Por Marielli Patrocínio e Maria Estela Costa

Nilópolis viveu mais do que um ensaio. No encontro de quilombos, tendo como convidada a Unidos de Vila Isabel, a Beija-Flor levou para a rua um treino com cara de desfile e força de comunidade. O canto veio tão potente que, em diversos momentos, se sobrepôs ao carro de som.

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O enredo “Bembé”, que carrega espiritualidade, ancestralidade e resistência como eixo central, já se impõe no corpo da escola, não sendo apenas cantado, mas também vivido. Cada ala parecia compreender o que estava sendo contado, e isso se refletiu diretamente na entrega, no canto e na postura da comunidade.

“Eu estava com o rádio no ouvido e estava com dificuldade de ouvir o rádio porque o canto estava mais alto”, contou o diretor de carnaval Marino, visivelmente impactado com o rendimento da escola. “Desde que eu cheguei na Beija-Flor, eu nunca vi um ensaio como o de hoje em termos de canto”, afirmou.

A sensação geral era de uma comunidade cantando por vontade própria, sem ser empurrada, sem ser cobrada. “A Beija-Flor tem uma aura diferente, uma energia diferente. Isso é natural, não é forçado. Se você tentar forçar, é brigar à toa. Hoje a energia estava explodindo sem a gente pedir”, completou Marino.

COMISSÃO DE FRENTE

Assinada pelos coreógrafos Saulo e Jorge, a comissão de frente, composta por 15 integrantes, quatorze homens e uma mulher, mostrou um trabalho já bem assentado. Coreografia clara, demarcação de espaço bem definida e uso inteligente da área. O grupo entrou organizado, sem dispersão, sem atropelo e com leitura limpa da proposta.

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Os movimentos foram executados com sincronia e precisão, facilitando a compreensão do público e valorizando o impacto visual. Mesmo em contexto de rua, a comissão apresentou segurança e controle, mostrando que o desenho coreográfico está fechado e bem assimilado pelo grupo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha Sorriso, dupla que tem mais de três décadas de parceria, apresentou entrosamento absoluto, muito carisma e comunicação constante. Os giros foram seguros, os deslocamentos limpos e a proteção à porta-bandeira foi feita com precisão.

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Claudinho manteve postura elegante e condução firme, enquanto Selminha girava com leveza e domínio, mantendo o pavilhão sempre aberto e valorizado. Uma apresentação segura, madura e tecnicamente muito bem resolvida.

HARMONIA

A harmonia foi, sem exagero, um dos grandes destaques do ensaio. Todas as alas cantaram forte, sem oscilações perceptíveis entre setores. Não houve alas apagadas, nem queda de volume ao longo do percurso. O canto veio coeso, claro e afinado.

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A comunidade respondeu com entrega total, sem confusão de letra, sem troca de versos, sem dispersão. Os intérpretes e o carro de som, mesmo em volume mais baixo, conseguiram se entrosar com a escola e sustentar o andamento. Ainda assim, foi nítido que quem carregou o ensaio foi o povo.

Marino reforça essa leitura emocional do ensaio. “Para mim, o que valeu hoje não foi só a técnica, que foi ótima. O ensaio valeu pela emoção. Ver o componente sorrindo, feliz, cantando, gritando… mais espontâneo do que isso é impossível.”

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EVOLUÇÃO

A escola mostrou organização e maturidade, com uma evolução bem fluida, de forma coesa, sem embolos, sem correrias e sem lentidão. Não se observaram buracos na pista nem necessidade de retorno de alas para correção de espaço.

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O andamento foi regular, com boa ocupação da rua e leitura clara de fluxo. Destaque também para as alas soltas, sambando, alegres, sem rigidez excessiva de fileira, trazendo vida ao conjunto e valorizando o desfile. Uma evolução limpa, segura e confortável.

SAMBA

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O samba apresentou bom rendimento ao longo de todo o ensaio, com encaixe confortável no andamento e resposta imediata da comunidade. Os refrões vieram fortes, a letra sustentada e não houve queda de energia, o que mostra uma obra já assimilada pela escola.

A bateria, dos mestres Rodney e Plínio, foi um dos grandes motores da noite. Além da potência e da precisão, chama bastante atenção o uso dos atabaques, que dialogam diretamente com o “Bembé” e reforçam a identidade ancestral da proposta. O toque traz densidade, intensidade, fundamento e um clima ritualístico.

As bossas e paradinhas foram bem executadas, levantaram o público e empurraram ainda mais o canto da comunidade, criando uma resposta imediata da pista.

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O mestre de bateria Rodney fez um balanço positivo, mesmo apontando a limitação do som. “Foi o segundo ensaio de rua e, mais uma vez, a escola veio muito coesa, cantando muito, harmonia perfeita, bateria muito bem. O problema foi a deficiência do carro de som. A bateria estava na íntegra, com 160 ritmistas, e o carro não suportou. Mas, na diversidade do som, a escola se comportou maravilhosamente bem. Isso é um grande sinal”. Ele completa: “A escola supre. Isso mostra que a gente está preparado para fazer um grande desfile.”

OUTROS DESTAQUES

Entre os destaques, a rainha de bateria Lorena Raissa chamou atenção logo no início ao enfrentar um problema com o salto, chegando a sambar por um momento descalça. A situação foi rapidamente resolvida, e ela seguiu sambando com ainda mais entrega, presença e energia, mantendo a interação com o público e a bateria.

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O ator Samuel de Assis, destaque da escola, foi outro nome que brilhou. Mostrou samba no pé, carisma e envolvimento real com a comunidade. Samuel não fica em postura protocolar; pelo contrário, vive o ensaio, interage, sorri, samba e se conecta com o público, reforçando o clima de alegria e pertencimento.

Entre os destaques da noite, também está a prata da casa, o sambista Cássio, que entregou um espetáculo à parte. Com samba no pé afiado, irreverência natural e carisma de quem conhece cada centímetro da escola, ele incendiou a pista com leveza, personalidade e identidade em movimento.

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