Por Luiz Gustavo e Júnior Azevedo
Um samba que evoca o fundamento da escola, pulsa o chão em absoluto e fortalece uma comunidade já efervescente. Com essa pedra bruta em mãos, a Estácio realizou, na última segunda-feira, mais um ensaio de rua visando ao desfile oficial da Série Ouro e confirmou toda a vivacidade da obra que está na prateleira de cima em 2026. O ensaio foi calcado na potência deste samba, e a escola obteve um rendimento muito consistente, com canto e evolução quentes, uma dupla de intérpretes que conduz a obra com categoria e um casal que vive ótimo momento. Nesse embalo, a vermelho e branco irá buscar o acesso ao Grupo Especial, mostrando o enredo “Tata Tancredo – O papa negro no terreiro do Estácio”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Paulo.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Feliciano Junior e Raphaela Caboclo formam um casal muito harmonioso e vivem um excelente momento, explicitado em um belo desempenho no ensaio de rua. Uma apresentação graciosa de ambos, com elegância nos gestos e um bailado preciso. Raphaela se mostrou muito precisa nos giros, sempre segura e usando bem o espaço da pista, além de elegante.

Feliciano foi feliz na condução de sua porta-bandeira e mostrou boa técnica em sua dança, como nos giros em torno do seu próprio eixo. O casal tem ótima conexão e apresentou uma série com passos mais soltos, com algumas coreografias pontuais baseadas na letra do samba, como um gesto de referência aos orixás no trecho “Kolofé, saravá Omolokô”. Ótima abertura da Estácio.
EVOLUÇÃO

O chão de São Carlos já parte de uma força permanentemente presente em seus componentes, favorecendo a lapidação da técnica de desfile. E, com um samba de tamanha qualidade, a evolução se torna ainda mais enérgica, como se viu neste ensaio. Os desfilantes souberam aproveitar a pista para movimentação por todo o espaço, usando os braços, brincando, sem arrastamento, em uma evolução forte, como a tradição da Estácio pede e como esse samba pode proporcionar. A escola simulou os espaços que serão ocupados pelas alegorias por meio de cordas, separando os componentes, com musas à frente. Agradou bastante a espontaneidade presente no desfilar da comunidade, mesmo com o forte calor, honrando os fundamentos da agremiação.

HARMONIA E SAMBA
As alas que vieram atrás da bateria merecem um ponto de atenção, pelo canto mais irregular que apresentaram durante o ensaio. Alguns componentes só entoaram o refrão de cabeça, não acompanhando o restante do samba, só crescendo o canto conforme passaram pela bateria. Retrato diferente do que se viu no restante da escola, que cantou com muita força, esquentando a apresentação da Estácio, sem deixar o ritmo cair mesmo longe dos refrãos e causando vários ápices de desempenho, como no trecho “coisa de acender, pemba de riscar, folha e feitiço pra cura…”, que era entregue com força antes do refrão de cabeça.

Essa força foi intensificada pelo belo e visceral samba da agremiação, que não cai em momento algum. A estrutura melódica do samba o mantém sempre envolvente, como na sequência de dois refrãos no meio da obra, e o refrão de cabeça é de uma potência impressionante, mantendo-se quente até a última passada no ensaio, que terminou com uma apoteose da bateria comandada por mestre Chuvisco, no seu andamento característico, que casa muito bem com a energia que a obra transmite. Uma grande apresentação de um samba sedutor.
Edvaldo Fonseca, diretor de carnaval da Estácio, falou sobre o desempenho do samba e o andamento do trabalho.
“Eu estou vendo o funcionamento do nosso samba de forma muito positiva. A gente vem num processo crescente em que, a cada semana, conseguimos subir um degrau; é exatamente isso que eu quero. Eu não quero estar pronto hoje, quero estar pronto daqui a 32 dias, que é o dia do nosso desfile. Esse samba realmente a comunidade trouxe pra si; quando a comunidade compra, abraça e diz que é dela, aí vamos embora. Se a gente chega ao máximo hoje, acomoda; tem que crescer passo a passo pra, no dia, sim, chegar ao 10. Em termos de barracão, estamos num bom momento: na régua de 0 a 10, estamos com 8,5, o que é muito bom. A gente já está com a ferragem toda entregue, madeira entregue; estamos no trabalho de finalização da decoração. Faltando um mês, é um andamento que me agrada”, afirmou.
OUTROS DESTAQUES
A rainha de bateria Vivi Winkler mostrou muita desenvoltura e simpatia à frente da bateria “Medalha de Ouro”, com várias coreografias junto com a bateria.

“Está chegando a hora. A gente tem que aproveitar esse tempo que ainda falta para poder acabar de ajustar tudo. Hoje a gente passou uma bossa, mais uma bossa nova aqui. Vamos aproveitar esses 30 dias para massificar bastante. O foco, sem dúvida, agora é nela. Tem muita informação ali de caixa, muito contratempo de caixa com terceira, e muita nota de primeira e segunda também. É uma bossa muito bonita, muito bonita mesmo. No finalzinho tem um Olodum que a gente faz, depois sai na pressão, na precisão. A gente não pode desperdiçar isso, não”, disse mestre Chuvisco.

A comissão de frente não se apresentou, deixando a cabeça da escola para o casal de mestre-sala e porta-bandeira.









