Por Marcos Marinho e Mariana Santos
A Estação Primeira de Mangueira realizou, na noite do último domingo, seu ensaio de rua na Visconde de Niterói. Embalada por um samba de forte carga simbólica e por uma resposta musical de alto nível, a Verde e Rosa apresentou um ensaio marcado pela excelência da sua ala musical, que sustentou a obra com pulsação, precisão e capacidade de provocar espontaneidade no corpo coletivo da escola. Bateria, intérprete, cantores de apoio e cordas conduziram o samba com categoria, garantindo fluidez à evolução e criando os momentos de maior impacto do treino, enquanto a comissão de frente e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira confirmaram alto rendimento técnico e forte identificação com a comunidade. Quarta escola a desfilar no domingo de carnaval, fechando o primeiro dia do Grupo Especial, a Mangueira levará para a Sapucaí o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, assinado pelo carnavalesco Sidney França.
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COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, coreografada por Karina Dias e Lucas Maciel, apresentou uma construção coreográfica dinâmica, pensada para dialogar com toda a extensão da pista. O grupo é formado por oito bailarinos em ação direta, enquanto outros seis permanecem na retaguarda, prontos para substituições ao longo da apresentação, recurso que garante fôlego, continuidade e precisão na execução.
Acompanhada a partir da cabine espelhada, a comissão revelou um desenho espacial cuidadosamente elaborado. Movimentos espelhados, formações em fila para os dois lados da pista e deslocamentos circulares asseguram que todos os bailarinos se apresentem de maneira equilibrada para as duas cabines, sem privilegiar um único ponto de vista. A coreografia se constrói em constante movimento, sem pausas longas, mantendo a atenção do público do início ao fim.

Um dos momentos mais marcantes acontece no trecho do samba que evoca “salve o curandeiro”. Nesse instante, surge o pivô central, posicionado no meio de uma roda formada pelos demais bailarinos. Enquanto o pivô gira no centro, o conjunto ao redor também gira, criando uma imagem de forte impacto visual, ao mesmo tempo ritualística e precisa. É um momento de grande beleza cênica, em que música e movimento se encontram com clareza.
Com vigor físico evidente, a comissão canta forte e desenha no corpo as imagens propostas pelo samba. Sem recorrer a excessos, a apresentação se sustenta na energia, na ocupação inteligente do espaço e na leitura direta da obra. Trata-se de um excelente momento do ensaio, que reforça a potência performativa da Mangueira já na abertura do desfile.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
É impossível acompanhar o ensaio da Mangueira sem perceber a relação de afeto e reconhecimento que a comunidade estabelece com seu primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. A cada início de apresentação, sobretudo nas simulações de cabine, o entorno reage: aplausos, gritos de incentivo e o coro de “vai, furacão” anunciam a passagem de um casal que, por onde dança, parece fazer vento.
Matheus Olivério dança com uma espontaneidade contagiante. Seu bailado não carrega a rigidez de quem apenas executa uma coreografia; ao contrário, há tranquilidade, domínio e uma sensação constante de naturalidade. A dança parece fluir sem esforço aparente, resultado de entrosamento profundo e de uma leitura madura do cortejo do samba, que ele conduz de forma viva, presente e comunicativa.
Ao seu lado, Cintya Santos se destaca pela precisão e pela força. Seus giros são rápidos, bem definidos, com finalizações seguras. Embora rápido, o giro da porta-bandeira não evoca uma sensação de leveza, mas de presença capaz de abrir espaço e fazer mover o entorno.
Esse aspecto se evidencia de maneira especial na bandeirada final durante a simulação de cabine. O gesto é executado com extrema precisão e potência, afirmando não apenas a qualidade da dança, mas o próprio pavilhão. Há força, clareza e solenidade no modo como a bandeira se apresenta.
A resposta da comunidade confirma o impacto do casal. Não se trata apenas de execução correta de um quesito, mas de uma performance que mobiliza afetos, cria identificação e reafirma o casal, ao lado da ala musical da escola, como quesito de excelência da Mangueira.
“O ensaio da Mangueira é maravilhoso, a energia da comunidade. E ver que o pessoal abraçou o samba, que estão cantando o samba, que é lindíssimo, uma poesia só. Cada ensaio é um aprendizado, e nosso samba está crescendo cada vez mais, a comunidade está descendo o morro e está cantando. Esse ensaio hoje foi perfeito. Na dança, sempre estamos aprimorando, acrescentando. E cada vez que dançamos, acrescentamos um detalhe. A coreografia está montada, está linda, e esperamos que vocês gostem”, declarou a porta-bandeira.
SAMBA E HARMONIA
Se há um eixo que estrutura o ensaio da Estação Primeira de Mangueira, ele passa, sem dúvida, pelo excelente trabalho de sua ala musical. Bateria, intérprete, cantores de apoio e equipe de cordas sustentam o samba com categoria e constroem, na rua, algo que escapa à mera execução técnica: há ali uma dimensão de magia que se manifesta na espontaneidade do mangueirense ao cantar, dançar, interagir com a obra e evoluir na pista.
A bateria imprime uma pegada que envolve e encanta o corpo do componente. O ritmo convida à dança, ao balanço compartilhado, às pequenas coreografias que surgem naturalmente em trechos específicos do samba. Essa resposta orgânica da nação mangueirense é um mérito direto da condução da ala musical: o samba “vai pra frente” porque a música impulsiona, provoca e sustenta esse movimento.

