Por Will Ferreira, Letícia Sansão, Gustavo Mattos e Eduardo Frois
Onze vezes campeã do principal pelotão da folia paulistana, a Nenê de Vila Matilde encerrou o primeiro dia de ensaios técnicos para o Carnaval 2026. No último sábado, a agremiação se apresentou pela primeira vez no Anhembi para defender o enredo “Encruzas – Nenê de corpo e alma no coração de São Paulo”, desenvolvido pelo carnavalesco Danilo Dantas. A Águia será a quinta agremiação a se apresentar no Grupo de Acesso I, no dia 15 de fevereiro. Em 59 minutos, a azul e branca se destacou pela cadência da Bateria de Bamba e pelo ótimo rendimento do samba-enredo matildense. Sempre presente em grandes eventos que envolvem escolas de samba em São Paulo, o CARNAVALESCO analisa o primeiro ensaio técnico da Nenê de Vila Matilde para o Carnaval 2026 – o segundo (e último) será em outro sábado, no dia 24 de janeiro.
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COMISSÃO DE FRENTE
Coreografados por Deny Diogo, os integrantes do segmento literalmente se vestiram como personagens intimamente ligados à rua – e, por consequência, às encruzilhadas, mote do enredo. Era possível observar mulheres que pareciam ciganas, um casal que lembrava os dançarinos de gafieira da primeira metade do século XX no Rio de Janeiro, malandros com roupas em tons terrosos e um dançarino que lembrava Exu – orixá citado no samba-enredo matildense, diga-se.

O segmento mostrou, também, algo que passou a ser raro no Carnaval paulistano: a completa ausência de tripés juntamente com os integrantes do bailado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Se estão dançando juntos pelo segundo ano consecutivo no Carnaval de São Paulo, Edgar Carobina e Graci Araújo parecem ter iniciado a dança em conjunto. A sincronia entre os dois é notável, assim como o entendimento pelo olhar e a elegância de cada um deles individualmente – o que potencializa a polidez da dupla na pista. Vale destacar que, cerca de uma hora antes da passagem da Nenê de Vila Matilde pelo Anhembi, uma chuva torrencial caiu no Sambódromo – algo que deixa a atuação de ambos ainda mais destacada.
Vale pontuar, também, o extremo bom gosto da dupla na vestimenta. Em um tom escuro de azul (cor da agremiação), a roupa escolhida deixou a apresentação ainda mais agradável.

“Hoje foi emocionante. A gente veio com bastante energia e revigorados. Teve mudança de cabine, mas como deu tudo certo, a gente sai com aquela paz de espírito. Foi incrível, eu não me recordo de um ensaio específico onde a arquibancada interagisse tanto quando a gente passa. Para mim, foi o ensaio, como primeira porta-bandeira, mais emocionante que eu já fiz”, disse a porta-bandeira.
“Foi um ensaio bem marcante. A gente via bandeiras de todas as escolas de samba e o pessoal interagindo com a gente, gritando nosso nome. Foi muito surpreendente. As cabines acabaram mudando. Mas graças a Deus a gente conseguiu atingir nosso objetivo. Hoje foi mais pra testar o nosso fôlego, sentir a energia do Anhembi e se Deus quiser, vamos atingir nosso objetivo maior, que é ser campeão do carnaval e trazer o resultado pra escola”, completou o mestre-sala.
HARMONIA
Escolas da Zona Leste de São Paulo são conhecidas pelo alto volume que os componentes das respectivas agremiações fazem. Tal característica se fez bastante presente no ensaio técnico da Nenê: o canto foi bastante uniforme e, em momento algum, deixou a desejar – o que, inclusive, trouxe a resposta do bom público nas arquibancadas, que cantou junto com quem estava na passarela.
O destaque positivo vai para uma ala que tinha uma espécie de arco-íris feito com faixas dentro do respectivo agrupamento de desfilantes. Logo atrás de tal conjunto de pessoas, os componentes cantavam ainda mais forte que o normal – algo que impressionou quem viu a passagem dessas pessoas pelo Anhembi.

“A avaliação que eu faço é que a expectativa foi a melhor possível. Que o nosso samba na escolha teve algumas resistências, eu particularmente precisava mostrar para a comunidade da Nenê de Vila Matilde que esse samba servia sim para escola. O samba funcionou. Foi o nosso primeiro teste. No dia 24 vai ter mais um que vai ser melhor ainda. Para o primeiro ensaio a escola está de parabéns, mas sempre tem alguma coisa para melhorar. Agora é rever, assistir os vídeos, para gente ver qual ponto a escola pode melhorar. Podem esperar uma Nenê de Vila Matilde mudada e vibrante. Com uma comunidade cantando, com um barracão que já está 85% pronto… Falta pouca coisa no barracão. Fantasias prontas”, comentou o intérprete Tiganá.
EVOLUÇÃO
Por vezes, o canto firme de uma escola indica que houve certa despreocupação com alinhamentos e organização. Não foi o que aconteceu na Nenê: compacta, a agremiação mostrou muita fluidez para desfilar – encerrar o ensaio técnico com um minuto a menos que o máximo permitido para o Grupo de Acesso I é prova disso.

É importante destacar que, ao contrário de boa parte das coirmãs, a Águia não trouxe alas coreografadas para o ensaio técnico. E, apesar disso, era possível notar a atenção do staff que ficava no corredor lateral para que ninguém saísse do espaço que deveria ser ocupado – algo que, quando acontecia, era imediatamente corrigido, mas sem a truculência que alguns harmonias por vezes têm.
SAMBA
Se o samba-enredo da Nenê de Vila Matilde para o Carnaval 2026 sofreu críticas mistas quando foi escolhido, é necessário destacar o quanto a canção está crescendo. Desde a gravação do clipe oficial da agremiação, é possível notar o quanto a obra ganhou arranjos que valorizaram a musicalidade matildense e das encruzas. Ao vivo, ele ganhou ainda mais força.

Alguns trechos em tons menores do samba-enredo, é bem verdade, deixam a obra melodicamente rica, mas acabam não sendo tão comprados por todos os componentes – algo que sempre pode ser trabalhado. Os versos “Adaké Exu/Exu Mojubá/Laroye no canjerê/Firma ponto que lá vem Nenê” e “Sampa, o meu quilombo é quem diz/Salve a Terra da Garoa!/Na maior encruza do país”, por motivos distintos, são os pontos fortes da obra: a primeira evoca a ancestralidade afrodescendente de uma escola que sempre recebeu muito bem enredos afro; a segunda traz frases bastante simples de se cantar, com chavões muito conhecidos pelos paulistanos.
OUTROS DESTAQUES
Desde 2019 como rainha da “Bateria de Bamba”, Gabriela Ribeiro deu show de comunicação com o público presente no Anhembi. As bossas dos ritmistas comandados por mestre Matheus Machado contagiaram, assim como a cadência menos acelerada dos batuqueiros, e foi possível ver até o estreante intérprete Tiganá se sentindo bem à vontade, subindo na grade para mexer com o público.

“É uma imagem positiva. A gente vem ensaiando há bastante tempo dentro da nossa quadra, mas hoje com a ala musical, escutando o que a gente vai fazer na avenida, eu achei bem positivo. Com certeza, tem coisas a melhorar, mas a gente está no caminho do 100% que a gente quer tanto, mas faltam alguns detalhes para chegar onde a gente almeja. Fazer bossas mais dinâmicas e mirabolantes já uma característica minha como mestre, já venho alguns anos fazendo isso. Sempre tem um grau de dificuldade maior a cada ano, o regulamento exige isso”, explicou o mestre.










