Por Marcos Marinho e Gabriel Radicetti

Em noite de calor intenso e grande presença de público, o Paraíso do Tuiuti realizou, na última segunda-feira, em São Cristóvão, um ensaio de rua arrebatador, marcado pela resposta imediata da comunidade e pela criação de sucessivos momentos de clímax ao longo da pista. Com canto crescente desde a abertura, comissão de frente comunicando o enredo com clareza, casal de mestre-sala e porta-bandeira em apresentação segura e entrosada e uma bateria capaz de suspender a avenida, a escola transformou a técnica em experiência coletiva, mobilizando público e componentes. Durante o ensaio, o presidente Renato Thor anunciou que todas as fantasias para o Carnaval 2026 já estão prontas. O Tuiuti será a terceira escola a desfilar na terça-feira de Carnaval e levará para a Sapucaí o enredo “Ifá Lucumí”, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos.

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COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente do Paraíso do Tuiuti, coreografada por David Lima, apresentou uma leitura clara e bem estruturada do enredo ao traduzir em cena o sistema oracular de Ifá. A narrativa se estabelece desde os primeiros movimentos, organizando os signos do oráculo e conduzindo o público pela cosmologia lucumí com clareza e beleza cênica.

A dramaturgia se constrói a partir da alternância entre Eleguá, guardião dos caminhos e do axé, responsável pela comunicação entre mundo material e mundo espiritual, e o Babalaô, sacerdote responsável pela interpretação dos Odus (respostas do oráculo). O jogo cênico dialoga com o samba: quando o Babalaô é exaltado, ele ocupa o centro da roda, aspergindo água e ervas sobre a comissão; quando Eleguá avança, vestido de vermelho e preto, com uma foice nas mãos, a energia se transforma, garantindo fluidez e progressão narrativa à encenação.

Com dança vigorosa, canto presente e movimentos de matriz afro, a comissão sustenta o caráter ritual da coreografia. Em sua estreia no Tuiuti, David Lima assina uma comissão que comunica de imediato o enredo e se afirma como um dos pontos fortes do desfile.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Vinícius Antunes e Rebeca Andrade se apresentaram com figurino leve e funcional, adequado ao ensaio de rua e ao forte calor da noite. Rebeca vestia amarelo e Vinícius, azul, compondo as cores da escola em trajes que valorizaram a dança do casal. A escolha, sóbria e bem resolvida, permitiu que o foco permanecesse no bailado do casal, ponto positivo para um ensaio que privilegia fluidez e comunicação direta com o público.

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Estreando juntos no Paraíso do Tuiuti, o casal já demonstra um entrosamento amadurecido, construído com inteligência ao longo da temporada. Rebeca, cria da comunidade, dança com segurança e elegância com o pavilhão, enquanto Vinícius, vindo da Unidos de Padre Miguel, se integra com naturalidade à dinâmica da escola. A apresentação revela uma leitura cênica afinada com o samba, explorando seus momentos-chave sem recorrer a excessos coreográficos.

Um dos pontos altos aconteceu no pré-refrão “Babá Moforibalé”, quando Rebeca executa giros que evocam um gesto de reverência ao saber ancestral do enredo, articulando dança, música e fé. Vinícius se destaca pelo vigor físico, pela confiança no riscado e pela espontaneidade com que conduz a apresentação, demonstrando pleno domínio técnico e corporal. O Tuiuti acerta ao apostar na combinação entre uma porta-bandeira da casa e um mestre-sala em plena ascensão, formando um casal que chega com raça para defender os 40 pontos do quesito.

SAMBA E HARMONIA

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Pixulé abriu o ensaio cantando uma passada inteira do samba acompanhado apenas pelas cordas da escola, num gesto que funcionou como chamado direto à comunidade. Ao cantar palavra por palavra, com precisão e intenção, o intérprete estabeleceu um pacto de escuta antes da entrada da bateria, preparando o terreno para o canto coletivo que viria a seguir. A opção deu protagonismo à letra e reforçou a relação entre intérprete e comunidade como eixo central da harmonia.

Com a entrada da bateria de mestre Marcão, o canto se sustenta e cresce, especialmente no refrão principal, entoado com força e segurança. Chama atenção o fato de que, justamente nos trechos em iorubá, antes apontados por críticos como possíveis obstáculos ao canto, a comunidade responde com firmeza e clareza. O ensaio confirma que essas palavras não são entraves, mas parte orgânica do enredo, plenamente assimiladas pelo corpo da escola.

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Outro momento bem cantado é o verso “Derruba os muros quem sabe asfaltar / Caminhos abertos na mão de Ifá”, síntese musical do trabalho desenvolvido pela harmonia. O desempenho é fruto do entrosamento entre Pixulé, mestre Marcão e a comunidade, que demonstra domínio crescente da obra. A cada ensaio, o samba do Tuiuti reafirma por que vem sendo apontado como um dos melhores da safra de 2026.