À frente do carro de som, Dowglas Diniz conduziu a obra com segurança e leitura precisa, destacando-se pela forma clara e firme com que apresenta a melodia do canto. Seu trabalho se soma ao dos cantores de apoio, que executam harmonias vocais refinadas e efeitos sonoros, como o “sacaca” sussurrado, criando camadas e texturas para a obra. O samba ganha profundidade, densidade e variação, mantendo-se vivo e pulsante mesmo nos momentos em que o canto da comunidade ainda não atinge sua plenitude.
Os trechos que funcionam melhor são justamente aqueles em que canto e corpo caminham juntos. No trecho “Salve o curandeiro, doutor da floresta / Preto Velho, saravá”, a escola canta mais, deixa vir gestos espontâneos, desenha a letra no corpo. O refrão principal, que evoca Benedita de Oliveira, mais conhecida como Tia Fé ou, na obra de 2026, “mãe do morro de Mangueira”, é outro ponto consistente da harmonia da escola. A comunidade está com ele na ponta da língua, canta com força e vibra intensamente com o corpo.

O ensaio também evidenciou que o samba pede maior incorporação coletiva em outros trechos. Não por acaso, a própria letra fala de uma “Mangueira quase centenária” como uma “nação incorporada”. Há, portanto, um trabalho de incorporação em curso, e a ala musical é peça central nesse processo. Isso ficou claro nos dois “paradões” realizados: o canto cresce, evolui, mas ainda pode alcançar patamares mais altos para a excelência no quesito harmonia.
A sensação é a de um samba que não exige apenas voz, mas corpo. Um samba que precisa ser mais incorporado pela comunidade para que suas imagens se projetem com força no canto. Nesse cenário, a ala musical cumpre papel decisivo: é ela quem sustenta a obra, cria as condições para o amadurecimento do canto e provoca a espontaneidade mangueirense. A magia, hoje, nasce principalmente da música. O desafio daqui para frente é fazer com que essa magia se espalhe de forma ainda mais orgânica pelo canto da escola.
EVOLUÇÃO
A evolução da Estação Primeira de Mangueira no ensaio apresentou uma dinâmica claramente demarcada em dois momentos distintos, mas articulados. No primeiro, até a chegada da bateria ao recuo, a escola avançou pela Visconde de Niterói com mais rapidez, ocupando a pista de maneira orgânica, sem atropelos, como quem ganha espaço com naturalidade.

