Por Gustavo Mattos e Will Ferreira

A Unidos de São Lucas apresentou no ensaio técnico no Anhembi um conjunto forte de rendimento musical, evolução segura e uma bateria consistente. Com destaque para a harmonia, a consciência no deslocamento das alas e a leitura clara do enredo de matriz africana, a escola demonstrou amadurecimento coletivo e avanço significativo na preparação para o Carnaval 2026.

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COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente da Unidos de São Lucas, do coreógrafo Jonathan Santos, apresentou uma proposta clara e bem definida, conectada diretamente à matriz africana que sustenta o enredo. O grupo surgiu com figurinos marcantes: vestidos vermelhos da cintura para baixo, criando impacto visual imediato, contrastando com turbantes brancos, que reforçam a simbologia ancestral e espiritual da apresentação.

Um dos destaques foi o dançarino que incorporou Exu, personagem central dentro da narrativa proposta. Sua fantasia dialogava com o sagrado, trazendo elementos que remetem à religiosidade afro-brasileira e à força do orixá mensageiro. A interpretação corporal foi intensa, com movimentos firmes de pés, giros bem marcados e gestos simbólicos, que representavam abertura de caminhos e comunicação entre mundos.

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A coreografia foi executada de forma organizada, com deslocamentos bem definidos para marcação de espaço do tripé. Os integrantes utilizaram o chão como referência cênica, ocupando a pista com consciência espacial, evitando dispersão. Houve momentos de formação em semicírculo, valorizando o personagem central, seguidos de aberturas laterais que simbolizavam caminhos sendo traçados. A leitura foi compreensível, e o conjunto conseguiu unir dança, narrativa e impacto visual, mostrando um trabalho que já possui identidade e entendimento do enredo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Erick Sorriso e Victória Devote apresentou alto nível de sincronia durante todo o ensaio. Erick Sorriso e Victória Devote dançaram com entendimento mútuo, mantendo conexão constante por meio do olhar e da condução precisa dos movimentos. A comunicação corporal entre os dois foi evidente, com entradas e saídas bem coordenadas, sempre respeitando o tempo do samba.

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Victória realizou giros seguros e bem distribuídos, com a bandeira aberta, limpa e valorizada, sem registros de enrolamento ou toque indevido no mestre-sala. Erick manteve postura correta, nunca ficando de costas para a porta-bandeira, protegendo o pavilhão com elegância e presença cênica. Os movimentos dialogaram com a melodia do samba, especialmente nos momentos de refrão, quando o casal intensificou a dança sem perder o controle.

Não houve falhas. Caso estivessem fantasiados, o figurino contribuiu positivamente para a leitura do ensaio, reforçando o comprometimento com a apresentação. Mesmo com possíveis interferências externas, como vento, o casal se manteve seguro, mostrando preparo técnico e entrosamento, pontos fundamentais para o rendimento do quesito.

HARMONIA

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A harmonia da Unidos de São Lucas apresentou momentos de bom rendimento, com destaque para alas que cantaram com força e constância ao longo do ensaio. Algumas alas do meio do desfile, como as posicionadas no segundo setor, mostraram canto mais consistente, ajudando a sustentar o samba na pista.

O intérprete Tuca Maia teve papel fundamental na condução do canto. O intérprete dialogou com a escola, incentivou respostas e manteve o andamento estável, o que contribuiu para que o samba não perdesse força ao longo do percurso. O carro de som acompanhou bem, garantindo equilíbrio entre voz principal e apoio, permitindo que a letra fosse compreendida.

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Houve momentos pontuais de canto irregular em algumas alas, com trechos executados de forma equivocada. Em determinados momentos, em que o verso correto é “Meu tambor ecoa heranças de um povo”, foi possível ouvir variações que descaracterizam a letra. Esses ajustes ainda são necessários, mas não comprometeram o todo. A participação da ala musical foi positiva e mostrou evolução, principalmente no entrosamento com a bateria.

EVOLUÇÃO

A escola desfilou cantando muito, com o samba ecoando pelo Anhembi em diversos momentos. A evolução apresentou pontos positivos, com alas alegres, soltas e sambando, valorizando a proposta do enredo. Algumas alas conseguiram desfilar sem excesso de fileiras, o que merece destaque, pois demonstra confiança e organização.

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Foram identificadas alas que embolaram em momentos específicos, exigindo atenção redobrada da direção de harmonia e evolução. Também houve necessidade de ajustes para preenchimento de espaços, com componentes retornando para fechar buracos na pista, atitude correta e positiva dentro do contexto de ensaio.

As alas coreografadas trouxeram dinamismo ao desfile, com movimentos simples, mas bem encaixados no samba, contribuindo para a leitura visual da escola. No geral, a Unidos de São Lucas mostrou organização e disposição para ajustes, entendendo o ensaio como espaço de construção.

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SAMBA

O samba de Bruno Leite e Ricardinho Olaria pede escuta e presença. Ele não chega atropelando, chega chamando. Desde o “Axé, mamãe”, o rendimento passa muito pela forma como o canto sustenta a espiritualidade do texto. Quando a escola canta junto, com atenção às palavras, o samba ganha densidade e se espalha pela avenida como um ritual coletivo. Quando o canto se fragmenta, a mensagem ainda existe, mas perde parte do impacto emocional.

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Há momentos em que a narrativa cresce naturalmente, como na passagem que fala da travessia, da escravidão e da resistência. Esse trecho costuma provocar resposta da comunidade, desde que o intérprete conduza com clareza e o carro de som mantenha o andamento confortável, sem ansiedade. Já no xirê e nas referências culturais, o rendimento depende muito da organização do canto: bem encaixado, o samba flui; desajustado, ele se torna pesado para quem vem atrás.

O intérprete tem papel central em transformar o samba em fala. Quando valoriza as pausas, aponta o refrão e conversa com a escola, o canto cresce e se mantém vivo. O carro de som, por sua vez, é quem garante o equilíbrio, permitindo que o samba respire e chegue inteiro até o final.

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No refrão derradeiro, a afirmação quilombola encontra força no coletivo. Se bateria, canto e condução caminham juntos, o samba não apenas rende, ele se impõe com identidade e verdade.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Pepita mostrou presença e conexão com a bateria, sambando com entrega e valorizando o ritmo da escola. Sua atuação reforça o diálogo entre chão e musicalidade, ponto importante para o conjunto do desfile.

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O mestre de bateria, Andrew Vinicius, comandou um trabalho consistente, com três bossas bem relacionadas ao samba e ao frevo, além de um paradão em que a bateria fecha completamente e a escola assume o canto, criando um momento de impacto coletivo. As bossas foram bem encaixadas, sem quebrar o andamento, e o paradão foi executado com segurança, evidenciando o entrosamento entre bateria, intérprete e comunidade.

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