dá certo, o que não dá a gente tira. Até o dia do desfile, a ideia é chegar o mais ajustado possível para fazer o nosso melhor”.

Sobre a repercussão do samba de 2026, frequentemente citado como um dos mais fortes da temporada, o intérprete destacou a resposta da comunidade e do público presente no ensaio.

“A expectativa é das melhores. A 28 de Setembro estava lotada, todo mundo cantando o samba. E o mais bonito é que não é só o povo da Vila Isabel cantando. É gente de outras escolas, gente que gosta do samba da Vila. Isso dá uma alegria muito grande. Se Deus quiser, a gente vai fazer um grande desfile”, disse, confiante.

EVOLUÇÃO

A evolução da Vila Isabel foi um dos retratos mais claros do estado de confiança que marcou o ensaio. A paixão do povo do samba pela obra de 2026 se traduz diretamente na forma como a escola avança pela pista: uma evolução precisa, tranquila e, sobretudo, espontânea. O canto puxa o corpo, e o corpo responde com naturalidade. Nada parece forçado. A escola canta enquanto anda e anda enquanto canta, com fluidez contínua.

Há um componente de despojamento muito significativo nessa evolução. Os componentes atravessam a pista com alegria, leveza e senso de brincadeira, em um registro que valoriza o prazer de desfilar. Esse estar à vontade não significa desorganização; ao contrário, revela uma escola segura, que confia no próprio samba e no próprio chão. A evolução flui sem sobressaltos, com espaçamento bem resolvido e deslocamentos orgânicos.

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O conjunto cresce ao longo do ensaio de maneira progressiva e consistente. A escola ganha corpo, presença e densidade, sustentando o rendimento do início ao fim. É um trabalho que evidencia a atuação afinada da direção de Carnaval e da harmonia, que conseguem transformar a paixão pela obra em avanço ordenado, sem engessamento.

O principal ponto de atenção da noite esteve fora do corpo regular da escola. O número excessivo de convidados à frente da bateria e nas proximidades do carro de som interferiu na dinâmica do ensaio. Em determinados momentos, essa presença ocupou espaço de forma inadequada, dificultando a comunicação entre carro de som e bateria e quebrando o ritmo natural da escola. Além disso, enquanto o componente canta com entrega, parte desses convidados nem sempre acompanha o samba, criando um ruído desnecessário no conjunto.

É um ajuste simples, mas importante. A Vila Isabel tem uma evolução que funciona justamente porque é orgânica, contínua e coletiva. Qualquer elemento que fragmente esse fluxo compromete, ainda que pontualmente, a força de uma escola que mostrou, na rua, estar pronta para brincar, cantar e avançar com precisão.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Swingueira de Noel”, comandada pelo mestre Macaco Branco, apresentou um rendimento de alto nível e foi um dos grandes pilares do ensaio da Vila Isabel. Em diálogo direto e afinado com a ala musical, a bateria demonstrou domínio absoluto do samba de 2026, executando com precisão as bossas pensadas para a obra e sustentando, com segurança, a pulsação da escola ao longo de todo o percurso.

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Segundo o mestre, o ensaio confirmou o excelente momento vivido pela bateria da Vila Isabel. “Foi um ensaio maravilhoso. A bateria está muito apaixonada pelo samba, muito empolgada e feliz de tocar essa obra. É gratificante demais falar de Heitor dos Prazeres, um ícone que ajudou a construir a grandeza do samba e do Carnaval. A bateria está afiada, em sintonia com o carro de som, com o Tinga e com a direção musical. Agora é seguir ensaiando, deixar o tempo passar e chegar ainda mais forte na avenida. Se o Carnaval fosse hoje, a gente estaria representando muito bem a Vila Isabel”, afirmou Macaco Branco.

Além do desempenho musical, a bateria contou com a presença da rainha Sabrina Sato, que esteve à frente dos ritmistas durante o ensaio. Sabrina desfilou com desenvoltura, interagiu com o público e acompanhou a bateria de forma integrada, sem interferir na dinâmica do conjunto. Sua presença foi recebida com entusiasmo pela comunidade e por quem acompanhava o ensaio na rua, somando energia ao ambiente já aquecido da noite.