Após a entrada da bateria no recuo, o ritmo da passagem muda. A Mangueira segue mais cadenciada em sua reta final, desacelerando o deslocamento sem perder regularidade. São dois tempos diferentes de evolução, mas que não se anulam nem se contradizem. Ao contrário: constroem um desenho coerente, em que a escola administra o espaço e o tempo com inteligência, mantendo unidade mesmo diante da mudança de andamento na evolução.
O componente avança a avenida como quem caminha com passos tranquilos rumo ao seu objetivo. Não há tensão visível entre as alas, nem esforço para preencher a pista. A evolução flui, sustentada por uma sensação de entendimento coletivo do ritmo do desfile. É um quesito em trabalho intenso pela escola, e isso já se reflete na rua.
A escola não corre, não trava e não se perde. Avança. E avança com consciência do próprio ritmo.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Tem Que Respeitar Meu Tamborim”, comandada pelos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto, foi um dos grandes destaques da noite. Logo no início do ensaio, a apresentação trouxe uma abertura marcada pelo uso dos tambores, em clara referência ao enredo, criando um impacto sonoro forte e simbólico. É um começo bonito, que já estabelece o tom ritualístico da obra.
Ao longo do percurso, a bateria confirmou sua excelência com bossas executadas com precisão e clareza. No trecho que reverencia o mestre Sacaca, a bossa apresentada se impõe como um dos momentos mais fortes do ensaio, arrancando respostas imediatas da escola e do público. O trabalho da dupla de mestres da verde-e-rosa é um dos pontos-chave para o alto nível musical que a Mangueira vem apresentando.

Outro destaque da noite foi a rainha de bateria Evelyn Bastos, que esbanjou samba no pé e presença ao longo de todo o ensaio. Já no fim do ensaio, protagonizou um momento belíssimo com as crianças da comunidade, ensinando passos de sua coreografia e dividindo o samba de forma generosa.
Mais do que um gesto espontâneo, a cena sintetiza o papel de Evelyn como rainha de comunidade. Ao compartilhar o samba no pé com as meninas do Morro de Mangueira, ela reafirma o caráter formativo e afetivo das escolas de samba, oferecendo um exemplo que ultrapassa a performance e se inscreve no cotidiano da escola.
OPINIÃO DO DIRETOR
Para o diretor de carnaval da Estação Primeira de Mangueira, Dudu Azevedo, o desempenho do samba no ensaio confirma o bom momento vivido pela escola, especialmente no que diz respeito à condução musical e à resposta da comunidade. Segundo ele, o trabalho integrado entre bateria, direção musical e carro de som tem sido determinante para a fluidez do canto e da evolução. “A gente vem ensaiando muito e extraindo da nossa musicalidade, do que traz a bateria, da direção musical e do Douglas, uma performance muito boa para a comunidade. O canto cresce e a escola evolui de forma espontânea, se divertindo com o samba”, avaliou.
Na leitura do dirigente, o samba funciona justamente por permitir essa relação orgânica entre música, corpo e interpretação. “É claro que tem hora de marcação, de mão, de giro, porque o samba pede isso. A gente canta e acaba interpretando o que está sendo cantado. Mas o mais importante é ver a escola se divertindo o tempo todo, evoluindo com naturalidade”, explicou. Para Dudu, o momento atual é positivo, mas faz parte de um processo que ainda está em construção. “A gente está muito feliz com o ponto em que estamos hoje, mas é ensaio. A gente está preparando a escola para um grande desfile no dia 15 de fevereiro”, ponderou.

O diretor também destacou a importância da Visconde de Niterói como espaço estratégico de preparação, por oferecer condições semelhantes às da Sapucaí. “Aqui a gente tem o tamanho da avenida, as cabines de julgamento, as marcações iguais às da Sapucaí. Isso traz solidez para a evolução e tempo de trabalho para chegar bem no ensaio técnico”, afirmou, ressaltando que o ensaio técnico trará um novo patamar para a musicalidade da escola, com som distribuído por toda a pista.
Ao comentar especificamente sobre o que ainda pode ser lapidado, Dudu apontou a incorporação coletiva como um dos principais focos do trabalho. “A gente sempre quer lapidar a espontaneidade do componente. Tecnicamente, hoje o samba tem letra, melodia e funcionalidade. Ele funciona na rua, funciona na evolução. O que a gente segue trabalhando é essa fluência do desfile, esse ponto mais subjetivo da espontaneidade”, disse.

Segundo ele, esse ajuste vem sendo feito de forma cuidadosa e contínua. “Toda quinta-feira a gente faz ensaios com setores da escola. É quando a gente conversa olho no olho com o componente, explica o quanto a Mangueira quer desfilar, quer passar alegria, cantar e encantar. Não é formar pessoas uma atrás da outra e desfilar. É viver o samba”, concluiu.