EVOLUÇÃO

A evolução do Paraíso do Tuiuti começa de forma muito correta. Da comissão de frente às primeiras alas, passando pelo casal, a escola avança com tranquilidade, organização e domínio técnico do espaço, transmitindo a sensação de uma progressão controlada e bem ensaiada. O deslocamento inicial é fluido, com boa leitura entre os setores e resposta consistente dos componentes.

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Fotos: Marcos Marinho e Gabriel Radicetti/CARNAVALESCO

Os principais gargalos surgem na altura do segundo módulo de jurados, entre a ala de passistas, o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira e a bateria. Abre-se um primeiro buraco entre os passistas e o casal, seguido de nova retenção entre o casal e a bateria, influenciada principalmente pela esperada apresentação da rainha Mayara Lima durante a bossa do trecho “Babá Moforibalé”.

Em outro ponto, já na altura da loja Caçula, o público chega a avançar sobre a pista para registrar o momento, evidenciando o forte apelo da bossa criada por mestre Marcão e pelo diretor musical Douglas Jorge e da coreografia de Mayara Lima, o que impacta momentaneamente a evolução da escola.

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Mesmo com esses pontos de atenção, compreensíveis em um ensaio de rua com grande público, a escola se reorganizou rapidamente. A fluidez é retomada quando a bateria entra no recuo, e a evolução volta a se apresentar de maneira ordenada e estável na parte final do ensaio. Vale destacar o bom desempenho das alas, que atravessam a pista com organicidade e integração ao conjunto. São ajustes pontuais em um ensaio que, no geral, confirma o crescimento do Tuiuti para evoluir com segurança no desfile oficial.

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Para o diretor de Carnaval do Paraíso do Tuiuti, Leandro Azevedo, o ensaio de rua realizado em São Cristóvão sintetiza o atual momento da escola às vésperas do Carnaval. Segundo ele, a resposta da comunidade, a energia da pista e o grau de maturidade apresentados confirmam uma agremiação em crescimento contínuo. “É um ensaio com a cara do Paraíso do Tuiuti. Energia pra cima, escola leve, escola madura, comunidade cantando como ninguém”, disse.

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Leandro destacou que o ambiente vivido na rua vai além do rendimento técnico e passa, sobretudo, pelo estado emocional da escola, que ele considera decisivo para o desempenho no desfile. “A comunidade está feliz, a escola está muito madura. Cada segunda-feira que passa, a gente vê que somos capacitados e estamos nos capacitando ainda mais para tentar voos melhores no Carnaval”, declarou.

OUTROS DESTAQUES

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Mestre Marcão é referência quando o assunto é ritmo, e a bateria “SuperSom” confirmou isso a cada ensaio de rua do Paraíso do Tuiuti. O comando seguro, o swing constante e a ousadia nas escolhas fizeram da bateria um dos grandes pilares do desfile. Há uma sintonia evidente com o carro de som e com o intérprete Pixulé, o que potencializa os momentos de maior impacto musical do ensaio.

Entre esses momentos, a bossa executada no pré-refrão se impõe como um dos pontos mais aguardados da noite. Os tambores avançam, as congas se deslocam e rodeiam a rainha de bateria Mayara Lima, criando uma cena de forte impacto visual e rítmico. A interação entre bateria, ala musical e rainha transforma esse trecho em um verdadeiro espetáculo dentro do ensaio, daqueles que encantam o público.

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“Cada ensaio é um ensaio. A cada ensaio, a gente vai aprimorando cada vez mais alguns parâmetros, dando alguns ajustes. É só pegar a rapaziada e botar na cabeça deles que a bateria, a escola, necessita deles para conduzir o ritmo. Quando chega o nosso momento, a gente tem que dar um show. Temos que fazer o que ensaiamos. A cada semana que passa, as pessoas estão entendendo mais a filosofia do trabalho que está sendo feito junto com a minha equipe, junto com a rapaziada da bateria. Sexta-feira agora, dia 16, a gente estará lá no Setor 11, só a bateria; não tem carro de som. Lá é o local de jogo”, disse mestre Marcão ao CARNAVALESCO.

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À frente da “SuperSom”, Mayara Lima reafirma o brilho de ser uma das rainhas de comunidade mais queridas. O público responde com entusiasmo, registra sua dança e interage de forma espontânea, especialmente as crianças da comunidade, que ao final se aproximam para aprender passos da coreografia.

O ensaio contou ainda com a presença do professor, filósofo e compositor Nei Lopes, autor do livro “Ifá Lucumi: o resgate da tradição”, obra fundamental que inspira diretamente o enredo do Tuiuti. Chamado ao microfone no início do ensaio, Nei afirmou que o axé está com a escola e desejou que o Tuiuti alcance a melhor colocação no Carnaval de 2026.